Por Alessandro Lo-Bianco
Diretor, produtor de televisão e cineasta Miguel Rodrigues—TV Globo—, ganhou destaque nos últimos anos pelo bom trabalho que vem desenvolvendo pela TV brasileira. Com grande experiência em teledramaturgia, oito anos na emissora global, (“Na Forma da Lei”, “Duas Caras”, “Cobras e Lagartos”, “Kubanacan”, e “Senhora do Destino”), ele possui mais de 20 curtas de produção independente, com alguns prêmios, e, paralelo a isso, segue adiante com sua produtora Take a Take (http://studiotakeatake.com.br), uma instituição ligada à arte, cultura e desenvolvimento de produções independentes na área audiovisual.
No dia 21 de novembro, Miguel foi para Nova York acompanhar sua indicação ao Emmy Internacional pelo seriado “Na Forma da Lei”. Mas, muito além deste feito, uma façanha já havia sido alcançada: a primeira vez que o Brasil concorria a este tipo de premiação com uma série dramática, representando um marco na produção nacional de séries policias e dramáticas. E é justamente nos seriados que o diretor deposita suas fichas para o futuro.
Miguel também se colocou à frente de um trabalho importante: ele vem ministrado oficinas para atores fora do eixo Rio–São Paulo, como forma de descentralizar este mercado e descobrir novos talentos, levando oportunidades para atores de regiões menos visíveis. Além disso, esta prestes a lançar o longa-metragem “O Inferno de cada um”. Em paralelo, também se prepara para lançar um site voltado para a produção de séries no Brasil, o Webseries Brasil. Foi sobre tudo isso que pautamos esta entrevista para você, leitor do Caderno Light. Confira!
Você sempre quis produzir e ser diretor de televisão? Como isso aconteceu?
Não. A primeira vez que eu fui apresentado a este mundo mesmo foi quando fui ao programa do Faustão conhecer como funcionava o mecanismo. Eu tinha 19 anos e fiquei fascinado.
Você possui trabalhos e dirige produções em diferentes formatos (séries, longas, curtas e institucionais) e também dirige novelas. O que é crucial para um profissional que deseja transitar entre essas mídias?
É importante que a pessoa busque conhecer todas as áreas, com muito profissionalismo, garra e amor pelo que faz.
O quê está forte na produção audiovisual nacional e o que precisa ser superado?
Estamos em alta na qualidade técnica, atores, fotografia e áudio (que já foi um problema). Mas ainda precisamos melhorar e desenvolver nossos roteiros, narrativa, efeitos especiais, marketing e captação de recursos.
Na hora de dirigir uma novela, o que mais chama sua atenção dentro na relação diretor/ator?
A entrega do ator e do seu personagem ao diretor e a confiança entre ambas as partes.
Qual obra você destaca como um marco em sua trajetória profissional?
“Senhora do destino”, como assistente de direção, foi um trabalho difícil e de uma qualidade absurda. Toda a primeira fase da trama: tínhamos o I5 de 68, mais de 500 figurantes na rua, entre; policiais, estudantes, choque, cavalaria montada, cachorros e mais de 10 câmeras circulando. Eu era o primeiro assistente e nossa equipe entrava no meio da confusão; vestidos como figurantes para coordenar e com câmeras escondidas. Como diretor, “Duas Caras”, uma novela com muitos eventos externos e muitas cenas diárias. Consegui nesta obra impor um pouco da minha forma de dirigir, buscamos uma linguagem diferenciada em cada núcleo da novela, eu fiz muito a “Portelinha”, um cenário com muitos personagens importantes, na qual Juvenal Antena, interpretado pelo Antônio Fagundes, era o Rei. Fiz mais de 300 planos-sequência durante a novela, acho que dava um dinamismo àquelas histórias.
Como foi para você se destacar em um mercado tão fechado?
Talento, garra, amor e dedicação. Quando entrei para televisão já tinha dirigido mais de 12 curtas, produzindo peças de teatro, documentários e um programa da TV no Sul, “Rio Grande Take a Take”.
Você tem procurado levar suas oficinas pra fora do eixo Rio São Paulo...
É um projeto que já começou há 15 anos, Brasil Take a Take. Obtive muitos frutos com os alunos e muita gente se destacou no seu mercado conseguindo atingir nível nacional e até internacional. Até hoje recebo e-mails com elogios e agradecimentos, isso não tem preço.
O que você destacaria pelos locais que tem passado com a oficina?
A vontade de aprender, sede de conhecimento e a falta de oportunidades local.
O que os interessados pelas oficinas podem esperar?
Aprendizado na prática: como funciona o mercado, conhecimento técnicos e material de qualidade.
Qual o passo inicial e de que maneira as oportunidades vão aparecendo através dos cursos?
