A humanização do parto no Brasil

É cada vez maior o número de mães no Brasil e no mundo que se preocupam com o procedimento utilizado durante o parto, seja no hospital ou em casa. O número de cesarianas no país também é alvo de polêmica, uma vez que nem sempre a cirurgia é necessária
sábado, 09 de maio de 2015
por Ana Blue
O ambiente impessoal do hospital, com a presença de tantas pessoas desconhecidas, pode gerar ainda mais ansiedade e medo à mãe
O ambiente impessoal do hospital, com a presença de tantas pessoas desconhecidas, pode gerar ainda mais ansiedade e medo à mãe
Banho de mar/Diz que é um porrete / Cônjuge voa / Transpõe o espaço / Engole água / Fica salgada / Se iodifica / Depois, que boa / Que morenaço / Que a esposa fica! / Resultado: filho. / E então começa / A aporrinhação”: é parto normal? É parto cesáreo? É com anestesia geral? Nesta matéria especial para o Dia das Mães, falamos sobre a humanização do parto no Brasil.

Nós ainda só não conseguimos aumentar essa porcentagem e obedecer as normas da OMS e do SUS porque nos falta estrutura
Vinicius, na poesia Enjoadinho, cujo trecho reproduzimos acima, revela parte das preocupações a que pais e mães estarão sujeitos nos primeiros aninhos de vida do bebê. Aliás, a alteração na rotina é inevitável depois da cegonha. A protagonista de toda essa mudança — a mãe — sofre mental e fisicamente todas as transformações, todas as dores e possíveis traumas da gravidez. Pulemos períodos de enjoo e azia, primeiros chutes, primeira calça que não fecha mais na barriga, enfim, e cheguemos logo ao momento mais esperado e mais temido: o parto.  Com o nascimento da princesa Charlotte, no Reino Unido, de parto normal, e a alta da duquesa de Cambrige, Kate Middleton, doze horas depois, traz à tona a questão que divide as mulheres: como dar à luz.

A dor do parto e todas as inseguranças que ele traz são fatores decisivos na hora de se optar pelo tipo de procedimento que será administrado no grande dia. O Brasil hoje abriga duas correntes fortes — e completamente distintas — a respeito deste assunto. De um lado estão os defensores da humanização do parto, seja através do parto domiciliar ou mesmo que dentro do hospital, mas de forma que a mulher tenha o acompanhamento de alguém que lhe traga segurança. De outro, a defesa do parto cirúrgico, chamada por alguns especialistas de “a indústria da cesárea”, já que o número de intervenções cirúrgicas realizadas no país, especialmente entre as mulheres com maiores recursos financeiros, é mais que o triplo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Na prática, isso equivale dizer que o método que, a princípio, só deveria ser feito em casos de risco de morte para a mãe ou bebê acaba se tornando, indiscriminadamente, uma opção viável. Para realizar esta matéria ouvimos três pessoas: a doula Tamires Borba, o neonatologista Luiz Matos, diretor do Hospital Maternidade de Nova Friburgo, e o obstetra Marcio Lamblet, do Instituto Fernandes Figueira, no Rio. 

A palavra doula vem do grego e significa “mulher que serve”. Sua função é dar suporte físico e emocional à gestante antes, durante e após o parto. Antigamente, durante o parto, na maioria das vezes realizado em casa mesmo, era comum as parturientes estarem acompanhadas de parteiras e de mulheres mais experientes, que já tivessem filhos: suas mães, irmãs mais velhas, avós. Mas conforme a sociedade foi mudando, as famílias diminuindo e a medicina, evoluindo, também o parto foi passando da esfera estritamente familiar para a esfera médica, dentro de hospitais e maternidades. Com isso, toda uma equipe de profissionais foi montada para atender a gestante: há o obstetra, que se ocupa dos aspectos técnicos do parto, as enfermeiras obstétricas, as auxiliares de enfermagem, anestesista, pediatra, tudo pensado de forma a garantir um parto seguro. Mas, ainda assim, isso gerou uma lacuna no processo: quem cuidará especificamente do bem-estar físico e emocional daquela que está dando à luz? Essa é a tarefa da doula. 

