As ruas têm alma, como disse o cronista João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, que ficou conhecido como João do Rio. Em seu livro A alma encantadora das ruas, publicado em 1908, ele diz o seguinte: “Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Oh! Sim, a rua faz o indivíduo, nós bem o sentimos”. Se isto é verdade, também se pode falar na alma de uma cidade, que seria composta por toda a energia despendida pelos seres humanos que vivem nela e a constroem, ao longo de sua história.
Os industriais alemães que se estabeleceram em Nova Friburgo no início do século 20 deram um abraço na cidade, envolvendo-a inteiramente e controlando seu espaço físico. Esta é uma posição defendida pelo historiador João Raimundo de Araújo em sua dissertação de mestrado, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1992, referindo-se à distribuição no espaço físico da cidade das principais indústrias que então se instalavam. No doutorado, concluído em 2003, também se voltou para Nova Friburgo, discutindo a construção do mito da “Suíça brasileira”.
Professor de história na Faculdade Santa Dorotéia desde 1975, João Raimundo nasceu em Antônio Carlos (MG), cidade próxima a Barbacena, morou no Rio de Janeiro e estudou em Niterói, transferindo-se para Nova Friburgo em 1977. Foi um dos organizadores do livro Teia Serrana, um marco para os estudos da história local. Atualmente dedica-se ao estudo da história fluminense e é membro da Academia Friburguense de Letras. Nesta entrevista, ele traz parte de sua reflexão sobre a cidade, especialmente sobre a criação da indústria local e a formação cultural do operariado, o que não deixa de ser a busca do entendimento de um pouco da alma da cidade.
A VOZ DA SERRA – Quando Nova Friburgo vive o processo de industrialização, depois de 1910, ela se reconfigura socialmente. O que você pensa a respeito da formação cultural do operariado de Nova Friburgo, a partir do surto industrial daquele momento?
João Raimundo Araújo – A formação da indústria em Nova Friburgo acontece dentro dessa conjuntura nacional de fim da escravidão, de intenso êxodo de ex-escravos. Aqui nessa região do chamado Vale do Paraíba Oriental, que tem como centro Cantagalo, com a própria crise cafeeira, gera-se um movimento de pessoas. Sem dúvida nenhuma, parte significativa dessa mão de obra operária da cidade é resultado dessa migração. Há um historiador que trabalha com a formação da classe operária brasileira, Marcelo Badaró de Matos, pegando mais ou menos essa conjuntura. Ele mostra como, em meados do século 19, portanto ainda em vigência plena da escravidão, já se formavam na cidade do Rio de Janeiro grupos sociais de negros, escravos ou libertos, que foram responsáveis pela formação da classe operária. Não era permitido a esses negros a formação de sindicatos, mas os grupos se formavam em torno de movimentos religiosos, entidades religiosas, irmandades religiosas de São Expedito ou São Benedito. Esse tipo de organização é a base da formação do operariado da cidade do Rio de Janeiro, que até 1920 foi o maior centro industrial do Brasil. E em Friburgo, também, o operariado tem muito a ver com a escravidão. Houve época em que até se negou a existência da escravidão aqui na região...
AVS – Esta é uma questão importante, por isso essa pergunta de como se deu a influência dos ex-escravos na formação do operariado de Nova Friburgo. Mas o número de ex- escravos era muito maior que o de operários. Provavelmente foram para o Rio de Janeiro, não é?
João Raimundo – Sem dúvida, o Rio de Janeiro sempre atraiu essa população. Não é à toa que a região da Saúde, do Morro da Providência, aquela região mais central, era chamada de Pequena África. Não é casual que, na Revolta da Vacina, o foco principal era ali, na Saúde. Também é por ali que se origina o samba, com toda a movimentação cultural própria.
AVS – Mas nesta cidade de Nova Friburgo existe alguma coisa diferente gerada pela maneira como aconteceu a industrialização, gerando uma outra cultura, que parece menos fluminense e mais paulista, existe uma disciplina gerada pelo trabalho, que se reflete em outros setores da vida. O que você acha disto?
João Raimundo – Concordo plenamente. O friburguense, de um modo geral, é uma figura extremamente disciplinarizada. E eu acho que a origem disto é a indústria. Não tem nada a ver com os suíços. Tem a ver com o capital industrial que se instala na cidade, a partir de 1911, com a criação dessas grandes indústrias, de grupos alemães. Acontece que a instalação dessa indústria se dá nessa conjuntura de pouco antes da Primeira Guerra Mundial e do entreguerras. Como o Brasil esteve em campo oposto ao da Alemanha nesses conflitos, não era prudente se falar em uma Alemanha brasileira e, assim, foi-se buscar lá na origem da formação da colônia suíça a base desse discurso da Suíça brasileira. Isto vai ser consolidado mais claramente a partir das comemorações do primeiro centenário de Nova Friburgo, em 1918, ocasião em que um jornalista e historiador, Agenor de Roure, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fez um longo discurso em que estão presentes as bases dessa ideologia da Suíça brasileira. É um discurso feito na Câmara de Vereadores.
