Como você a vê a atual polarização política e as manifestações de domingo?

Confira as opiniões de Monique Schuabb e Thiago Mello
sexta-feira, 11 de março de 2016
por Jornal A Voz da Serra
(Foto: Domínio público/ CC0)
(Foto: Domínio público/ CC0)

Neste domingo,‭ ‬13,‭ ‬estão previstas manifestações por todo o país em combate à corrupção.‭ ‬O Brasil vive atualmente uma situação polícia singular e delicada.‭ ‬Vemos os ânimos acirrados,‭ ‬com grande parcela da população se posicionando sobre temas políticos,‭ ‬principalmente em torno do combate à corrupção recente tendo como alvo o alto escalão da política e grandes empresas do país.‭ ‬Muitos analistas,‭ ‬inclusive,‭ ‬afirmam que o país está dividido:‭ ‬PT x PSDB,‭ ‬petistas x antipetistas,‭ ‬antipetistas x antipetistas,‭ ‬golpistas x republicanos,‭ “‬coxinhas‭”‬ x‭ “‬petralhas‭”‬,‭ ‬e por aí vai.‭ ‬Nova Friburgo não foge à regra e deverá ter ato público por aqui também organizado pelas redes sociais.‭   

Para contribuir para a construção de um Brasil que respeite a pluralidade de opiniões,‭ ‬A VOZ DA SERRA convidou dois proeminentes cidadãos,‭ ‬Thiago Mello e Monique Schuabb,‭ ‬para compartilhar com nossos leitores sua visão sobre a situação atual da política brasileira.‭ ‬

Confira:

Como pensar uma‭ ‬democracia em um país cujo povo culturalmente se nega ao debate‭?‬ Como compreender os avanços de uma democracia quando boa parte de sua população não compreende a quem cabe essa ou aquela competência administrativa e todos apontam ao governo central a responsabilidade de todas as mazelas e malfazejos existentes‭?‬ Como ponderar o razoável enquanto tudo é indignação de torcida de futebol,‭ ‬desconsiderando os vícios tão cotidianamente naturalizados,‭ ‬que atingem a todas as siglas e grupos políticos,‭ ‬sem distinção‭?‬

Um ditado consagrado no qual religião,‭ ‬futebol e política não se discutem e isso revela muito de nossa cultura autoritária e conformada,‭ ‬interessada nos consensos fáceis,‭ ‬no pouco questionamento e na aceitação soberana de que as coisas‭ ‬“tal como são‭”‬.‭ ‬Mas,‭ ‬na‭ ‬democracia alguma coisa sempre está fora da ordem pois existe um outro,‭ ‬desagradável,‭ ‬que teima em se pronunciar e temos que tolerar sua existência e as possíveis adesões,‭ ‬por mais que suas ideias pareçam estapafúrdias ou absurdas e‭ ‬possam arrebatar em votos e vozes.

Nesses incríveis‭ ‬27‭ ‬anos de‭ ‬democracia,‭ ‬passamos a sofrer as angústias naturais de quem descobre que na liberdade há também um ônus considerável e,‭ ‬creio,‭ ‬enfrentamos depois das eleições de‭ ‬2014‭ ‬a verdade revelada de nossa enorme fragilidade sócio-política.‭ ‬Descobrimos enfim que não basta um líder ou governo salvador,‭ ‬pois,‭ ‬no tapete há muito além da poeira empurrada:‭ ‬a poeira é o tapete.

Nossa‭ ‬“governabilidade‭”‬ torna todo e qualquer governo refém de coalizões regionais,‭ ‬tecido arraigado de práticas de poder pelo cabresto,‭ ‬compra de votos,‭ ‬corrupção historicamente estabelecida.‭ ‬Noutra ponta,‭ ‬a Constituição criou o‭ ‬“controle social‭”‬ na forma de‭ ‬conselhos‭ (‬municipais,‭ ‬estaduais,‭ ‬etc.‭) ‬destinados à vigilância do uso dos recursos públicos,‭ ‬mas não ocupamos esses espaços,‭ ‬pois falta tecido para ocupar todos esses espaços,‭ ‬assim como falta cultura,‭ ‬afinal não discutimos política,‭ ‬não é mesmo‭?

