O antigo Livro dos Mortos, egípcio, registra, dentre lendárias passagens, uma longa viagem onde o falecido enfrentaria obstáculos para chegar até ao seu destino—o paraíso—e seria obrigado a participar do ritual de “pesagem da alma”—a psicostasia. Era o Tribunal de Osíris. O morto em sua defesa se declarava inocente de vários pecados. Apresentava uma Confissão Negativa de Erros. O coração, considerado a sede de sua consciência—vertido em palavras—era colocado em um prato da balança. Se pesasse mais que uma pena de avestruz depositada no prato oposto, o morto estaria condenado a uma série de castigos (como voltar ao túmulo para banquete de crocodilos) e poderia até ser devorado pelo monstro Ammit, o devorador de corações impuros, ou seja, era condenado a uma segunda morte.
Almas leves, em paz com a consciência, tinham a chance de seguir caminho e eventualmente chegar ao paraíso.
A “pesagem” não é muito diferente da que acontece metaforicamente hoje em dia; ela está consubstanciada em Escrutínio Secreto votado por uma assembleia de adeptos, à vista de documentação probatória da boa conduta do candidato à iniciação; após o julgamento, uma reflexão sobre seus valores e comportamentos e está completo o veredicto.
Como na alegoria daquele tribunal as respostas são colocadas em um prato da balança, contrapostas a uma simbólica pena de ave no outro prato, para o juízo final. E como na lenda, se as palavras pesarem mais que a pena, são verdadeiras e a alma do julgado seguirá para o festim iniciático; se foram falsas as palavras, a pena pesará mais e o candidato será rejeitado. Podemos entender que palavras evasivas devem ser colocadas num coletor seletivo de lixo para reciclagem e preservação do meio ambiente espiritual. De forma emblemática, a aceitação ou não do candidato, será como no interrogatório do Osíris:
Pergunta: Foste justo?
Resposta: Nunca cometi injustiças contra os homens.
Pergunta: Foste bom para os pobres?
Resposta: Nunca oprimi os pobres ou os necessitados.
Pergunta: Cometeste quaisquer outros pecados?
Resposta: Dos seguintes pecados, Senhor da Verdade e da Justiça, eu estou livre: não sobrecarreguei o obreiro além da sua força; nunca afugentei o faminto de minha porta; nunca fui causa de pranto alheio; não matei ninguém; não roubei nem ouro nem prata, nem pão dos templos; não cometi nenhum ato vergonhoso dentro do templo; nunca enganei meu vizinho; nunca furtei o leite da boca das criancinhas de peito; nunca apanhei com redes os pássaros dos deuses; sou puro, Grande Osíris; sou puro. Sou puro.
Desta alegoria contida na lenda mitológica egípcia pode-se extrair importante colocação em nossas vidas. E num quadro de admissão de novos membros, a Maçonaria adapta em seu ritual a “pesagem da alma”, significando simbolicamente que o coração é reflexo de tudo que o homem faz.
Encerrado o julgamento, se o resultado for favorável, ecoa pela assembleia a proclamação: “O candidato foi aprovado Limpo e Puro”.
(*) Escritor e membro da
Academia Maçônica de Letras (DF)
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