2º Encontro do Orgulho Crespo é neste sábado

Evento terá uma série de atividades durante todo o dia na Praça Dermeval Barbosa Moreira
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
por Ana Blue
Encontro do Orgulho Crespo do ano passado, na Praça Getúlio Vargas (Foto: Paula Winter)
Encontro do Orgulho Crespo do ano passado, na Praça Getúlio Vargas (Foto: Paula Winter)

No sábado, 19, véspera do Dia da Consciência Negra, o Coletivo Negro de Nova Friburgo, o Coletivo Império das Negas e o Movimento Negro Ysun Oke realizam na Praça Dermeval Barbosa Moreira, a partir das 14h, a 2ª edição friburguense do Encontro do Orgulho Crespo. O evento, que num âmbito geral busca valorizar a história negra, e seus lugares e direitos na sociedade, tem no enaltecimento da estética da mulher negra a sua principal razão de ser. Participam ainda da organização do movimento a Amma (Associação das Mulheres Mastectomizadas), o Centro de Referência LGBT Hanna Suzart, o Crem (Centro de Referência da Mulher) e a ação social Casca de Cebola.

O Encontro do Orgulho Crespo — ou Marcha, como é chamado em algumas cidades — surgiu em 2015, primeiro em capitais como Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, depois rapidamente se espalhando pelos municípios menores — inclusive Nova Friburgo, que realizou seu encontro em outubro daquele ano, atraindo muitas pessoas para a Praça Getúlio Vargas. 

Em 2016, na segunda edição, o evento reúne ainda mais participantes e colaboradores, a fim de que o dia seja uma oportunidade não só de encontros, mas de reconhecimento de um valor social e histórico que, ainda hoje, para o nosso desalento, não é respeitado pela sociedade como um todo — e olha que, segundo o IBGE, em sua avaliação mais recente, em 2014, os negros (pretos e pardos) eram a maioria da população brasileira, representando 53,6% do total. Ou seja: é preciso que esta parcela mais do que considerável da população seja incentivada a valorizar a sua própria história, sem reproduzir e muito menos se deixar levar pelos discursos racistas que tantas vezes nos fazem engolir. E parte dessa valorização ocorre com a aceitação, reconhecimento e orgulho da própria estética. Eis o Orgulho Crespo — e estão todos convidados a participar de mais este momento histórico.

Na programação deste sábado estão previstas oficinas, a partir das 13h30 — de turbante, de maquiagem e tranças, com Roberta Dutra e a equipe do Salão Herdeira dos Cachos; e de pintura corporal com as meninas do Império das Negas; já o mestre Jefferson Nascimento estará presente com a oficina "Maré me leva — Capoeira Angola e musicalidade, contação de histórias e africanidades". Outra opção — que pode agradar em cheio o público mais jovem — é a oficina de grafite.

O evento segue com o Desfile Crespo — ótima oportunidade para conhecer este verdadeiro Império das Negas (e negos também) —, às 14h50; batalha de rap, às 15h20; apresentação de capoeira com Mestre Coelho, às 16h10; e baile charme com Claudio, Theo Costa e Haroldo, a partir das 16h30, finalizando o encontro. 

É pra todo mundo, é de graça, na praça: “Favela tá no ar, pode se envolver, sem panela, sem jabá, pode se envolver, é só os menino bom que trabalha e faz um som, pode pá que não dá outra, é nóis!...”

Conheça o Império das Negas

Um grupo de cinco meninas — a média de idade é de 20 anos — unido em torno de um ideal: trabalhar a beleza e resgatar a autoestima da mulher negra. Esse é o Império das Negas, formado por Letícia Santos (estética e beleza); Marielle Vieira (responsável pela organização de eventos e demais questões estruturais); Jhenifer Andrade (tesoureira); Michelly Felício (contadora), e quem nos conta a história do Império das Negas é a modelo Maiara Felício, que assume o papel de relações públicas do coletivo. “Começamos o nosso trabalho há um ano, e realizamos um evento de lançamento, com um desfile, em parceria com a Insanidade Jeans, onde também falamos sobre pop África, sobre tendências do verão 2017, a influência africana e norte-americana na moda... enfim. O objetivo principal desse projeto é mostrar às meninas, as mais novas principalmente, e também àqueles que ainda enxergam o negro com preconceito, que a beleza do negro existe, sim, e que não há só uma beleza no mundo, que não tem por que existir esse padrão do branco-olho-azul-nariz-fininho, se o mundo é tão diverso, se existe tanta beleza”, diz. Pergunto, então, à Letícia, por que o padrão ainda é esse. “Essa é uma pergunta que sempre me faço ao ver matérias sobre moda, pois não sei por que, mas parece que querem nos impor que beleza só tem quem é branco, magro e tem olhos claros. Mas negros, latinos e outros povos estão se valorizando, a cada dia, tanto esteticamente quanto no seu papel social. Quando um negro faz sucesso na área de moda, logo dizem que ‘está na moda ser negro’. Não somos uma ‘linha’ de acessórios, essa fala é triste e desrespeitosa. Colocam na nossa cabeça que não somos belos, quando temos essa beleza maravilhosa desde sempre”, responde Letícia.

Ainda segundo Maiara, é uma questão de aceitar-se. “A gente quer trabalhar a aceitação. O processo de empoderamento não é inventar uma situação para a pessoa se sentir poderosa, não. Empoderamento é simplesmente reconhecer que ela tem o poder dela. Ela não precisa modificar nada na estética. Está tudo lá. Só precisa aflorar”. 

O grupo tem, ainda, um projeto com ensaios fotográficos com anônimos na cidade. “Fazemos fotos lindas, de cabelos crespos de bebês, de senhoras grisalhas, fotografamos e conversamos com famílias onde brancos e negros vivem juntos, procuramos saber como elas lidam com o preconceito, com os vícios de falas que nós ainda temos. A gente precisa aprender a cortar a segregação na carne!”, finaliza Maiara, poderosa.

Foto da galeria
Letícia, Michelly, Mari, Jhenifer e Maiara
TAGS: movimento negro