Maurício Siaines (*)
Com quase 101 anos morreu em Paris, em 31 de outubro de 2009, o antropólogo Claude Lévi-Strauss. Sua morte ensejou diversas reportagens e entrevistas em que ele é apontado como um dos grandes pensadores do século XX. É dessa qualidade de pensador que pretendo tratar aqui.
O médico francês Gilles de Catheu, radicado no Brasil, em Rondônia, onde integra o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), esteve com Lévi-Strauss no dia 17 de outubro de 2009, duas semanas antes de sua morte. Queria conversar com ele a respeito de experiências que ambos tiveram entre os indígenas de determinada região de Rondônia. Ele registrou a seguinte reação de Lévi-Strauss ao receber dele um presente:
“Entreguei como lembrança um artesanato de Rondônia, um marico (bolsa tecida com fibras de palmeira tucumã) feito por uma mulher canoé. Ele segurou o marico, olhou com interesse as malhas, apalpou com dedos centenários o objeto de tradição milenar. Penso que foi a primeira vez que teve em mãos um marico, pois na viagem dele a Rondônia não chegou a encontrar os povos que o fabricam. Nunca vi tanta alegria contida e emoção ao receber um artesanato oferecido. Ele agradeceu.” (Gilles Catheu, O Globo, 7/11/2009)
Essa “alegria contida e emoção”, que Catheu identificou foram características de um homem de pensamento que, mesmo no fim da vida, quando seu corpo tinha pouca energia, com quase 101 anos, era capaz de se entusiasmar ao receber algo que lhe revelava uma série de aspectos da vida social. Não era apenas uma cestinha ou coisa parecida que pudesse ser encontrada no mercado. É possível que naquele marico estivesse a se manifestar um aspecto do que ele, Lévi-Strauss, chamava de “espírito humano”, que procurou encontrar em tantas e tão diferentes descrições de vidas de povos que analisou e interpretou. Da mesma maneira, até muito pouco antes de ver-se mais limitado fisicamente, há poucos anos, ao sofrer a fratura de um fêmur, o famoso antropólogo recebia trabalhos de colegas de várias partes do mundo, lia-os e respondia a seus autores discutindo o que havia sido proposto.
Essa vitalidade não é exatamente aquela – tão cantada, hoje em dia – por quem gosta de listar as qualidades necessárias à conquista de lugar no mercado de trabalho. É comum, hoje, verem-se pessoas de alguma experiência profissional falando aos jovens da necessidade de estarem “antenados” com as novas tecnologias e de serem rápidos na resposta diante de oportunidades, seja lá para o que for. São pregações que costumam estar acompanhadas de estalar de dedos, a simbolizar a presteza exigida por estes novos tempos. Essa ‘ideologia da rapidez’, porém, não é nova: nos velhos filmes de cowboys, eram valorizados os ‘rápidos no gatilho’. A rapidez é consequência da habilidade e, para conseguir-se esta é preciso exercitar uma característica essencialmente humana, que permite a percepção de realidades: o pensamento. Sem ele, a percepção não tem significado, é apenas uma sensação que pode induzir a determinada a ação, como acontece com os animais. Sem capacidade de pensar, um marico elaborado com técnica milenar nunca seria apalpado. Provavelmente, seria descartado.
Lévi-Strauss deu uma grande contribuição às ciências sociais. Ainda há quem ache que o entendimento da vida social não requeira atitude científica, apenas percepção rápida como um estalar de dedos e ação imediata. Para se compreender um problema que se apresente, em qualquer área, é preciso pensar. Se vivemos situações críticas na sociedade, é preciso pensar a sociedade e os valores que a organizam e estruturam. É preciso, é claro, a vivência do problema, mas é igualmente necessário pensar com clareza a respeito dele para se fugir às soluções baseadas em impulsos, rancores, ressentimentos, preconceitos ou acomodações a esta ou aquela situação.
Lévi-Strauss foi um exemplo de pensador. Existiram outros, mas este estava vivo ainda outro dia e, embora ele próprio achasse que o mundo atual não fosse mais o seu mundo, sua vida e sua extensa obra são exemplos de uma capacidade humana que parece estar sendo desdenhada: a capacidade de pensar. Em qualquer disciplina, é o pensamento o importante a ser mostrado, pois, como já disse o poeta Lupicínio Rodrigues, “o pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa, quando começa a pensar”.
(*) Jornalista, mestre em sociologia

Deixe o seu comentário