A arte de grafitar

terça-feira, 30 de julho de 2013
por Vinicius Gastin
A arte de grafitar
A arte de grafitar

A pichação e o grafite, o vandalismo e a arte. A segunda é uma evolução da primeira, tanto do ponto de vista artístico, quanto em termos de responsabilidade. A partir deste princípio, é preciso pontuar as diferenças entre ambas e, para notá-las, basta observar os dois trabalhos. Enquanto o pichador atua pela emoção de escrever algo em um lugar desafiador — que seja alto ou de difícil acesso, por exemplo — os grafiteiros prezam pela beleza do desenho em uma elaboração mais complexa. "Nós fazemos o trabalho para ser apreciado pelas pessoas”, conta Diego Moneratt Azevedo, 24 anos.

O grafite moderno surgiu a partir do movimento de Maio de 1968, quando inscrições de caráter poético-político foram feitas nos muros de Paris, e se desenvolveu posteriormente em Nova York no fim dos anos 70, dentro da cultura hip hop — uma influência estética muito forte neste tipo de arte até os dias de hoje. Em Nova Friburgo, o grafite passa por um processo de expansão, mas paralelo ao trabalho desenvolvido pelo grupo a ousadia dos pichadores ameaça a originalidade e o verdadeiro objetivo dos desenhos nas paredes e muros. "Quando eles perceberam que nós estávamos usando os muros, começaram a usar também”, conta Diego. "Na verdade, o grafite é contra a pichação. O nosso trabalho, inclusive, começou tapando as pichações e fizemos esse procedimento em Duas Pedras. Existe até uma rivalidade entre grafiteiros e pichadores por conta disso. Eu conheci pessoas que faziam esse trabalho, e convidei alguns deles para fazer o grafite. Isso nos atrapalha. Por conta das pichações, as pessoas acham que estamos estragando os muros”, argumenta.

O jovem designer de peças de automóveis, de 24 anos, é um dos pioneiros do grafite na cidade. Diego desenvolveu o gosto pelo desenho ainda criança e o talento facilitou o processo de adaptação. O interesse por este tipo de pintura surgiu em uma apresentação da banda Flowzen, da qual faz parte, em Macaé. "A gente foi fazer um show em um evento atrelado à cultura do hip hop em geral, que inclui a dança de rua e o grafite. Gostei e pensei em trazer para nossa cidade, assisti diversos vídeos na internet e comecei a praticar para me aprimorar. Então criamos o grupo The Red Crew, formado por quatro integrantes”, conta.

Desde então, vários espaços, antes vazios, ganharam as cores da criatividade. Após a tragédia de 2011, diversos muros de contenção foram construídos e o aspecto cinzento das obras aos poucos dá lugar ao colorido das tintas. "Comecei a fazer o trabalho junto com um amigo, e as pessoas passaram a nos chamar para fazer trabalhos em casas, instituições e outros lugares. As pessoas querem saber sobre a arte, e inclusive desejam fazer aulas. Entretanto, ainda não temos estrutura para isso, pois Nova Friburgo ainda não é uma cidade do grafite.” 

 

"Nova Friburgo ainda não é uma cidade do grafite”

Esta frase retrata as dificuldades para adquirir o material necessário às pinturas. Cada lata de tinta custa em média R$ 13 e não são utilizadas menos de cinco para cada desenho. O próprio grupo se reúne, divide as despesas e executa o trabalho. O tempo de pintura varia de acordo com o tamanho do espaço e dificuldade dos traços. Os trabalhos de 5x2 metros, por exemplo, geralmente são feitos em uma hora. "Nós trabalhamos com a Color Gym, que não é própria para o grafite e custa caro. Não tem outra tinta para spray. A gente gasta bastante dinheiro quando desenvolvemos um trabalho.”

A variedade de bicos encaixados na lata do spray e utilizados para colorir as figuras também é limitada nas lojas do município. A espessura e o cumprimento de cada um interferem na hora de fazer os traços. "Improvisamos com agulhas para o traço sair mais fino e outros truques que estamos aprendendo com a prática.” 

Antes da pintura, o desenho é feito com uma cor neutra, mais próxima à do muro a ser colorido, ou mesmo com pedras. Assim foi feito na Rua Monte Líbano, no Centro, naquele que é considerado o trabalho mais marcante do grupo. "Contamos com a ajuda de alguns amigos de Macaé, e acho que o nosso trabalho aliviou um pouco aquela lembrança ruim, de tudo o que aconteceu no local. O intuito do grafite naquele lugar foi exatamente mudar isso, e mostrar que a cidade vai se reconstruir. As cores e o desenho fortaleceram o ideal de reanimar a cidade.” 

Entretanto, grafitar ainda não é tarefa fácil. E não só pelas dificuldades estruturais. Diego perdeu a conta de quantas vezes foi abordado por policiais, que pediam para ver a autorização. Nem sempre eles tinham. "Apelamos para a conversa. Na maioria das vezes conseguimos convencer de que aquela pintura seria positiva para o local”, conta.

O grafite-denúncia: a tela é a rua!

Cada desenho tem uma mensagem diferente. No Ato Louco, movimento realizado na Praça Getúlio Vargas, os grafiteiros pintaram uma foto do cantor Raul Seixas, simbolizando o Maluco Beleza. "A gente costuma levar um caderno com os desenhos e mostramos para os clientes. Às vezes eles pedem algo específico.” 

 Em outros casos prevalece a sensibilidade do artista, como no primeiro trabalho realizado por Diego Azevedo. O muro de contenção da Rua Cristina Ziede ganhou um toque de criatividade, onde as folhas da árvore se transformaram no cabelo do boneco desenhado. "A sacada foi exatamente a árvore que eu vi na hora. Não havia sido planejado, surgiu naquele momento. Até a polícia parou e elogiou.”

No Rio de Janeiro o grafite é utilizado para denunciar os problemas do município. Os artistas colorem os carros abandonados e o entorno dos buracos, e muitas vezes aceleram o processo de recolhimento dos veículos e reparo nas ruas. "Fizemos isso com uma Kombi abandonada em Conselheiro Paulino. Passamos por lá dias depois, e ela não estava mais no local”, relembra.

O talento ganha espaço e novos convites começam a aparecer. Diego revelou que a Apae pediu a pintura do muro, que deverá ser o próximo trabalho dos grafiteiros. Outros trabalhos, como a pintura do Viaduto Geremias de Mattos Fontes, estão inacabados e dependem de incentivos para serem finalizados. "O futuro do grafite é promissor. Ainda está difícil pela falta de material e de ajuda, mas espero que sejamos reconhecidos. Estamos fazendo a arte positiva. Hoje em dia, a tela é a rua.”

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TAGS: Grafite | Arte
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