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A espartana vila de Nova Friburgo
No início do século XIX, uma viagem do Rio de Janeiro até a vila de Nova Friburgo se efetuava em três longos dias. Com o advento da estrada de ferro passou a ser feita em cinco horas o mesmo trajeto. Na história do município uma data memorável era celebrada entusiasticamente: o dia três de janeiro, dia em que o povo “friburguense” erguia os mais festivos hinos e saudações patrióticas. Era a data da criação da Freguezia de São João Batista, elevada à categoria de vila por alvará de 3 de janeiro de 1820. Foi nessa ocasião que Nova Friburgo entrou para o mapa das poucas vilas que então existiam, dando aos habitantes daquela região, outrora Sertões do Macacu, vantagens e regalias que até então não possuíam, e que antes, para gozá-las, tinham que atravessar as tortuosas serras e maus caminhos, afrontando grandes perigos, fazendo enormes dispêndios e suportando inúmeros incômodos. A principal vantagem de ter se tornado vila foi a criação dos foros de justiça, exercida pela Câmara Municipal, que desempenhava, entre outras funções, a do judiciário.
Pelo lindo vale cercado por imensas montanhas, de um extremo a outro, corria o Rio São João das Bengalas, formado pela junção dos rios Cônego e Santo Antônio, que lançam suas águas no Rio Grande para irrigar os campos e roças de milho, feijão, verduras e frutas em seu entorno. No belo Vale do Bengalas, de flores multicoloridas, sobrevoavam bandos imensos de maritacas, galinhas do mato e a gárrula passarinhada reinava com seus gorjeios e álacres trinados. Mas havia, outrossim, o perigo dos animais selvagens que amedrontavam a população. O colono suíço João Marfort fez um requerimento à Câmara pedindo um prêmio por ter matado 22 onças na região. E continuamente tropas de burros passavam pela vila de Nova Friburgo com bruacas repletas de mercadorias rumo aos portos marítimos. Nova Friburgo era um lugar de passagem da rota de comércio entre Cantagalo e a Corte.
Na espartana vila de Nova Friburgo a monotonia do trabalho só era quebrada pelas festas religiosas. Havia as procissões com seus ritos de ardor e fé, e a parte mundana com seus folguedos e bródios ao qual se encontravam as famílias dos fazendeiros da região. As festas mais celebradas na vila eram o dia de São João, debaixo de cuja proteção D. João VI pôs Nova Friburgo e de São Pedro, outro santo taumaturgo venerado pela população. Nos domingos e dias santos os fazendeiros também vestiam alguns de seus escravos com roupas bonitas e os levavam para o culto católico na vila.
O comportamento social da elite de fazendeiros locais, de acordo com o relato do colono suíço Hecht, repetia exatamente os padrões do Brasil Colonial. Os primeiros habitantes da região, os fazendeiros luso-brasileiros, tinham residências muito modestas. Hecht visitou algumas destas fazendas descrevendo seus modos de vida que se distanciavam muito pouco do conforto da vida de seus escravos e agregados. De acordo com a sua descrição, as residências dos fazendeiros luso-brasileiros não tinham absolutamente nenhum conforto, com paredes de barro e pau a pique, sem janelas, fechaduras, nem sequer cadeiras e bancos. Assentavam no chão e ali comiam. Trancas de madeiras barravam a entrada dos casebres. Quase não possuíam móveis em suas residências e todos os utensílios e objetos domésticos ficavam dentro de baús e malas. Relatou que “não eram propriamente casas, mas sim casebres simples e miseráveis”. Daí talvez não proceda a análise de alguns historiadores ao criticarem as residências construídas para abrigar os suíços na vila, dando-as como miseráveis e sem conforto. Na realidade, estavam dentro das condições materiais dos moradores da região.
De um modo geral, a pobreza da casa e a rudez dos costumes dos fazendeiros luso-brasileiros aproximavam na aparência o que na existência social estava inapelavelmente distanciado. A simplicidade niveladora entre essa elite e seus agregados e escravos só será mantida no universo da residência. Quando exposta ao mundo, em contato com seus pares, a exemplo das festas religiosas, a elite saberá ostentar os sinais externos de seu poderio. Nesses momentos a distinção renascia, como que relembrando a todos quem tinha o poder. Em Nova Friburgo, a vida espartana dos fazendeiros luso-brasileiros contrastava com o vestuário que exibiam em sua vida social. Nos casebres miseráveis as mulheres friburguenses guardavam rica indumentária, sendo possuidoras de joias, como brincos e colares e de anéis cravejados de diamantes, observou Hecht. Homens e mulheres usavam na maioria das vezes mulas para se locomoverem, pois as carroças eram menos aconselháveis devido às estradas barrentas. As senhoras da elite friburguense usavam socialmente vestido brancos, enfeitados nas barras com flores e folhas. Por cima vestiam um casaco de cor e calçavam botinas e esporas de prata. Com brincos e colares e os dedos a exibir anéis de diamantes, cobriam a cabeça com um fino chapéu de castor, com pelos esvoaçantes e um penacho preto.
Luso-brasileiros, suíços, alemães e africanos povoavam a vila da pacata Nova Friburgo no início do século XIX. Pode-se imaginar a bizarra comunicação entre esses homens desgarrados de seu torrão natal e tentando se adaptar a um novo cotidiano. Falava-se na vila o português, o francês, o alemão, os diversos idiomas das nações africanas, sem contar com as diversas culturas que se imbricavam dando um colorido e matizes de cores ocasionadas pela diversidade de raças e culturas. Fica aí um breve panorama da espartana vida dos primeiros habitantes da vila de Nova Friburgo no início daquele século.
Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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