50 vezes 50

terça-feira, 15 de setembro de 2009
por Jornal A Voz da Serra

João Máximo

Foi, por motivos vários, uma sucessão de momentos raros. Começa com essa história de um casal chegar às bodas de ouro antes do fim da primeira década do século XXI, este século em que, segundo os especialistas na matéria, namoros, noivados, casamentos e toda sorte de relações amorosas serão regidos pela impaciência, pela intolerância, pela incapacidade de se reconhecer o outro antes de se conhecer a si próprio. Não sei se Margarida e Ângelo descobriram como vencer tudo isso para continuarem juntos após 50 anos de vida em comum. Sei, apenas, que chegaram. E como fortes candidatos às bodas de diamantes, já agendadas para 2019.

Raros os dois, rara a festa com que as quatro filhas os homenagearam. Na missa, celebrada na mesma Igreja de Santo Antônio em que se casaram, não eram muitos os que tinham testemunhado o dia histórico em 1959. Contando nos dedos, eram todos da família Ventura, a de Margarida. E a de Ângelo também, sendo Ventura a metade que completa o seu Ferreira Chaves. Eu era o segundo destes, também soma das duas metades, mistura da qual só resultou mais uma, Glorinha, que também estava lá, no frescor de seus 17 anos. Tudo muito raro.

Voltando à festa, ou seja, ao almoço, eu o definiria como o grande acontecimento social de Friburgo nesta véspera de primavera. Acontecimento social não no sentido que lhe costumam dar os ricos e famosos do mundo chique, mas no sentido de família como símbolo de integração social e humana entre as pessoas. Do qual faz parte, ainda, e principalmente, a amizade, talvez o mais sagrado dos parentescos na medida em que é fruto de afinidade, de escolha. Foi um acontecimento social justamente pelo que foi: integrador.

E carregado de emoção, claro, pois se fez inspirador de algumas maldades produzidas pelos organizadores do almoço e seus eventuais cúmplices. Maldade de injetar-nos os corações, principalmente os nossos, dos mais velhos, com preciosos momentos que a memória guardou ao longo dos 50 anos. Ao primo que me perguntou quem era o responsável pela trilha sonora da primeira parte do programa musical, respondi, simplesmente, que fora ‘o noivo’, já convencido de que, na eternidade daquelas músicas, estavam contadas as nossas histórias, a dele,  a minha, a de nossas mulheres e filhos, a de outros parentes e, naturalmente, a dos amigos que conviveram com Ângelo e Margarida nesses 50 anos. Que músicas!

Raras, porque poucos, além de Ângelo e irmãos, ainda não desistiram de reouvir essas canções que nos decoram a existência. Não satisfeitos, eis que sobem ao palco dois admiráveis músicos para aumentar o brilho da tarde. Caio Márcio e seu violão, o pai Paulo Sérgio Santos e seu clarinete, os dois harmonizados em torno da ternura de uma valsa de Pixinguinha. Caio Márcio – será necessário dizer? – é o primeiro de uma ilustre galeria de netos e netas de Ângelo e Margarida. Raro, tudo raro. Àquela altura, quantos dos 150 convidados tinham chegado ao fim da música de olhos secos?

Mas, maldade tão grande ou ainda maior, o vídeo que se seguiu transformou som em imagem, passado em presente, memória em realidade. Sim, é sempre bom lembrar que fomos jovens um dia, as esperanças que alimentávamos, os sonhos que perseguíamos, a coragem de que nos munimos para enfrentar perdas e danos. As filhas bebês, meninas, adolescentes, crescendo sempre em torno dos pais, foram outros encantos, os maiores, da vida do casal cinquentenário. No fundo, foi uma espécie de auto-homenagem, as quatro sabedoras de que suas vidas começaram há 50 anos, naquela singela igreja do Suspiro.

Como também revi parte da minha história, ali, naquela tela, ao som daquelas músicas, não resisti e pedi a Laércio Ventura, primo e amigo, que me permitisse rabiscar essas breves impressões em seu jornal. Por nenhuma razão outra senão a de deixar registrado que, por culpa de Margarida e Ângelo, Friburgo, terra de todos nós, viveu um sábado luzes e sons realmente raro. E... até 2019!

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