Coletas de sangue suspensas já afetam cirurgias no Raul Sertã

Hemocentro está sem reagente químico. Prefeitura diz que houve atraso no pagamento a fornecedor
terça-feira, 11 de setembro de 2018
por Alerrandre Barros (alerrandre@avozdaserra.com.br)
Coletas de sangue suspensas já afetam cirurgias no Raul Sertã

Selma Mozer voltou ao Hemocentro Regional, em Nova Friburgo na manhã desta terça-feira, 11, para saber se pode trazer o pai, José de Oliveira Ramos, de 82 anos, para transfusão de sangue. O idoso está com anemia e precisa passar pelo procedimento antes de continuar com as sessões de quimioterapia. O hemocentro tem estoque do sangue do tipo de seu José, o O negativo, mas falta reagente químico necessário à análise das bolsas. As doações de sangue estão suspensas desde a semana passada e já afetam cirurgias no Hospital Municipal Raul Sertã.

“Meu pai faz quimioterapia no Hospital São José, em Teresópolis. Ele sofre de neoplasia maligna e foi encaminhado para transfusão de sangue porque foi diagnosticado com anemia grave. Estive no hemocentro nesta segunda-feira, 10, mas me disseram que não havia o reagente. Voltei nesta terça-feira, 11, e o problema continua”, disse a ajudante de cozinha de 48 anos (foto).

 

O pai de Selma está em casa, na Ponte da Saudade, e precisa passar pela transfusão até a próxima sexta-feira, 14, caso contrário não poderá dar continuidade ao tratamento quimioterápico na segunda-feira, 17. “Eu sou doadora do hemocentro. Eles me disseram que há mais de 100 bolsas no estoque, mas falta o reagente para análise. Vão deixar uma pessoa morrer por causa da falta de um reagente? Vão perder todas essas bolsas, inclusive, aqueles com sangues mais raros?”, desabafou Selma.

Na última segunda-feira, 10, os vereadores Wellington Moreira (MDB), Marcinho do Alto (PRB) e Zezinho do Caminhão (Psol), integrantes da Comissão de Saúde da Câmara Municipal, protocolaram denúncias nos Ministérios Públicos Estadual e Federal sobre a situação do hemocentro, após receberem queixas da falta do insumo para análise do sangue. De acordo com a denúncia, a coleta estaria suspensa desde a última quinta-feira, 6.

“Soubemos também que o coordenador do hemocentro, Roberto Nidecker, teria comunicado à Secretaria Municipal de Saúde que o estoque do reagente estava acabando no dia 20 agosto, mas nada teria sido feito. Tentamos obter o ofício encaminhado por ele, mas ainda não conseguimos com a prefeitura. Queremos que a prefeitura esclareça isso”, afirmou Zezinho do Caminhão.

Na denúncia encaminhada aos MPs, os vereadores também afirmam que o hemocentro não tem um hematologista, que é o responsável técnico pela coleta de sangue. A VOZ DA SERRA esteve no hemocentro, na manhã desta terça-feira, 11, mas nenhum funcionário quis comentar o assunto. Roberto Nidecker também foi procurado pela equipe de reportagem, mas disse que não tinha autorização da Secretaria Municipal de Saúde para falar com a imprensa.

Ainda nesta terça-feira, 11, vereadores disseram que receberam relatos de que cirurgias no Hospital Municipal Raul Sertã já teriam sido suspensas por falta de sangue disponível para os procedimentos. As cerca de 180 bolsas que estão no estoque podem ser descartadas, se não forem utilizadas no prazo. O hemocentro, anexo ao Raul Sertã, fornece sangue para 13 municípios da região. Os atendimentos de emergência nos hospitais locais, portanto, podem ser afetados com o problema.

O Ministério Público estadual informou, por meio da 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Nova Friburgo, que recebeu a denúncia e encaminhou, no mesmo dia, um ofício ao prefeito Renato Bravo e à secretária municipal de Saúde interina, Tânia Trilha, solicitando informações sobre a carência dos reagentes e a falta de um profissional de responsabilidade técnica no hemocentro. O governo tem 48 horas para se manifestar, sob pena de medida judicial.

Em nota, a prefeitura disse que “houve um atraso no processamento do pagamento da empresa, mas, a expectativa é que hoje mesmo a situação já esteja resolvida”. A Secretaria Municipal de Saúde confirmou que a coleta de sangue está suspensa desde o dia 6 de setembro, mas destacou “que nenhum procedimento será prejudicado, como cirurgias programadas, emergências, bem como o tratamento de soropositivos e de pessoas em hemodiálise”.

 

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