Águas, florestas e gente

sexta-feira, 28 de agosto de 2009
por Jornal A Voz da Serra
Águas, florestas e gente
Águas, florestas e gente

Um dos mais aprazíveis ambientes de todo o estado, refúgio de admiradores do verde e pesquisadores diversos, reconhecido mundialmente por sua rica biodiversidade, contando com uma representativa parcela da flora de todo o bioma da mata atlântica, com diferentes ambientes e micro-regiões, além de espécies vegetais encontradas somente lá, a região de Macaé de Cima, localizada no distrito de Mury, tem a sua história profundamente ligada às origens da própria Nova Friburgo.

Em Macaé de Cima se encontram famílias locais tradicionais, uma comunidade com suas moradias e empregos, quase sem influências externas. Isto porque, os moradores buscam um regime de conservação adequado para o ambiente. Entenda-se que a localidade não conta apenas com famílias centenárias, vivendo lá desde que dom João decretou a fundação de Nova Friburgo; também vive por lá gente interessada em preservar e conviver com a mata atlântica. Tanto que até compraram grandes áreas de terra na intenção de mantê-las como estavam.

Alguns, como o biólogo David Miller e sua esposa Izabel, que por mais de dez anos estudaram toda a diversidade de espécies das orquídeas presente na serra dos Órgãos, usando seu espaço para pesquisar a natureza a fundo, outros como um local de descanso, onde podem encontrar paz profunda no silêncio do verde. A grande maioria provavelmente buscando pelos dois.

Na intenção de criar o que foi chamado até o momento de Refúgio de Vida Silvestre Municipal Flores-Macaé de Cima (RVS-Floma), moradores se reuniram na última terça-feira, 25, numa consulta pública no Salão Azul da Prefeitura de Nova Friburgo. Atualmente o refúgio teria abrangência somente sobre a Área de Proteção Ambiental (APA) de Macaé de Cima, que coincide com a demarcação do Parque Estadual dos Três Picos, na região das cabeceiras. A intenção dos moradores é estender essas delimitações, transformando toda a área em um refúgio, no lugar de um parque, abrangendo as cabeceiras de Macaé de Cima, rio acima, a partir do córrego de São Caetano e a porção mais alta do rio das Flores, totalizando seis mil hectares.

A diferença entre refúgio de vida silvestre e um parque é que, embora tanto um quanto outro sejam Unidades de Proteção Integral, o refúgio permite a manutenção das propriedades privadas em seu interior, enquanto o parque exige a desapropriação obrigatória em todos os casos. “Mas não indenizam por falta de dinheiro, nem expulsam, como acontece no mais antigo parque nacional brasileiro, o de Itatiaia”, conforme afirma o ecólogo Pedro Paulo Lomba em e-mail enviado à editoria de A VOZ DA SERRA.

“A orientação dos parques e reservas no Brasil é indenizar e expulsar os moradores das áreas protegidas. E, talvez sem saber, o município de Nova Friburgo está seguindo a orientação da Unesco para a Rede Mundial de Reservas da Bioesfera ao transformar a APA Municipal de Macaé de Cima em um Refúgio de Vida Silvestre, que admite a presença da comunidade residente no local”, continua Lomba, lembrando ainda que, desta forma, os moradores locais passam a receber mais atenção, sendo mais valorizados. Isto permitiria que a localidade continuasse a receber serviços do município, mantendo também o cuidado com a preservação da mata nativa, já que tradicionalmente já vem contribuindo para o bom estado das cabeceiras.

Para a Unesco, “reservas de biosfera servem como laboratórios vivos para testar e demonstrar a administração e uso integrado da terra, água e biodiversidade”, lembrando que as populações devem cooperar com as autoridades para promover um desenvolvimento sustentável.

Ipucanzinho: a germinação da mudança

Em março do ano passado, o Sítio Ipucanzinho, em Macaé de Cima, recebeu diversos moradores para discutir a criação do refúgio de vida silvestre, possibilitando a formação de um conselho consultivo local com a participação da comunidade. Assim, ficaria a cargo dos moradores cuidar do planejamento das instalações de uso público para visitação, portaria e fiscalização.

Coadunados na ideia do regime de proteção integral, empreenderam os estudos técnicos apresentados, de forma resumida na consulta pública, que a certa altura, contou com a participação do prefeito Heródoto Bento de Mello. “Quando falamos de Macaé de Cima, devíamos é falar de Nova Friburgo. O trabalho de preservação empreendido na localidade deveria se estender por todo o município, preservando toda a área ocupada por nós. Muita gente crê que exista uma diferença entre o progresso e desenvolvimento sustentável, que não se encaixam. Enganam-se. O que temos que fazer é justificar, adequar esses diferentes níveis de desenvolvimento um ao outro”, declarou o prefeito, aplaudido por todos os presentes ao afirmar que o refúgio contaria com total apoio do atual governo.

Outro benefício trazido pelo refúgio é a garantia das verbas ICMS-Verde para o município. Já os estudos que embasaram esta medida podem ser consultados na Secretaria Executiva de Preservação Ambiental e na Biblioteca Municipal.

A audiência pública contou com diversos representantes da Agenda 21, Ibama, Inea, OAB, Embrapa, os vereadores Marcelo Verly e Cláudio Damião e a assessoria do vereador Pierre, além de diversos representantes de Macaé de Cima “que largaram a labuta para estar aqui”, conforme lembrou a mediadora da consulta, engenheira agrônoma Alda Maria de Oliveira. Outra presença de destaque foi a de Theodoro Elias, gestor do Parque Nacional dos Três Picos.

A Theodoro, que concorda com a criação do refúgio, coube a triste tarefa de lembrar aos presentes que, se assim for feito, ou seja, por conta da criação da Unidade de Proteção Integral, todos teriam que estar dispostos a enfrentar os problemas que este tipo de espaço protegido pode gerar. Por fim, o vereador Marcelo Verly lembrou a todos dos tempos em que o Rio Bengalas amanhecia colorido, cada dia num tom. “Quando criança, achava aquilo lindo, agora vejo a sorte que temos em ter desenvolvido essa consciência de seguir adiante, para melhor”, ressaltou Verly.

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