Nesse contexto,‭ ‬nossa intolerância à corrupção parece resumida a um único partido,‭ ‬como se‭ ‬“eliminá-los‭”‬ fosse o suficiente para salvar o Brasil,‭ ‬desconsiderando que os esquemas denunciados foram apenas continuados,‭ ‬seu corpo e robustez tem lastro de mais de‭ ‬50‭ ‬anos de história política e cujo o principal partido operador preside o Senado,‭ ‬a Câmara,‭ ‬tem o maior número de‭ ‬prefeituras e de‭ ‬governos de‭ ‬estados,‭ ‬fazendo e forçando pactos pela‭ ‬“governabilidade‭”‬,‭ ‬ou seja,‭ ‬que a maioria de nós é cumplice a esse estado geral das coisas.‭

Nesse sentido,‭ ‬admitir a seletividade da pena e dos culpados,‭ ‬a orientação exclusiva da espada,‭ ‬aliviando aos‭ ‬“opositores‭”‬,‭ ‬é dar carta branca para que esfreguem em nossa cara nossa ignorância,‭ ‬nosso papel de gado,‭ ‬condenando as pautas sociais,‭ ‬construídas por inúmeros movimentos sociais legítimos e históricos,‭ ‬construídos por muita luta e abnegação de brasileiros e brasileiras em todas as regiões,‭ ‬à satanização de único partido.‭

Precisamos aceitar que viver em‭ ‬democracia é,‭ ‬além de uma dádiva,‭ ‬um fardo necessariamente carregado por todos em que é preciso defender o debate,‭ ‬acima de tudo‭; ‬defender‭ ‬que reconhecer os avanços não faz de ninguém‭ ‬“petralha‭”‬,‭ ‬assim como criticar não faz de ninguém‭ ‬“coxinha‭”‬.‭ ‬Que é preciso a legalidade imparcial.‭ ‬Que isso não é um Vasco e Flamengo.‭ ‬Não se resume aos bons contra os maus.‭ ‬Enfim,‭ ‬vamos discutir política‭?‬
 
Thiago Mello, advogado

 

O Brasil vive‭ ‬uma crescente polarização política,‭ ‬fruto de uma militância que dividiu o país entre‭ ‬‘nós e eles‭’‬.‭ ‬Uma coisa é a divergência de ideias,‭ ‬o contraditório,‭ ‬que é até saudável,‭ ‬democrático.‭ ‬Outra coisa é a polarização política,‭ ‬onde o contraditório dá lugar ao radicalismo,‭ ‬não há o convite à reflexão‭ ‬-‭ ‬tudo é tudo e nada é nada‭ ‬-,‭ ‬não se admite um meio termo‭ ‬e,‭ ‬portanto,‭ ‬qualquer debate acaba sendo‭ ‬esvaziado.

Em uma sociedade onde não se admite a pluralidade de ideias,‭ ‬mas somente as‭ ‬‘nossas e as deles‭’‬,‭ ‬podemos considerar que esta sociedade encontra-se seriamente comprometida na questão da democracia.‭ ‬No entanto,‭ ‬o Brasil tem demonstrado que o espírito cívico tem sido muito maior do que a tentativa de servidão voluntária,‭ ‬ou seja,‭  ‬aquela em que a análise crítica dá lugar à alienação.

O Brasil não é só samba,‭ ‬carnaval e futebol.‭ ‬O Brasil é política também.‭ ‬E os brasileiros não se convencem mais com os velhos discursos políticos.‭ ‬O povo está muito mais informado do que antes e quer uma sociedade mais justa,‭ ‬quer um país livre da corrupção e com igual oportunidade a todos,‭ ‬não apenas privilegiando‭ ‬a uma pequena casta.‭ ‬Poder encher o carrinho de compras do supermercado é um direito de todos nós,‭ ‬não pode ser um‭  ‬privilégio de poucos.

A sociedade tem tomado às ruas numa clara demonstração de que é preciso passar o Brasil a limpo.‭ ‬É preciso preparar um futuro melhor para as próximas gerações.‭ ‬Mas isso só é possível com a união de todos,‭ ‬sem a divisão do‭ ‬‘nós e eles‭’‬,‭ ‬mas com foco no Partido Brasil,‭ ‬do qual todos nós somos representantes.

Domingo,‭ ‬dia‭ ‬13‭ ‬de março,‭ ‬às‭ ‬15h,‭ ‬na Praça Dermeval Barbosa Moreira,‭ ‬#VemPraRuaFriburgo

Monique Schuabb, blogueira e‭ ‬responsável pela página Transparência Nova Friburgo

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