Primeiramente, a troca de informações tanto com o professor quanto com os colegas, assim como as reuniões de grupo que, de uma forma ou outra, fazem surgir ideias e novos projetos. O conhecimento nesta área é muito importante.
Você está produzindo seu novo filme e está custeando toda produção por conta própria, junto a algumas ações para arrecadar fundos, como o lançamento do calendário. Por que ir por este caminho?
Na verdade, é uma forma de se fazer, e não de esperar para, quem sabe, um dia fazer. As leis de incentivo são muito burocráticas e mal distribuídas. As grandes produtoras que se fixaram dentro do eixo Rio–São Paulo levam mais da metade da verba que seria destinado a todas as produções do país, fora os lobistas e intermediários entre o marketing e o produtor que querem parte da grana. Os editais são ainda mais burocráticos e muitas cartas marcadas. Estou com outro longa aprovado na Ancine em 3 milhões e até agora consegui captar 100 mil. Faz dois anos, quem sabe daqui uns cinco anos este filme saia do papel…
De que maneira deveria funcionar a captação de recursos e incentivos para produção cinematográfica nacional?
Para mim, tem duas formas: uma é na aprovação; se seu projeto for aprovado, quer dizer que ele está apto para ser produzido. Então, o governo deveria dar o dinheiro e ser sócio do produto e se alguma empresa quisesse investir seria com seu próprio dinheiro e não com imposto que é do governo e pago pelo povo. Por exemplo, o Circo de Solei foi patrocinado pelo Bradesco, mas quem pagou a conta foi o governo. Não é um produto nosso, não é gratuito. Pelo contrário, os preços são exorbitantes, somam-se a isso shows de alguns cantores que não precisam, filmes como “Lope”, um poeta espanhol passado na Espanha com produção da Conspira, lei de incentivo na coprodução, não faz sentido. A outra forma, se continuar assim, é destinar um fundo aos pequenos projetos ou independentes, como são chamados. Cada grande produtora, que tem maiores possibilidades de captação, destinaria parte do captado ao um fundo, que seria destinado a estas produções.
“O Inferno de Cada Um” busca trazer o telespectador para um mergulho existencial. Por que este tema?
Eu gosto de falar algo que toca o ser humano e que ele possa se identificar. Estamos em uma época em que todos pensam somente no seu, e não no próximo. Então, o que nos une pode nos separar. Nós somos frágeis e não sabemos nada da nossa missão; o poder, a fé e a corrupção estão ligados, assim como nós.
Que balanço você faz do filme com o que vocês já produziram até agora?
Sinceramente, eu acho que conseguimos o nosso melhor com o que tínhamos. Estamos com 70% do filme gravado e fizemos todo este trabalho com 15.000 reais. Muito pouco. Este custo não dá nem para pagar uma externa simples na televisão. É claro que podemos render muito mais, com mais condições de produção. Mas com criatividade, talento e garra podemos buscar nosso espaço.
Você apostaria mais nas séries?
Sim. As novelas vão acabar no máximo em 15 anos. Este será o futuro; séries e filmes para televisão e internet.
Qual foi a fórmula do sucesso para “Na Forma de Lei”?
Os temas abordados. Policial, judiciário, poder, corrupção e política. A direção conseguiu buscar uma cara diferente com a união de todos os envolvidos e a TV Globo, pela produção de qualidade, o Wolf por ter acreditado em dois diretores jovens, eu e o Emerson Muzelli. Pena que depois mudaram a programação e entrou “A Cura”, que apesar de ser uma série de alta qualidade, não tinha nada para o público de “Força Tarefa”, plugado naquele horário. Para mim, foi um erro na programação.
Como você recebeu a indicação do seu trabalho para o Emmy e o que isso significa pra você e pro mercado nacional?
Foi uma alegria muito grande, pois não esperávamos. Não fizemos a obra pensando no Emmy. Estar lá, em NY, concorrendo foi demais. Alguns contatos e convites de trabalho já surgiram depois da indicação, mas estamos no Brasil. Aqui é um país onde um diretor indicado ao Emmy não é convidado para trabalhar em nenhuma televisão ou programa. Mas estou batalhando pelos meus projetos e nas minhas oficinas do Studio Take a Take, além de filmes publicitários e vídeos conceitos de marcas.
Como funcionará o Webseriesbrasil e o que você deseja atingir com o canal?
Será um portal com formatos de série para internet, desenvolvido e coordenado por mim com outros parceiros no marketing e administrativo, pelo qual irei produzir algumas séries e dirigir outras, além de comprar conteúdo de outros parceiros que estão na batalha também com ótimos produtos. Estamos em busca de investidores e/ou patrocinadores, e quero lançar o portal no máximo até abril do próximo ano.
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