As desventuras dos deficientes visuais no dia a dia da cidade

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
por Jornal A Voz da Serra
As desventuras dos deficientes visuais no dia a dia da cidade
As desventuras dos deficientes visuais no dia a dia da cidade

Aos 38 anos, aposentado por invalidez devido à cegueira de nascença, Jorge Erlei tem que fazer caminhadas diárias por recomendação médica, mas, sair sozinho de sua casa, no Loteamento Tiradentes, distrito do Amparo, é uma aventura, ou melhor, uma desventura, um risco iminente. Por morar no local já há muitos anos, Jorge conhece as principais armadilhas que encontrará pelo caminho a cada saída. São calçamentos irregulares, buracos nas ruas, bueiros sem tampas, paralelepípedos soltos e até terrenos baldios com declives acentuados, que podem causar acidentes mesmo a qualquer transeunte mais distraído, ainda mais a um deficiente visual.

Jorge Erlei, inclusive, confessa que às vezes desiste de fazer as caminhadas diárias com medo de sofrer um acidente. “Minha sorte é que sou bastante conhecido por aqui e sempre aparece alguém para me ajudar num momento de dificuldade. Ao Centro de Amparo e de Nova Friburgo dificilmente vou sozinho. Seria um grande desafio. Mesmo com a bengala branca (símbolo de quem tem cegueira total ou baixa visão), muitos não respeitam e temo sofrer um acidente”, comenta ele, que chegou até a adaptar um roldana de borracha na base da bengala para perceber com mais facilidade as armadilhas no meio do caminho.

As dificuldades começam ainda na Travessa Breder, onde Jorge Erlei mora, com as irregularidades no calçamento. Na Rua João Lamblet e em outras do loteamento as calçadas estão cheias de obstáculos, muitos oferecendo perigo. Além de estreitas, as calçadas têm degraus desnivelados, rampas de acesso a garagens e até pinos de ferro para impedir o estacionamento de carros. Um verdadeiro desafio para os deficientes visuais. Junto a uma padaria no ponto final da linha de ônibus Centro-Azmparo, a calçada estreita e bastante acidentada é outra armadilha para Jorge. Nas ruas mais íngremes, os obstáculos são calçamento irregular, paralelepípedos soltos e bueiros sem tampas, sem contar o mato alto.

Para os portadores de necessidades especiais que se locomovem com cadeiras de rodas a situação também é bem crítica. “No Centro já existem algumas ruas com rampas para cadeirantes, porém, nos bairros e distritos parece que esqueceram que o deficiente pode ser útil e precisa se locomover para caminhar e até trabalhar, por que não?”, diz Jorge, que dá aulas particulares de violão no distrito de Amparo, onde se tornou bastante conhecido. “Muitos deficientes visuais acabam se enclausurando e evitam sair de casa, porque não têm ajuda de um acompanhante. Se as cidades brasileiras fossem adaptadas para os deficientes, tudo seria melhor”, acredita Jorge Erlei, ciente da necessidade urgente de maior inclusão social.

Para Afridev, falta ‘visão’

também ao poder público

As dificuldades enfrentadas por Jorge Erlei no dia a dia em Amparo são plenamente reconhecidas pela presidente da Associação Friburguense de Integração do Deficiente Visual (Afridev), Ivone Marques Moreira, vítima de cegueira adquirida, que condena a falta de políticas públicas que ofereçam melhores condições de locomoção aos deficientes visuais nos espaços urbanos não só de Nova Friburgo, mas também dos demais municípios brasileiros. “Faltam sinais de trânsito sonoros para nos ajudar a atravessar os cruzamentos, calçadas e ruas, calçamento melhor nivelado, orelhões adaptados, maior utilização de letreiros e placas em braile, mas, principalmente, maior bom senso do poder público”, observa Ivone.

A vice-presidente da entidade, Wanda Maduro, que tem menos de 10% da visão, conta que constantemente, ao caminhar pela Avenida Alberto Braune, onde mora, esbarra em toldos de lojas e reclama do piso irregular das calçadas e ruas. “Para atravessar os cruzamentos, ainda bem que sempre alguém ajuda”, valoriza, mas em relação ao transporte ela observa que ainda falta sensibilidade aos rodoviários. “Muitas vezes os ônibus param para desembarque com a porta dianteira bem em frente a postes, o que pode favorecer um acidente grave para quem é deficiente visual. Uma vez subi nos degraus da porta de um ônibus e perguntei ao motorista se ele iria para um determinado bairro e ele respondeu apenas sinalizando a cabeça. Depois de algum tempo, tive que pedi-lo para responder com a boca, porque não conseguia enxergá-lo”, exemplificou Wanda.

A diretoria da Afridev questiona ainda a falta de leis que garantam aos deficientes melhores condições de locomoção com segurança nas ruas das cidades. “No final das contas, acabamos nos sentindo discriminados e muitos evitam sair de casa”, acredita Ivone, lamentando a falta de apoio governamental à instituição que sobrevive apenas das doações de voluntários. Não há subvenções oficiais. Sem recursos, a Afridev não consegue difundir campanhas de estímulo aos deficientes visuais, como a difusão da linguagem em braile e do uso da internet, através do programa dosvox, o conhecido programa que fala, capaz de proporcionar ao deficiente visual o total manuseio do computador e a navegação na internet.

Entidade busca mais parceiros para ajudá-la

Mesmo diante de tantas dificuldades, a Afridev, que completou 20 anos de atividades no último sábado, 24, mantém parceria com o Centro de Ensino Supletivo (CES), que garante a formação escolar dos deficientes visuais, através de módulos com instrutores ledores, que reproduzem para os deficientes todo o conteúdo de apostilas e aplicam provas orais para verificar o aprendizado. A instituição oferece ainda consultas com oftalmologistas e dentistas, através de convênios e ainda sessões de massagens e ioga. “Tudo isso poderia beneficiar muito mais gente se tivéssemos mais apoio. Até nossas instalações são bastante acanhadas”, observa a presidente Ivone, que convida os interessados para uma visita à sede da Afridev, na Rua Augusto Spinelli 114, sala 107, Centro, telefone 2523-2012.

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