Costureiras da cidade são destacadas em estudo antropológico

quinta-feira, 07 de outubro de 2010
por Jornal A Voz da Serra

Um estudo antropológico sobre costureiras de Nova Friburgo

Maurício Siaines

Wecisley Ribeiro do Espírito Santo é um friburguense nascido em 1980, filho de uma costureira e que estudou Educação Física na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em Seropédica (RJ). Foi professor da rede estadual em diferentes municípios do estado do Rio, até que resolveu fazer mestrado em antropologia, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Museu Nacional.

Sua dissertação, defendida em fevereiro de 2009, teve como título Trabalho, gênero e lingerie: tradição e transformação nas trajetórias das costureiras de roupas íntimas de Nova Friburgo-RJ e foi resultado de trabalho de campo iniciado em 1º de abril de 2008, na busca de “diversos aspectos da cultura operária”, pesquisa esta que incluiu nove entrevistas, duas delas com Luzia Falcão, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Vestuário de Nova Friburgo, uma com um representante do Sebrae no Conselho da Moda de Nova Friburgo, outra com uma consultora do Senai, responsável por auxiliar a classe patronal nas questões de produtividade, e cinco com trabalhadoras do setor.

A aproximação com as trabalhadoras incluiu, em seu início, viagens de ônibus que tinham como único intuito ouvir os temas das conversas entre as trabalhadoras, o que lhe permitiu começar a se familiarizar com questões importantes para a vida das pessoas que compunham o grupo social que pretendia estudar. Recorreu também a outras costureiras com as quais já tinha relações de amizade. O estudo baseou-se também em dados obtidos através do IBGE e da Firjan e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

A VOZ DA SERRA – Você acredita que esteja acontecendo uma mudança na cultura desta cidade causada pelo novo papel que as mulheres costureiras passaram a desempenhar nas relações familiares?

Wecisley Ribeiro – Em primeiro lugar, o processo de mudança inclui uma domesticação do mercado, como chamou a antropóloga Suzanne Brenner, que significa transformar o mercado – que muitas vezes é cruel – em algo diferente. A relação entre o público e o privado é explodida. Nisto há o sentido de submeter o mercado, de alguma maneira, conseguir jogar com ele. Essas mulheres construíram o que se chama hoje de polo de moda íntima de Nova Friburgo. Um dos elementos fortes que compõem a identidade de Nova Friburgo, hoje, é o polo de moda íntima. E isto aconteceu próximo às casas, ao ambiente doméstico. O caráter artesanal da costura e o trabalho em domicílio fazem emergir questões de gênero, mas também levantam tópicos de antropologia econômica.

AVS – E os homens nesse processo?

Wecisley – A ideia de domesticação do mercado da Suzanne Brenner, que usei em meu trabalho, implica uma feminilização das relações sociais, decorrente de maior inserção e atuação feminina. O processo de fragmentação do trabalho tende a fazer com que cada casa se transforme também em uma unidade produtiva e, com isto, a esfera doméstica, que em nossa concepção ocidental é tradicionalmente concebida como uma esfera feminina, passa a ser concebida também como esfera pública. E isso tem a ver com o trabalho das mulheres e com a tentativa de encontrar uma solução para o marido que está desempregado. Na medida em que isto vai mudando, os valores vão se adaptando. Um outro autor, Oliver Schwarz, faz distinção entre a autoridade e o governo da casa. Em um estudo que realizou em uma cidade do norte da França, ele aborda um hábito muito difundido entre os operários, que é o do marido entregar o dinheiro para a mulher, tirando uma parte para seus pequenos gastos. E quem vai administrar a vida doméstica, incluindo seus custos em dinheiro, é a mulher. E aí o Oliver Schwarz diz que o governo da casa fica nas mãos das mulheres. Essa coisa de manter a posição de dominância do homem tem a ver com essa situação fragilizada em que há o desemprego.

AVS – No doutorado você está estudando as relações sociais em outro polo de confecções, em outra parte do Brasil, em Caruaru (PE). Que diferenças você encontra em relação a Nova Friburgo, no que diz respeito às relações de gênero?

Wecisley – Em Nova Friburgo, os homens ainda não entraram em maior escala no trabalho de costura. Até existem muitos, hoje em dia muito mais do que quando eu estava fazendo a pesquisas de campo, em 2008, mas em comparação com outros polos de confecção, o número é pequeno. Lá em Caruaru, cerca de 50% dos trabalhadores da costura são homens.

AVS – E como você interpreta este fato?

