Frases datilografadas ao acaso - 9 de janeiro

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
por Jornal A Voz da Serra

Isso é sobre nada.

Esta é a história mais velha.

É como vendo a minha doença.

Olhe estas flores velhas, murchas, nascidas antes de você, estancadas entre as páginas de um livro.

Olhe estes olhos azuis de quem não pode guardar segredos.

Olhe para a multidão e veja as pessoas que estão ali. Disseque-as, cate de cada um, os pecadilhos que têm. Encerre orações com palavras ruins.

Você está fazendo algo, não?

Você está tentando criar algo.

Você está tentando matar algo.

O que há em você?

O que há lá fora?

Fora de você e de mim. Fora dos que patinam por essa vida como se fossem crianças inconsequentes. Ah, se eu pudesse respirar como você, faria de nós um único ser. Mas essa dor, essa distância de um palmo que parece um universo...

Catei alguns pontos na vida anterior. Catei algumas mensagens da vida que virá. E em nenhuma delas, me coube uma resposta.

Isso é sobre nada.

É assim que eu vendo a minha doença.

O tempo de cada um

O borbulhar pesado, o passo cansado e histérico, digno da tempestade final, sem sentido, aleatória, que acompanha toda a vida que se arrasta para fora do oceano. E que retorna às águas, escondendo-se do mundo exterior que fora criado com sua ajuda.

Perde-se em meio a poemas contraditórios, notas musicais falhas e descontentes. O vinho desejado. A força concentrada. Tudo contido numa única explosão.

A felicidade no fundo do copo.

Dos copos. Outra desculpa tola. O crime também é seu. O sangue também está em suas mãos. Olhar para o outro lado é consentir. A porta do inferno se abre.

Você já não pode admirar as feridas e promessas perdidas dos outros. É a si mesmo, que você quer machucar. Uma magia primal, flácida, desconfortável e corretamente necessária.

Não, não use essa palavra de novo. Corretamente. Terrível.

Magia primal.

Sob as águas, traça símbolos perfeitos.

Completa o caminho, permitindo-se sentir. Aceitando e aceitando-se. Pela primeira vez. De muitas primeiras vezes.

A felicidade em um corpo que não é o seu. Em um corpo que não deseja o seu.

Olha-se no espelho, a fina linha sobre as águas, que a separa do ar, e assusta-se. Olhos cansados e velhos encaram de volta. É você mesmo. Cada vez mais, é você mesmo.

Afunda.

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