O ambiente impessoal do hospital, com a presença de tantas pessoas desconhecidas, pode gerar ainda mais ansiedade e medo à mãe. A doula acompanha os pais do bebê durante a gestação e orienta sobre o que se esperar do pré-parto e puerpério. No momento do parto, ela é como uma ponte entre o profissional que está realizando o procedimento e o casal. Ela ajuda a parturiente a encontrar posições mais confortáveis para o trabalho de parto, ensina métodos de respiração e propõe formas naturais que podem aliviar as dores, como banhos, massagens, etc. Após o parto, ela visita a família oferecendo apoio para os cuidados com o recém-nascido, principalmente em relação à amamentação. Vale ressaltar que a doula não realiza os partos, apenas acompanha o profissional que irá fazeê-lo, seja uma parteira ou médico obstetra, seja em parto domiciliar ou em hospital. Pesquisas apontam que a atuação da doula ajuda a diminuir as taxas de cesárea, os pedidos por anestesia, o uso de oxitocina ou do fórceps, além de evitar a malfadada episiotomia.

A corrente pela humanização defende o respeito à fisiologia do parto, principalmente neste momento em que muitos hospitais e médicos não observam as regulamentações da OMS e Ministério da Saúde. É sabido que há situações em que uma intervenção cirúrgica é realmente necessária e os defensores do parto humanizado não são contrários à operação, apenas acreditam que a mulher tem o direito de escolher a via do parto, após ser devidamente orientada sobre as vantagens e desvantagens de cada procedimento e as sequelas que eles implicam. Defendem ainda que a gestante possa escolher o ambiente onde se dará o parto, não se atendo apenas ao ambiente hospitalar. Neste aspecto, o parto domiciliar é amplamente debatido em casos de baixo risco. Laura Morgado, a mamãe da foto no alto da página, teve duas filhas, a Maite e a Cecília. No parto de Maite, Laura afirma ter passado por “uma cesariana roubada”, contra sua vontade. Já Cecília nasceu em casa, no quarto do casal, com o acompanhamento da doula e do pai.

Segundo Tamires, “a cesariana é uma cirurgia de grande valia que salva muitas vidas. No entanto, o uso deste artifício sem as reais emergências obstétricas é perigoso, já que em geral é mais arriscado tanto para a mãe quanto para o bebê. Uma cesárea eletiva sem emergência tem quase três vezes mais risco do que um parto normal.”

O número de partos cesáreos no Brasil, como já dito, está muito acima do que é recomendado pela OMS, em especial na rede particular de saúde. No box abaixo, o doutor Márcio Lamblet explica alguns possíveis fatores para esse grau elevado de operações. Já na rede pública, ainda prevalecem os partos vaginais. Segundo o doutor Luiz Matos, dos 1376 partos realizados pela unidade, 723 foram normais — o que representa 52,5%. Ainda não é o ideal, mas o diretor espera mudar esse quadro em breve. “Nós ainda só não conseguimos aumentar essa porcentagem e obedecer as normas da OMS e do SUS porque nos falta equipamentos e estrutura. Por exemplo, existe um equipamento de monitoração chamado cardiotoco, que faz a cardiotocografia, um exame que avalia o bem-estar fetal e detecta a frequência cardíaca do bebê. Esse acompanhamento é fundamental durante o pré-parto, mas o nosso aparelho já está quebrado há anos. Se esse aparelho estivesse em pleno funcionamento e se tivéssemos um serviço mais avançado de ultrassonografia, o índice de partos normais seria maior. Temos uma boa estrutura médica, sempre com plantonistas fixos e uma ótima equipe de enfermagem, mas ainda faltam equipamentos e a devida manutenção destes. Nossa aparelhagem é adequada, mas poderia ser bem melhor, pois são problemas simples de se resolver”, diz.

Sobre a humanização do parto na maternidade, Doutor Luiz Matos diz que há a previsão de que em breve seja possível melhorar o atendimento às gestantes. A maternidade está em obras: há vários ambientes ainda sem uso que, segundo o médico, no futuro servirão para acomodar mais adequadamente as gestantes e os acompanhantes. Vale lembrar que a lei federal n.º 11.108/2005 garante o direito da gestante ter um acompanhante de sua escolha no pré e pós parto, mas segundo o diretor, hoje a estrutura física da unidade não permite acomodar esses acompanhantes, portanto, a norma não está sendo colocada em prática atualmente. Perguntado sobre a previsão de inauguração destes novos espaços, Luiz Matos informa que o prazo inicial para entrega já expirou, mas acredita que não demora muito a ficar tudo pronto. 

Ambos os médicos, Luiz Matos e Márcio Lamblet, têm apenas ressalvas quanto ao parto domiciliar, já que, na visão deles, representa maiores riscos ao recém-nascido por não haver uma estrutura neo-natal adequada por perto. A esse respeito, Thamires lembra que um parto domiciliar urbano planejado conforme os protocolos de segurança e com a assistência adequada para gestantes de baixo risco pode ser executado sem problemas, pois qualquer emergência é facilmente detectada pela equipe e a gestante é imediatamente encaminhada para um hospital, onde além da doula, terá assistência de toda a equipe médica necessária. Os debates em relação ao parto domiciliar estão em plena evidência no mundo neste momento.