AVS – Se é para se dar um nome em função da influência cultural, deveria ser mesmo Alemanha brasileira, não é?
João Raimundo – Sem dúvida nenhuma. Especialmente depois do afastamento do Galdino do Valle Filho, que se opôs à Revolução de 1930. Ele chegou a organizar uma pequena milícia, aqui em Friburgo, para ir até Porto Novo do Cunha e ali tentar enfrentar os mineiros que viriam em apoio à revolução. Tem até uma história curiosa a este respeito. Em determinado momento, os membros daquela pequena milícia chefiada pelo Galdino ouvem uns tiros e entram em prontidão; finalmente o confronto iria acontecer. Não eram tiros, mas fogos em comemoração da chegada de Getúlio Vargas ao Rio de Janeiro. Galdino fica, então, afastado da política local durante esses 15 anos de poder de Getúlio Vargas. Isto, aliado à ascensão da Alemanha no plano internacional, viria fortalecer o grupo de empresários alemães. Eles haviam criado em 1922 a Sociedade de Educação e Culto da Alemanha em Nova Friburgo. Eles formaram essa entidade cuja intenção era criar uma hegemonia cultural alemã na região. Não só em Friburgo. Essa Sociedade de Educação e Culto da Alemanha visava a dinamizar pela região elementos da cultura alemã, como a música, o folclore, a dança. E chega a haver festividades, como a comemoração do aniversário de Adolf Hitler. Muitos discursos eram feitos em alemão. Chega-se a sugerir que a festa de aniversário de Friburgo não se referisse mais à vinda dos suíços e sim à dos alemães em 1824. A festa seria deslocada de maio para julho. Isto dura até 1942, quando o Brasil entra na Segunda Guerra Mundial contra a Alemanha, quando a existência da Sociedade de Educação e Culto da Alemanha é proibida, a não ser como uma sociedade de cunho esportivo. E aí ela se transforma na Sociedade Esportiva Friburguense. Nas atas da instituição dá para se perceber a passagem da direção dos alemães para pessoas com nomes brasileiros.
AVS – E sobre a organização espacial da cidade, você também faz uma reflexão a respeito. Fale um pouco disto.
João Raimundo – Se prestarmos bem atenção, as quatro grandes expressões da indústria na história de Friburgo são ligadas a grupos empresariais alemães, primeiro a Arp, depois a Ypu, depois a Filó e, finalmente, a Haga. E esses empresários têm participação nos negócios uns dos outros. O Julius Arp, por exemplo, tem participação importante na Ypu, na Filó. Inclusive fazendo parte da direção dessas empresas. Quando eles se instalaram no Brasil, a indústria na Europa já tinha mais de cem anos. Então eles já tinham um conhecimento do que é o operariado e do movimento operário. Eles não são ingênuos, chegam aqui e se estabelecem, espacialmente falando, em áreas diferenciadas: você tem a Arp próxima ao Rio Cônego, a Ypu lá do outro lado, no Rio Santo Antônio, mais tarde, em 1925, vai existir a Filó, próxima à Lagoinha, isto é, já mais perto do Rio Bengalas, e a Haga vai se estabelecer do outro lado. Elas formam um quadrilátero em cujos vértices se posicionam essas grandes empresas. É preciso pensar a cidade no início do século 20. Eu digo em minha dissertação de mestrado que eles dão um abraço na cidade e isto tem um papel importante a partir do momento em que o Arp estabelece como condição para se instalar em Friburgo receber a concessão da Câmara para a exploração da indústria de eletricidade, passando a ter o controle da distribuição de energia elétrica. O contrato que ele fez com a Câmara é espetacular, em termos de dominação da cidade. Há este aspecto, além da desconcentração da classe operária. Não há em Friburgo um bairro tipicamente operário, que concentrasse trabalhadores das diversas indústrias. Os bairros vão se formar nas proximidades dessas indústrias. Então, é Olaria, bairro que se aproxima da Arp, o Bairro Ypu e o Catarcione, que se aproximam da Ypu, é a Lagoinha, que se aproxima da Filó, e o Vilage, próximo da Haga. Isto em termos mais gerais.
AVS – Você, então, entende isto como uma estratégia de ação política para impedir ou dificultar a organização dos trabalhadores?
João Raimundo – Sem dúvida. Havia uma dificuldade muito grande de união desses grupos de operários.
AVS – E a cultura nascida da ação desses grupos hegemônicos, com essa disciplina, dura, portanto, do final dos anos 1910, até os anos 1990.
João Raimundo – A disciplina está aí até hoje, Friburgo é uma cidade muito conservadora.

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