Henrique Amorim
O movimento A Nossa Friburgo — desenvolvido por alunos e professores do campus local da Universidade Candido Mendes com o intuito de divulgar os aspectos positivos de Nova Friburgo e incentivar ações efetivas de reconstrução do município — iniciou esta semana uma série de debates com professores e alunos intitulada “Nossa Friburgo – Cidade de Todos”. A intenção foi, inicialmente, conhecer mais a fundo a história e os costumes locais para, em seguida, engajar-se — universidade e sociedade — em atividades práticas de reconstrução e mudança de Nova Friburgo — para melhor, é claro.
Na estreia do circuito de debates promovido pelo Núcleo de Estudos da Imagem, Memória e Identidade da Ucam, a professora, historiadora e titular da coluna “História e Memória de Nova Friburgo” em A VOZ DA SERRA, Janaína Botelho, comentou diversos aspectos da colonização europeia do município aos percalços da industrialização até a tragédia de 12 de janeiro que já figura como “divisor” na história local. O professor, sociólogo e também colaborador do jornal, Maurício Siaines, destacou alguns aspectos da opinião pública formada no pós-catástrofe e observada a partir de pesquisas desenvolvidas com segmentos populares pelos alunos do curso de Comunicação Social da Ucam.
Já o músico e professor de história da arte Marcus Wolff abordou como a arte figura no comportamento humano e pode agora, devido a necessidade urgente de reconstrução do município, ser ainda mais valorizada. Um exemplo dessa possibilidade já se observa com a organização de uma mostra de fotos pelos alunos da Ucam destacando o rico patrimônio histórico friburguense — que reúne obras até mesmo neoclássicas como o prédio do antigo fórum Julio Vieira Zamith, na Praça Getúlio Vargas. Ao final do debate mediado pelo professor Mário Moreira, alunos da Ucam interagiram com os professores.
O diretor executivo da Ucam e também secretário municipal de Cultura de Nova Friburgo, Roosevelt Concy, lembrou que a universidade é a casa do conhecimento e que cabe tanto aos professores, diretores e alunos, como também toda a população, se unir para elaborar estratégias e ações nas frentes de reconstrução do município — que tem boas ações que precisam ser conhecidas e que já vem sendo divulgadas através do projeto “A Nossa Friburgo” com os alunos da Ucam.
“Nosso papel é ajudar a pensar e desenvolver também essas atividades”, comentou Roosevelt, enquanto o coordenador da universidade, Carlos Arnaldo Bravo Berbert, o Juca, lembrou que a Prefeitura de Nova Friburgo vem recebendo verbas federais e estaduais para reconstrução e agora a sociedade deve cobrar e fiscalizar a aplicação correta desses recursos para tornar o município melhor do que era antes do 12 de janeiro, iniciando assim uma nova era, “uma nova Nova Friburgo”.
Alguns aspectos abordados pelos debatedores do projeto Nossa Friburgo – Cidade de Todos
A professora e historiadora Janaína Botelho lembrou em sua discussão sob o tema “Nova Friburgo: a busca de uma representação à luz da história” a chegada dos suíços em 1819, com a criação da Vila de Nova Friburgo no ano seguinte e a distribuição das melhores terras aos lusobrasileiros — o que permitiu mais riquezas com o plantio de café no eixo onde se localizam os municípios vizinhos de Bom Jardim e Sumidouro. Aos europeus coube as terras inférteis na região de Lumiar, São Pedro da Serra e Cantagalo. Janaína destacou também o legado da imigração alemã a partir de 1824 com a evasão de suíços e criando-se núcleos de colonos.
“Nova Friburgo começou a tornar-se famosa por seu clima salubre e passou a ser referência na época para tratamento de doenças graves com a tuberculose, trazendo para cá muitos visitantes para temporadas de até seis meses. Na época o Rio de Janeiro era uma cidade suja e com epidemias constantes. A busca por Nova Friburgo serviu para aquecer a economia local e trazer para cá alguns padrões europeus como o aristocrático Colégio Freeze, o Instituto Hidroterápico (onde hoje é o Colégio N.S. das Dores) e o Sanatório Naval que figurou ainda como um ‘neutralizador de tensões sociais’ e depois sede recreativa da Marinha.
“Com a industrialização crescente entre as décadas de 1910 e 1940, a cidade mudou seu perfil até a decadência do setor nos anos 80 que deu origem ao polo de moda íntima. Agora, no pós-tragédia, discute-se a possibilidade de Nova Friburgo voltar a explorar sua vocação turística. Que tipo de representação devemos buscar agora?”, questionou ela.
O sociólogo Maurício Siaines observou como a opinião pública pode ser compartilhada na discussão sobre a “alma da cidade”. Ele lembrou um trabalho de pesquisa de opinião feito pelos alunos logo após a catástrofe a fim de medir o impacto sofrido e observado por cada um e concluiu que a população não reflete seu real pensamento antes de emitir uma opinião. “Uma das abordagens era se Nova Friburgo deveria voltar a ser o que era antes ou deveria melhorar. Nesse caso, o ‘não’ significava que a cidade deve melhorar. Voltar ao que era antes da tragédia significa que não estava tão bem assim”, destacou ele ao comentar os resultados das amostras feitas com diferentes segmentos de trabalhadores.
Ao professor Marcus Wolff coube comentar “A função social da arte através de signos de identidade e transformação”. Ele observou alguns comportamentos dos artistas estéticos ainda no século 18 quando se tinha consciência da ruptura do pensamento platônico e o belo era diretamente relacionado ao humano e a pintura revelava harmonia. “No século seguinte essa harmonia começa a se perder, pois os artistas passam a expressar o seu eu de forma subjetiva. No século 20, a estética filosófica se esfacela em teoria e os artistas se isolam do mundo para expressar sua própria verdade interior”, disse o professor.
Wolff frisou ainda que esse potencial criativo e inovador pode agora ser experimentado em meio às ações de reconstrução, como por exemplo, a exposição de fotos do patrimônio local organizada pelos alunos que servirá para ajudar a levantar a autoestima dos friburguenses devido ao rico passado histórico ainda preservado no município e que precisa ser valorizado.

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