Por que a cesariana parece ser a primeira opção

O doutor Márcio Lamblet é ginecologista e obstetra do Instituto Fernandes Figueira, no Rio. Sob sua análise, a alta incidência de cesarianas no Brasil — na maioria das vezes, desnecessárias — tem motivos variados, que vão desde a opção da mulher pelo procedimento, o não conhecimento do médico sobre a dinâmica do trabalho de parto, até a questão da remuneração inadequada pelo serviço. “Partos normais ou cesáreas dão a mesma remuneração aos médicos, mas a disponibilidade de tempo do profissional para o parto normal é muito maior do que no parto cirúrgico, logo, os partos programados acabam sendo a primeira opção.” Segundo ele, apesar dos riscos comprovados da cesariana, como por exemplo, o risco do bebê ser retirado antes do tempo, do aumento de mortalidade, morbidade materna grave, internação em UTI, uso de antibióticos, necessidade de transfusão, histerectomia e do tempo de permanência no hospital, o procedimento é considerado seguro e por isso ainda prevalece a comodidade para o médico, de realizar a cirurgia previamente combinada, e também da mãe, quando esta opta pela cesariana. 

O médico lembra que a mãe tem o pleno direito de escolher a via do nascimento do seu bebê, sua voz deve ser determinante neste aspecto, mas antes disso, deve ser muito bem orientada pelo médico, que inclusive tem a responsabilidade de contornar a ansiedade da mulher. Se ela quiser tentar o parto normal, o obstetra não deve tentar convencê-la do contrário. Mas se ela optar pela cesariana, é igualmente preciso que a cirurgia seja realizada de forma segura, na época certa, em condições favoráveis para a mãe e o bebê.

  • A humanização do parto em debate: conheça os dois lados

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  • No Hospital Maternidade de Friburgo há algumas alas que, quando inauguradas, servirão para melhorar a acomodação de gestantes e acompanhantes

    No Hospital Maternidade de Friburgo há algumas alas que, quando inauguradas, servirão para melhorar a acomodação de gestantes e acompanhantes

  • Segundo o diretor da maternidade, falta de manutenção de equipamentos compromete o atendimento adequado a parturientes e recém-nascidos

    Segundo o diretor da maternidade, falta de manutenção de equipamentos compromete o atendimento adequado a parturientes e recém-nascidos

  • “Temos uma boa estrutura médica, sempre com plantonistas fixos e uma ótima equipe de enfermagem, mas ainda faltam equipamentos” – Luiz Matos

    “Temos uma boa estrutura médica, sempre com plantonistas fixos e uma ótima equipe de enfermagem, mas ainda faltam equipamentos” – Luiz Matos

  • “A cesariana é uma cirurgia que salva muitas vidas. No entanto, o uso deste artifício sem as reais emergências obstétricas é perigoso, mais arriscado tanto para a mãe quanto para o bebê” – Tamires Borba

    “A cesariana é uma cirurgia que salva muitas vidas. No entanto, o uso deste artifício sem as reais emergências obstétricas é perigoso, mais arriscado tanto para a mãe quanto para o bebê” – Tamires Borba

  • “Se a mulher quiser parto normal, o obstetra não deve tentar convencê-la do contrário. Mas se optar pela cesariana, é preciso que a cirurgia seja realizada de forma segura” – Márcio Lamblet, friburguense, formado há 34 anos, fez seu primeiro parto na antiga maternidade da LBA, hoje Hospital Maternidade

    “Se a mulher quiser parto normal, o obstetra não deve tentar convencê-la do contrário. Mas se optar pela cesariana, é preciso que a cirurgia seja realizada de forma segura” – Márcio Lamblet, friburguense, formado há 34 anos, fez seu primeiro parto na antiga maternidade da LBA, hoje Hospital Maternidade

  • Laura Morgado teve duas filhas, Maite e Cecília. No parto da primeira, afirma, foi induzida desnecessariamente à cesareana. No da segunda, foi em casa, assistida por uma doula e na companhia do pai

    Laura Morgado teve duas filhas, Maite e Cecília. No parto da primeira, afirma, foi induzida desnecessariamente à cesareana. No da segunda, foi em casa, assistida por uma doula e na companhia do pai

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