Ana Borges
Infectologia é a especialidade médica que estuda as doenças causadas por vírus, bactérias, protozoários, fungos e animais. No momento, a África Ocidental está enfrentando um novo surto de ebola, o maior em quase quatro décadas de história da doença. O alastramento da epidemia tem chamado a atenção das autoridades e órgãos de saúde de todo o mundo. O Brasil, até o momento, segundo o Ministério da Saúde, não registrou nenhum caso suspeito. Nesta entrevista exclusiva, a médica infectologista Delia Celser Engel esclarece as principais dúvidas sobre doenças transmitidas por vírus, bactérias, bacilos, entre outros agentes, como o ebola, a pólio, o sarampo, a tuberculose e o HPV, e informa sobre sintomas e contágio. Confira.
A VOZ DA SERRA – Podemos dizer que o Brasil é um país imune a epidemias?
DELIA ENGEL – Podemos dizer que o Brasil tem uma política de vacinação excelente, com um ótimo calendário vacinal para crianças, adolescentes, adultos e idosos.
Ainda que surjam, de vez em quando, relatos de reações adversas em algumas pessoas depois de tomarem vacinas?
Qualquer vacina, como qualquer medicamento, pode ter efeitos adversos. Quando uma vacina é liberada para uso, grandes estudos foram realizados de tal forma que os raros efeitos adversos compensem o risco da doença.
Como assim?
Por exemplo, todos sabem que pode ocorrer efeito adverso com a vacina para febre amarela, porém o risco de adoecimento e morte por febre amarela é inúmeras vezes superior ao raro risco de um efeito indesejável relacionado à vacina.
O que a senhora tem a dizer sobre a vacina contra o HPV, depois de notícia veiculada na imprensa sobre jovens que relataram problemas após tomarem a vacina?
A vacina contra o HPV é segura. Os efeitos adversos mais comuns são discretos. O caso de várias adolescentes sentindo formigamento nas pernas, algumas sem conseguir andar e pior, todas da mesma escola, da mesma idade e com 20 minutos após a vacinação, demonstra que houve sim uma intercorrência emocional, com efeito dominó. E todas se recuperaram rapidamente.
Erradicamos a poliomielite?
A poliomielite está erradicada no Brasil e o último caso de sarampo no município do Rio de Janeiro foi em 1999. Isto se deve ao bom programa de vacinação que temos. Em setembro de 2014, um caso de sarampo foi confirmado em Sobral (Ceará). Todos os que tiveram contato com o paciente foram rapidamente vacinados e a doença foi bloqueada.
É verdade que está havendo mais casos de tuberculose no país?
Existe um problema que é o fato de o tratamento da tuberculose trazer melhora clínica precoce. E por vezes, alguns pacientes acham que podem parar a medicação, interrompendo o tratamento antes dos seis meses sem estarem curados ainda.
O que acontece nesses casos?
É importante haver o que chamamos de "busca ativa” para os pacientes que abandonam o tratamento antes da alta médica porque eles mantêm a contaminação da doença e desenvolvem germes resistentes ao tratamento habitual, o que dificulta enormemente o tratamento, posteriormente.
E quanto ao ebola, há motivos para temer que chegue ao Brasil?
Em relação a esse vírus, acredito que a chance de uma epidemia no Brasil é muito improvável. O ebola é um vírus que não se propaga pela respiração como a influenza, por exemplo. A epidemia em curso em três países da África se dá em um cenário específico de muita pobreza e sem condições mínimas de controle. Na realidade, os casos se disseminam em regiões de aldeias longe das cidades e de hospitais e onde, além disso, acontecem rituais funerários onde os familiares tocam o corpo do seu ente o qual ainda transmite o vírus através de secreções liberadas mesmo após a morte.
O Estado do Rio, em particular, destino de turistas do mundo inteiro, ao longo do ano, está preparado para a entrada de pessoas contaminadas?
O Rio de Janeiro está preparado para receber caso suspeito/confirmado. Com o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), o risco de contaminação da equipe fica muito improvável. O paciente com ebola só transmite o vírus quando está com sintomas da doença, isto é, com febre, o que facilita a identificação de uma pessoa contaminada. Se ele tem o vírus, mas a doença ainda não se manifestou, ele não transmite. A transmissão se dá por contato com líquidos corporais.

Deixe o seu comentário