Uma festa veneziana em Nova Friburgo

quinta-feira, 05 de julho de 2012

Mexendo minhas garatujas vou procurando reunir depoimentos para resgatar a memória de Nova Friburgo e compor um quadro do cotidiano da cidade. Em 1986, João Bizzotto, nascido em 1904, descendente de italianos que chegaram a Nova Friburgo no final do Século XIX, concedeu entrevista ao jornal Correio Friburguense recordando sua juventude e o tempo de seu pai. O interessante é que conseguimos resgatar uma memória que remonta ao século retrasado. O pai de João Bizzotto trabalhara para o segundo de Barão de Nova Friburgo. Bizzotto se recorda da Olaria na região do Cônego com o imenso galpão fabricando tijolos e dos pianos subindo a serra no lombo de burros. Antes da vinda do trem havia barcas que vinham do Rio de Janeiro e Niterói desembarcando em Porto das Caixas. As mercadorias vinham no lombo dos burros ou eram trazidas pelos escravos, narra João Bizzotto segundo a memória familiar de seus pais.

Havia uma parada na Boca do Mato, perto de Cachoeiras de Macacu. A partir daí começava a subida da serra e a baixada naquela época era um imenso mangue, onde florescia uma árvore própria dos mangues e se utilizava a sua madeira para a fabricação de tamancos. Havia uma fábrica de tamancos em Nova Friburgo e o tamanco era um calçado de madeira típico das classes populares. O mangue foi aterrado pelo Barão de Nova Friburgo para viabilizar a estrada até Niterói. Da Boca do Mato se subia a serra por uma estrada que recebeu pavimentação de um tipo de piso denominado de “pé de moleque”. Segundo Bizzotto, essa estrada saía em um lugarejo que o barão passou a denominar de Cônego, em homenagem a um cônego amigo seu que vinha sempre passar as férias em Nova Friburgo. Recorda-se que todo o material da construção do Sanatório Naval, que servira como residência de verão do primeiro Barão de Nova Friburgo, veio todo da França. O centro do varandão foi projetado para formar uma rosa dos ventos. Segundo ainda Bizzotto, o barão adquiriu mais terras na redondeza e doou parte delas a um primo de sobrenome São Clemente, daí o nome de Parque São Clemente, hoje o Country Clube de Nova Friburgo. As festas no chalé do Parque São Clemente duravam três dias e a elite carioca frequentava amiúde essas festas.

Alguém consegue imaginar barcos velejando pelo Rio Bengalas na Av. Galdino do Valle? Na comemoração do centenário da fundação de Nova Friburgo, em 1918, a colônia alemã se propôs a fazer os festejos na cidade. Já se instalavam no município os industriais alemães que transformariam Nova Friburgo de uma pacata cidade de veraneio em um polo industrial. Os descendentes do Barão de Nova Friburgo se incumbiram de organizar uma festa veneziana no Rio Bengalas. A família do Barão e o Sr. Ernesto Kepp patrocinaram 12 barcos fabricados na oficina dos Bizzotto. Os Bizzotto fabricavam ainda na cidade esquadrias, “carros”, carroças e móveis. No fim da Avenida Galdino do Vale (outrora Av. Friburgo), perto do Colégio Modelo, as águas foram represadas deixando o rio Bengalas com um enorme volume d’água. Os friburguenses nunca se esqueceram daquela apresentação. A avenida foi toda iluminada e o povo se digladiava para conseguir um lugar às margens, recorda-se João Bizzotto. Os doze barcos tinham dois remadores e conduziam quatro pessoas cada um. Foi um espetáculo inesquecível.

Já José Pereira da Costa Filho, nascido em 1902, trabalhou na construção dos alojamentos que abrigaram os prisioneiros alemães no Sanatório Naval durante a Primeira Guerra Mundial. Segundo ele, até a conclusão das obras, os prisioneiros alemães ficaram acampados em barracas. O bom comportamento dos alemães lhes dava o direito de passear pela cidade e até formaram um conjunto musical tocando para a população friburguense músicas típicas de sua cidade natal. Para passar o tempo, os prisioneiros alemães costumavam jogar futebol em disputados “rachas”. Foi quando a camaradagem entre os funcionários do Sanatório Naval, a marujada, os alemães e os operários da obra se estendeu ao campo de futebol. Passou a haver campeonatos entre os brasileiros e os alemães e até fornecedores do Sanatório integravam o time. Muitos dos jogadores foram posteriormente incorporados ao Esperança Futebol Clube.

Com relação aos prisioneiros alemães acima citados por Costa Filho, trata-se de um interessante episódio na história de Nova Friburgo. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) aproximadamente 45 navios alemães da Marinha Mercante, ancorados em portos nacionais, foram detidos pelo governo brasileiro. Como se objetivava aprisionar seus tripulantes bem distante do litoral, uma das cidades escolhidas foi Nova Friburgo. Vários fatores concorreram para essa escolha: A existência do Sanatório Naval, um estabelecimento da Marinha do Brasil, logo os marujos de ambas as nações se entenderiam bem e a existência de muitos descendentes dos colonos alemães que imigraram para Nova Friburgo no final do século XIX, o que facilitaria a comunicação. Acrescente-se ainda a adaptação ao clima, muito semelhante ao da Alemanha. Como vimos nesses depoimentos, através da memória, podemos reapresentar interessantes acontecimentos da história de Nova Friburgo.

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

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História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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