Maurício Siaines (*)
Em reportagem recente, de Cinara Menezes, publicada pela revista Carta Capital em 20 de janeiro de 2010, um cidadão brasiliense, que em eleição passada fazia campanha eleitoral para Joaquim Roriz contra o então governador Cristovam Buarque, revela o motivo de sua escolha eleitoral: “Porque Cristovam [Buarque] fez muito por onde moro, mas a mim mesmo não deu nada”.
Este tipo de postura política tem sido bastante comum: votar em alguém em troca de algum favor. E é sobre ela que se criam os políticos corruptos de um modo geral. É também o complemento necessário do coronelismo, pois sem os eleitores que procedem dessa maneira o velho modelo do tempo das sesmarias teria desaparecido. Votar é um ato que deveria estar vinculado a projetos político-ideológicos ou a escolhas de soluções para problemas. Da maneira – muito comum – como se comportou aquele eleitor de Brasília, perpetua-se o modo de fazer política dependente de caciques e chefetes.
Talvez esteja aí, nessa propensão a fazer do voto uma moeda para a compra de pequenos favorecimentos – um emprego, um jogo de camisas para o time e coisas deste tipo – a explicação para o fato de se perpetuarem relações arcaicas associadas a impulsos modernizantes. Foi assim com Fernando Henrique e tem sido assim com Lula, para ficar apenas em dois exemplos recentes de políticos adversários, que se valeram igualmente de alianças com antigos coronéis.
E esta é uma responsabilidade não apenas dos políticos, mas dos eleitores que os colocam onde estão, trata-se de uma via de mão dupla.
A antropóloga Karina Kuschnir escreveu sobre a máquina eleitoral de um vereadora campeã de votos da cidade do Rio de Janeiro, a quem ela deu o nome fictício de Marta Silveira, cuja base é o populoso bairro de Roseiral, nome também criado pela autora (Karina Kuschnir, 2000. O cotidiano da política. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor). A relação de Marta Silveira com a população de Roseiral é toda baseada em ‘favores’, como internações em hospitais e matrículas em escolas, instituições públicas, bem entendido. São direitos de qualquer cidadão que, pelas vias normais, muitas vezes é difícil serem alcançados.
Os caminhos para conseguir esses supostos favores são chamados por Marta de “acessos”. E ter “acesso” é o que diferenciaria o parlamentar eleito do cidadão comum. E saber usar os “acessos” na hora certa, para atender a reivindicações coletivas ou a pedidos individuais, seria a grande arte para conquistar os eleitores em reeleições sucessivas.
O comportamento daquele cidadão de Brasília é explicável por uma citação que Kuschnir faz de sua personagem, que foi objeto de estudo real: “Se você faz só a comunidade e não o pessoal, você corre o risco de perder o voto”. E esse indivíduo a que se faz ou deixa-se de fazer um favor pessoal, pode ser um ‘formador de opinião’, um multiplicador de votos.
Os dois exemplos citados aqui não aconteceram em distantes localidades do interior do país, mas no Rio de Janeiro e em Brasília, o que significa que o coronelismo está vivo no centro urbano, embora possa ter se originado de relações sociais rurais. A fonte de poder dos modernos coronéis não é a grande propriedade rural, mas a quantidade de “acessos”, como diria a personagem de Kuschnir, aos órgãos públicos, ao empresariado e a outras fontes de recursos e influência.
Só é possível mudar isto superando a política baseada na troca de favores e benefícios particulares e dando prioridade ao interesse público e descobrindo a cidadania. Enquanto se votar em alguém a espera de uma ou outra migalha, as diferenças políticas possíveis estarão relacionadas a onde será guardado o dinheiro, na meia, na cueca, na bolsa ou em outro lugar.
(*) Jornalista, mestre em sociologia

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