Wecisley – Em Caruaru, os preconceitos relacionados aos papéis masculino e feminino foram superados antes de nós, apesar da concepção estereotipada que se tem do homem nordestino, que seria mais machista. No Nordeste, eu conversei com alguns costureiros e verifiquei a clareza que eles têm de que o que aconteceu foi um processo de construção de riqueza baseado em uma iniciativa fundamentalmente feminina, em que os homens entraram depois. Foram as mulheres que transformaram o terreno árido do agreste em um lugar em que é possível viver bem. Isto tem um papel importante no caso da relação entre marido e mulher, na relação doméstica, especialmente quando há desemprego masculino. Se, por um lado, a costureira não tem uma estabilidade, por outro ela tem o que é chamado de empregabilidade. Nesse caso, quando o marido está desempregado e a mulher tem essa condição, isto pode significar uma repercussão negativa em termos de orgulho do marido, que antes era entendido como o provedor, que pode passar a sentir como se estivesse acontecendo uma perda de potência, uma perda de masculinidade, e isto é um drama para as mulheres, que ficam tentando encontrar alternativas para os maridos e fazem um esforço para manter o marido simbolicamente na posição central, que, na concepção dessa mulher, dessa família, é a relação normal.

AVS – E com relação às possibilidades econômicas dessa nova divisão de trabalho?

Wecisley – Em Friburgo, não é suficiente a pessoa saber costurar e ter uma máquina para trabalhar, é preciso que ela tenha um mínimo de contato com sacoleiros ou com outro tipo de rede de clientes. Em Caruaru é suficiente saber costurar e ter uma máquina, porque a produção é toda vendida na feira, que é uma tradição antiga da cultura local e que é uma coisa impressionante, com gente do Brasil todo; vai gente de Cidade do Leste comprar roupa lá. Lá estão 70% da produção de vestuário do Nordeste, 30% do Brasil inteiro.

AVS – E quanto à questão da legalidade das unidades produtivas da moda íntima?

Wecisley – Em Friburgo e adjacências, de acordo com o site do Ministério da Indústria e Comércio Exterior, existiam 700 unidades produtivas no ramo da confecção, em 2005, das quais 500 eram legalizadas e 200 informais. Em Caruaru, são 14 mil unidades produtivas das quais apenas 8% são formais. Trata-se de uma realidade em que há um conflito entre legalidade e legitimidade social, porque, se por um lado, o trabalho informal é concebido como ilegal, por outro, é perfeitamente legítimo do ponto de vista social, das pessoas que estão inseridas nessas relações de produção e de comércio. A informalidade também é legitimada pelas empresas formais que contratam o trabalho informal através da facção. Isto é parecido com a transnacionalização da produção e pode substituí-la. Eventualmente, pode ser mais barato contratar empresas e profissionais autônomos locais informalmente do que fazer isto na China, por exemplo, depende de cada caso particular.

AVS – E isto, para quem ficou desempregado, ainda é melhor do que o desemprego?

Wecisley – É melhor que o desemprego. Dentro da lógica pós-fordista, em que a supervisão da produção é transferida – aqui no nosso caso – para as próprias costureiras, há práticas de negociação possíveis. As costureiras sabem negociar com a empresa da confecção. Elas jogam, por exemplo, com a qualificação. Se uma costureira trabalha há três anos para uma confecção e produz uma grande quantidade de peças por dia, não quiser mais trabalhar depois das sete horas da noite e a empresa não concordar e resolver tirar-lhe a máquina, a costureira pode argumentar, dizendo que a empresa vai ganhar menos ainda, porque a empresa teria que treinar outra pessoa. É claro que é um regime de exploração da mão de obra, em ambiente familiar e informal, que está à margem da fiscalização trabalhista, porque está no interior das casas. Conheço costureiras que trabalham das 7h às 22h todos os dias, inclusive sábados e domingos, é um regime de intensa exploração da mão de obra. Mas isto é compensado pelo fato de a jornada de trabalho ser porosa, embora seja muito grande; a costureira pode interromper o trabalho, conversar com uma colega, pode assistir à televisão, enquanto costura. E isto interessa a essa costureira. A confecção não tem o poder de impor a jornada de trabalho. Como a costureira ganha por peça, ela quer produzir mais.

Uma das costureiras que foram minhas informantes trabalha até às 22h, tem um filho de 16 anos e é mãe solteira. Ela entrou nesse regime de produção para poder cuidar do filho. Mas hoje, o filho estuda no Senai e tem uma bolsa de meio salário mínimo, o que faz com que ele não peça mais dinheiro a ela. Mas ela continua trabalhando nesse ritmo porque quer continuar com o mesmo nível de ganho.

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