Uma agradável noite escrevendo na residência dos Brontë

Elas provavelmente tomavam chá e, com certeza, deveriam trocar espirros ocasionais, em uma antecipação daquilo que seria o seu fim
sábado, 15 de agosto de 2015
por Gustavo Czekster*
As irmãs Bronte, ícones da literatura de língua inglesa.
As irmãs Bronte, ícones da literatura de língua inglesa.

Imaginem: uma mesa simples, de madeira, iluminada por velas. As chamas dançam nas paredes ligeiramente umedecidas. É noite, e mesmo a Lua se recusou a sair de trás do conforto das nuvens. Lá fora, o som do vento passeia pelos campos gelados, levantando uma neblina tão dolorosa que a relva parece se dissolver em espasmos de dor silenciosa. Na casa, a lareira crepita, convidativa, ameaçadora.

Ao redor da mesa, três mulheres escrevem. Estão em silêncio, e só conseguimos ouvir o som das penas sobre o papel, alternando-se com os soluçares da lareira. De vez em quando trocam ideias: ou é uma palavra que escapa da memória ou é uma situação em que não é possível ver o desenlace (às vezes, os personagens entram em enrascadas que deixam os autores tão perdidos quanto eles). Talvez alguma pergunte para as outras como se definiria em palavras o bigode de um determinado cavalariço, talvez outra tenha dúvidas se seria crível prender uma mulher louca dentro de uma casa.

Elas provavelmente tomavam chá e, com certeza, deveriam trocar espirros ocasionais, em uma antecipação daquilo que seria o seu fim. Eram mulheres tímidas, não muito acostumadas com os ritos sociais; só deviam se sentir bem entre si, entre irmãs, enquanto mundos fantásticos saíam das mãos ligeiras.

(Pergunto-me se alguma não brincou que elas seriam a representação perfeita das Três Moiras, mas é possível que a mais sombria das três respondesse que estavam mais para as Erínias, o que estragaria o chá — e os escritos).
Assim devia ser uma agradável noite na casa dos Brontë, com Charlotte, Emily e Anne escrevendo enquanto o mundo se contorcia ao redor da sala.

*GUSTAVO MELO CZEKSTER é gaúcho, advogado e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. É autor do livro O Homem Despedaçado, mesmo nome do consagrado blog de literatura criado e mantido por ele.

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