Ao passar por uma das ruas mais movimentadas da cidade, a Monte Líbano, a estudante de Comunicação e repórter da TV Zoom, Lívia Ruiz, se deparou com uma cena inusitada. Um homem segurava nas mãos uma espécie de galho, tentando tirar algum objeto do chão e arremessá-lo para o mato mais próximo. Curiosa, resolveu se aproximar e viu um senhor tentando tirar uma pequena cobra do meio da calçada, por onde circulam diariamente centenas de pessoas.
“Tive vontade de parabenizar o homem que, delicadamente, lançou a cobra na árvore mais próxima, sem usar aquele pedaço de pau que tinha nas mãos para matá-la”, conta Lívia. Ela não sabe dizer se a cobra em questão era venenosa ou não, mas acha que isso não vem ao caso. “Ele fez a coisa certa, devolveu a bichinha para a mata”, diz.
Muitas pessoas que assistiram à cena, porém, acharam que o tal senhor deveria ter matado a cobra, porque alguém poderia pisar na dita cuja e se ferir. “Na hora a gente nem pensa se é venenosa ou não. Se fosse eu, teria matado, não tenha dúvida”, falou um comerciante que soube da cena, embora não tenha assistido. A seu lado, a vendedora de uma loja localizada na rua também não se sensibilizou com a cena. “Não quis nem ver, mas soube de tudo. Achei um absurdo, ele tinha que ter matado a cobra na hora”, declarou.
Lívia e os ambientalistas de plantão insistem que não havia motivos para matar o animal. “Vi, em câmera lenta, quando a cobra se enroscou numa árvore, na beira da rua e ficou lá, quietinha, pendurada num arbusto, admirando a correria do nosso dia a dia”, diz a estudante.
Ela acredita que essas coisas acontecem para abrir os nossos olhos para a questão ambiental. “Nós nos apropriamos de todo o espaço natural e não nos damos conta que a natureza também precisa de espaço”, continua. Fatos como este têm acontecido com relativa frequência na cidade. As cobras e lagartos, por exemplo, costumam sair das matas por causa das chuvas de verão. Os micos, em busca de alimentos que a população lhes oferece e daí por diante. Sem falar nos sabiás, maritacas, corujas, jacus, gaviões, gambás, entre tantos outros.
Cidade ocupa espaços que antes pertenciam aos animais
Por mais inusitado que isso possa parecer, tem sido muito comum no dia a dia de Nova Friburgo. Não há como evitar essas ocorrências, infelizmente, afirma Mauro Zurita, chefe do Escritório Regional do Ibama em Nova Friburgo, que tomou conhecimento do ‘passeio da cobra’ pela Monte Líbano através da reportagem de A VOZ DA SERRA. Afinal, explica, o município está encravado no coração da Mata Atlântica. Ou, em outras palavras, ocupamos hoje os espaços que antes pertenciam aos animais.
Segundo Zurita, a atitude do senhor que salvou a cobra na Monte Líbano representou um ato de amor para com os animais silvestres. Na verdade, quase que diariamente a população se depara com animais silvestres em suas residências, quintais, ruas e praças, quase sempre feridos e/ou desorientados. “Quando ela mesma não consegue reintegrar esses animais ao seu habitat, aciona o Ibama para recolhê-los”, declara Zurita, dizendo-se impressionado por ver que, ao procurar o órgão, essas pessoas quase sempre manifestam sua intenção de ver os animais soltos novamente e reintegrados à natureza.
Mauro Zurita disse ter ficado feliz com a atitude do senhor que salvou a cobra, pois demonstrou ser uma pessoa consciente. “Podemos conviver com os animais sem ter que matá-los ou colocá-los em gaiolas, como sabiamente fez este senhor em pleno centro da cidade”, declarou.
Muitos animais silvestres, ressalta Zurita, estão entrando para a lista de extinção justamente por este motivo. Em função do acelerado processo de ocupação urbana, os bichos da floresta estão perdendo cada vez mais espaço para o homem. Por isso mesmo, diz, torna-se cada vez mais urgente a criação de um Centro de Triagem de Animais Silvestres no município, um local onde se possa encaminhar esses animais, para que sejam reabilitados e possam retornar à natureza.
O superintendente do Ibama destaca também a importância de garantir espaços naturais protegidos, conscientizando-nos de que é preciso expandir o crescimento da cidade com projetos bem elaborados e sempre respeitando as normas legais existentes.

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