Imigração italiana: uma história esmaecida

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Conhecidos como alegres e emotivos, de sotaque cantante, eram vistos como laboriosos lançando-se à faina da lavoura, da carpintaria, educação, artes, comércio e indústria. Eram os imigrantes italianos que começaram a chegar a Nova Friburgo no final do século XIX. A celebração do dia “20 de Setembro”, em comemoração a unificação da Itália em 1870, era um acontecimento muito mais festejado em Nova Friburgo do que a recente proclamação da República. Nesse período, havia a Societá Mutuo Socorso, com a presidência de Maggiorino Massa, agente consular na cidade. Após seis anos de funcionamento regular, ocorreu uma divergência interna que originou a formação de outra sociedade, a Príncipe de Napoli, sob a presidência de João Giffoni e ambas funcionaram até 1909. O próspero italiano João Giffoni obteve do governo italiano subsídios para a criação da Escola Italiana Victor Emmanoel III, inaugurada em 27 de junho de 1909, iniciando com uma turma de 33 alunos. Mais adiante surgiram duas outras instituições, a primeira denominada Circolo Italiani Uniti e a segunda Sociedade Cultural Dante Alighieri. Essa última foi criada em 1932, sendo a princípio uma filial da Dante Alighieri do Rio de Janeiro, se tornando autônoma em 1973. Como as duas outras instituições que as precederam, essas sociedades civis encontram-se divididas até hoje por dissensões entre os seus membros. À exceção dos luso-brasileiros, nenhum outro grupo de imigrante possuía tanta capacidade de organização em Nova Friburgo como os italianos.

Martin Nicoulin jacta-se de ter dado aos colonos suíços uma identidade, uma certidão de nascimento, pois relacionou em sua obra nomes e sobrenomes dos primeiros colonos suíços em Nova Friburgo. Tentei fazer o mesmo com os imigrantes italianos nesse município, mas não logrei êxito. Em 2010 procurei o representante de uma dessas instituições no sentido de levantar através de algumas fontes primárias e fotografias informações sobre a imigração italiana em Nova Friburgo. Houve a recusa em disponibilizar tal documentação. Ironicamente, a enchente de 2011 destruiu quase todo o acervo fotográfico dessa instituição, que teria sido preservado caso me tivesse sido fornecido na ocasião para que eu as reproduzisse. Com relação às memórias, houve recusa em conceder entrevistas por parte de dois patriarcas de importantes famílias italianas na cidade. Reapresentar a história dos imigrantes italianos em Nova Friburgo é como tirar água de pedra, mas ainda assim, tenho conseguido alguma informação graças às famílias Lívio e Mastrângelo.

Os primeiros registros de italianos na Vila de Nova Friburgo ocorrem no início do século XIX. Um levantamento de aforamento feito junto a Câmara Municipal de Nova Friburgo registra os pedidos de João Batista Nicolau em 1833, João Batista Midori em 1840, Conrado Satelin e Edmond Tiberchin em 1841. Mas não é nada significativo. Os italianos chegaram a Nova Friburgo na grande onda de imigração no último quartel do século XIX. No final desse século, a colônia italiana já era bastante numerosa em Nova Friburgo, o que ensejou a fundação de uma associação de beneficência para os seus membros, citada anteriormente. Os primeiros italianos que chegaram a Nova Friburgo nesse período vieram da região de Veneto, sendo eles as famílias Spinelli, Lívio, Malinverno, Camponogara, Gambini, Bizzto, Danieli, Falchetto, Fioravanti, Cozza, Tessarollo, Carestiato Merecci, Pilotto, Bianchini, Veronese, Guadagnini, Levorato, Pietrobon, Bonan, Carletto, Canella, Carpi, Speranzetta, Cescon, Nicola e Midori. Em seguida vieram os Cantelmo, Carusso, Massa, Giffoni, Olivetti, Balderrama, Dominico, Cognasca, Tilli, Botelli, Della Valle, Macri, Mangia, Tesone, Gravino, Vassallo, Bertoni, Miele, Villa, Vertulli, Bazetti, Perna, Sorrentino, Copellli, Salomoni, Crescenzi, Caputo, Mastrangelo, Bartolli, Balbi, Longo, Meceni, Cunta, Rastrelli, Baldo, Chiachio e Fabris. Mais adiante chegaram as famílias Mauro, Cariello, Imbroinisi, Mezavilla, De Paola, Colicigno, Moliari, Montechiari, Striotto, Giussi, Orlando, De Lucca, Novelli, Magliano, Tosoni, Conti, Dottino, Vanzilotta, Fiasca, Senna, Nicolielo, Petrilo, Buseli, Carnevale, Amendola, La Rocca, Venerabile, Agrello, Lo Bianco, Moraschini, Loparo, Venturini, Cozarini, Bevilacqua, Boareto, Malachini, Vitiello, Piacentini, Sabadini, Badini, Dalmasso, Latini, Povoleri, Capris, Matuglia, Boeno, Fionda, Girardi, Gitti, Rosatto, Lomanto, Marotti, Grosso, Lomonaco, Magaldi, Guaraldi, Dessanto, Cafferi, Fachetti, Pecci entre outros.

A memorialista Yolanda Cavalieri se recorda do almoço de ovo frito com polenta e mortadela, feitos no fogão de lenha crepitante e da Casa d’Italia, onde ouvia palestras sobre Dante, Sanzio, Cellini, Leonardo da Vinci e igualmente dos bailes do Club Dopo Lavoro. Numa parte do salão, a moçada sambava e fazia cordões, enquanto que no outro, os mais velhos dançavam alegremente a tarantela. Fica aqui um singelo registro daqueles primeiros imigrantes italianos em Nova Friburgo para dar aos carcamanos e aos macarrones friburguenses, um nome e um sobrenome à sua história.

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

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História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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