Escravidão em Nova Friburgo: uma história que merece ser recontada

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Com a vinda da família real portuguesa e toda a sua corte em 1808 para o Brasil, vários acontecimentos históricos se seguiram a esse episódio. Antes disso, o país estava fechado aos homens livres que não fossem portugueses a imigrar para o Brasil, salvo raríssimas exceções, como o caso de famílias britânicas, mas ainda assim com certa limitação. D. João VI resolveu estabelecer no Brasil colônias de estrangeiros pagando-lhes a passagem e dando-lhes um “trato de terra”. As primeiras colônias de imigrantes foram Santa Leopoldina, na Bahia, em 1818, e Nova Friburgo, em 1820, ambas com colonos suíços. Os alemães vieram logo em seguida para Nova Friburgo, em 1824. A partir de então, Nova Friburgo será sempre mencionada como uma das primeiras experiências históricas de núcleos coloniais, baseada na mão de obra livre. Era um fato inédito para uma sociedade escravocrata como era o Brasil, que já entrava no terceiro século com o modo de produção baseado no trabalho de escravos africanos.

A vinda dos colonos suíços contribuiu para criar em Nova Friburgo a representação de uma região que seria dominada hegemonicamente pelo homem branco europeu. O clima semelhante ao da Europa atraía cada vez mais imigrantes europeus para a vila de Nova Friburgo, pois temiam as doenças tropicais das cidades quentes e úmidas. Logo, esses dois fatores, imigração de suíços e alemães e igualmente o clima, contribuíram para a imagem de que Nova Friburgo era um “pedacinho” da Europa, uma ilha em um país onde pululavam homens negros e mulatos devido ao tráfico cada vez mais intenso de escravos africanos. A predominância do café no século XIX como elemento principal da economia nacional, provocava cada vez mais o deslocamento de africanos para o interior fluminense, berço dos barões do café. O Rio de Janeiro era, na época, o maior porto de entrada de escravos do mundo. Cerca de 60% dos escravos importados pelo Brasil desembarcavam no Rio de Janeiro e as terras fluminenses absorviam boa parte da escravaria. O grande historiador Alberto da Costa e Silva descreveu a nações africanas arrebanhadas como escravos para o Brasil: congos, angicos, andongos, libolos, vilis, quissamas, luangos, iacas, imbangalas, bailundos, huambos, pendes, songos, ganguelas, luenas, lubas, lovales, lózis, bembas, Ijebus, ijexás, auoris, efans, quetos, ondos, oiós, ifés, fons, huedás, mahis, evés, guns, gás, malês, hauçás, baribas, nupes, grunces bornus, aças, fantes, acuamus, adansis, axantes, ibos, ibíbios, ijós e efiques.

Poderia Nova Friburgo, tão próxima do Rio de Janeiro e localizada na arena dos barões do café, permanecer incólume à escravidão? Parecia que Nova Friburgo, escolhida para ser um núcleo experimental com a utilização de mão de obra livre, era uma ilha nessa onda de escravos que permeava a produção e o cotidiano do Brasil oitocentista. No entanto, foi realmente uma ilha nesse sentido? O Centro de Documentação Histórica de Nova Friburgo não possui muitas fontes sobre os escravos no município. Um recenseamento feito pelo padre Joye, em 1828, declara que na Paróquia de São João Batista de Nova Friburgo havia 824 colonos imigrantes, 791 brasileiros e 1.272 escravos. Os suíços, aqueles que deveriam dar o exemplo de que o Brasil poderia ter uma economia viável sem recorrer ao trabalho escravo, tão logo encheram suas algibeiras com alguns tostões, adquiriram cativos para trabalhar em suas lavouras. Estava derrubada a tese de Joaquim Nabuco e de José Bonifácio de que o Brasil poderia ter um modo de produção, uma economia, sem recorrer à escravidão. Até mesmo o eclesiástico padre Joye, guia espiritual dos suíços católicos, não deu o exemplo. Ele possuía alguns escravos domésticos.

Já em 1835, a Câmara Municipal de Nova Friburgo informou ao governo provincial que a sua população branca era de pouco mais ou menos 2.800 habitantes e a escrava de 2.000. Em um levantamento realizado pelo império em 1840, a população livre, compreendendo brancos, pardos e negros, era de 2.888 pessoas, aproximadamente. Nesse mesmo ano, a população escrava era de 2.155, correspondendo a quase 43% da população total de 5.043 pessoas, conforme levantamento feito na Freguesia de São João Batista. Dessa feita, Nova Friburgo não era essa ilha que imaginávamos, com predomínio absoluto da população branca. Se formos recorrer aos artigos do Código de Posturas do início do século XIX, vamos nos deparar com inúmeros artigos regulamentando a circulação dos escravos pela vila.

Logo, não podemos nos enganar com a representação de Suíça brasileira e excluir a questão da escravidão do processo histórico de Nova Friburgo. Ainda que as fontes sejam escassas, alguns historiadores nos legaram brilhantes contribuições sobre a escravidão em Nova Friburgo. Gioconda Losada pioneiramente publicou o livro “Presença Negra—Uma nova abordagem da história de Nova Friburgo”, um excelente material no qual muitas outras pesquisas poderão partir. O livro “Teia Serrana”, uma coletânea com artigos de vários historiadores locais, também traz um notável texto sobre a questão da escravidão no município. Gostaria igualmente de chamar atenção para o livro “Os Crimes da Fazenda Ponte de Tábuas—Um Estudo Sobre a Escravidão em Nova Friburgo no século XIX”, de Jorge Miguel Mayer e Edson de Castro Lisboa, que analisam um processo criminal sobre uma fuga de escravos ocorrida em 1851, em uma antiga fazenda localizada no atual distrito de Conselheiro Paulino. Esse processo é um instrumento em que raras vezes podemos ouvir as vozes diretas dos escravos, pois foram condenados ao analfabetismo pelo sistema político português. Revisionismo ou não, a história de Nova Friburgo merece ser recontada.

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

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Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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