Alda Maria de Oliveira*
O som agudo das sirenes do sistema alerta/alarme da Defesa Civil em estágio de alerta máximo nos acordou na manhã que continuou uma madrugada de chuvas intensas. Foi levantar, se vestir correndo, enriquecer o kit com um pacote de biscoitos e os remédios da hipertensão e do diabetes, calçar as botas, vestir a capa de chuva e colocar o pé na lama em direção ao ponto de apoio. Marcar o tempo: 10 minutos. Aguardar cinco minutos que um seminarista viesse abrir o portão, sacudir a água da capa, entrar e depois andar um pouco pelas áreas bem-cuidadas do seminário. E lá de cima, a visão dos fundos das casas, à beira do córrego São Geraldo transformado em rio pelo enorme volume de água que descia em direção ao Córrego d’Antas já na altura do Califórnia, lixo, muito lixo. Numa comunidade onde o caminhão de coleta da concessionária de limpeza urbana passa três vezes por semana é triste ver que muitos moradores não fazem a sua parte. Gentilmente, Padre Leandro foi explicando as poucas condições que tem o seminário em funcionar como ponto de apoio, mas está lá para auxiliar no que for necessário. E depois, de volta à casa, retirar a água que entrou, ligar a televisão e saber como estava as demais comunidades na cidade. Evitar se deslocar para o Centro, a Praça Getúlio Vargas interditada, no Floresta os Três Irmãos em situação alarmante, as pedras rolaram, uma casa desabitada desabou e levou a outra e as pessoas com poucos minutos para retirarem o básico de seus documentos e pertences e sair, como nômades, a buscar as casas de vizinhos, parentes não atingidos. Retirantes das águas.
A chuva cedeu e deu um certo alívio em todos nós. Rapidamente fiz as contas, serão cinco meses até o final de março, quando a gente aprimora a percepção de risco a necessidade de exercer a cultura de prevenção de desastres fala mais alto. A Defesa Civil, agora como Secretaria, tem feito o seu papel, mas ainda temos só um Nudec (Núcleo de Defesa Civil Comunitário) instalado, com a brava gente de Duas Pedras, e nos faltam muitos outros.
As crianças voltaram a brincar na rua imitando os avisos da Defesa Civil.
E a noite, já sem chuvas com a temperatura em queda, trouxe a maravilhosa surpresa. O palco do Teatro Municipal se encheu de músicos e instrumentos de sopro. Chegava a Nova Friburgo a banda Original Markgräfler Blaskapelle da longínqua Alemanha depois de se apresentarem em várias cidades no Brasil para nos dar um pouco de consolo e nos pacificar completamente.
O maestro alemão Uwe Jordan não só regeu, também apresentou seus músicos, os instrumentos todos e a história da banda que se funde com a história de sua família explicando que Markgrafler é uma região da Alemanha, próxima à Floresta Negra, onde eles residem em diferentes pequenas cidades.
Com 22 anos, uma única mulher, de 24 anos, um músico de 88 anos, Herr Helmut e em torno de 30 outros músicos de várias idades, a banda alemã nos fez viajar pela Boêmia e outros lugares ao som de belíssimas polcas e valsas, com uma linda surpresa quase ao final, quando todos eles se levantaram e cantaram. E o tempo todo o maestro Jordan nos incentivava a continuar com as espontâneas palmas ritmadas que mais do que de nossas mãos saiam dos nossos corações e por duas vezes se irmanou com o sofrimento das comunidades atingidas pela chuvarada.
Mas a organização do evento tinha mais uma surpresa, quando 12 músicos friburguenses, bastante jovens todos eles, oriundos de várias orquestras e bandas da cidade e uma dupla de cantores subiu ao palco, se acomodou entre os músicos alemães e cantaram e tocaram Asa Branca, Carinhoso e Aquarela do Brasil sob a regência de Marcos Botelho. Ato contínuo, tocaram juntos, todos os músicos, alemães e brasileiros regidos por Botelho (incentivado por Jordan) nos dando a dimensão de que a música une povos, transcende toda a diferença e pode se transformar em pura magia.
Já no final da audição, Uwe Jordan confessou que estando sua banda pela sétima vez no Brasil e tendo percorrido vários estados brasileiros, o nosso Teatro Municipal era o melhor espaço para apresentação da sua Original Margrafler Blaskapelle. Sob intensas palmas concordamos completamente com ele todos nós que lá estivemos.
De parabéns a cidade, a colônia alemã, a Secretaria de Cultura, a Firjan e todos os demais parceiros que sob a coordenação de Dalva Brust e a tradução esmerada do professor de alemão Gero Band transformaram um dia de angústia numa noite especial.
*Engª Agrª pela Universidade Federal de Pelotas, M. Sc. pela Universidade de Londres, especializada em Engenharia Ambiental, pela Ucam, da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Nova Friburgo. [email protected]

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