Guillaume Salusse: um bonapartista em Nova Friburgo

sexta-feira, 29 de junho de 2012

É certo que determinados acontecimentos desencadeiam outros e assim caminha a história da humanidade. Nesse sentido, poderíamos até afirmar que a antecipação da independência do Brasil deve-se a Napoleão Bonaparte, que ameaçando invadir Portugal, provocou a fuga da família real portuguesa e toda a sua Corte para o Brasil. Muitos historiadores consideram a data 1808, ano da chegada a Corte ao Brasil, como o marco inicial de nossa independência. Mas a matéria de hoje é para descrever a trajetória de um súdito de Napoleão Bonaparte, o francês Guillaume Marius Salusse, que imigrou para Nova Friburgo no início do século XIX, tornando-se o patriarca de uma das famílias mais importantes da então vila naquele século.

Em decorrência da abdicação de Napoleão Bonaparte em 1815, ocorreu a desmobilização dos exércitos europeus, retornando para suas pátrias uma grande quantidade de ex-combatentes. No entanto, muitos deles não se adaptando às suas cidades e aldeias, emigraram para outros países. D. João VI, interessado em implantar no Brasil um núcleo de colonos europeus encarregou Nicolau Sebastian Gachet, antigo secretário particular do Rei Murat, cunhado de Napoleão e Rei de Nápoles, de organizar e encaminhar colonos suíços para integrar uma colônia no Brasil. Inicialmente se cogitou em instalá-la no Curato de Santa Cruz, na fazenda Real ali existente. Porém, possivelmente temendo-se o problema da adaptação ao clima tropical, optou-se pela Serra do Mar, na Fazenda do Morro Queimado, em função do clima mais adequado aos europeus. Os colonos eram originários de vários cantões da Confederação Helvética (hoje Suíça), sendo a maioria de Fribourg, daí o nome de Nova Friburgo. Vieram igualmente com os suíços muitos franceses da vizinha Alta Savoia, além de austríacos e italianos radicados na Confederação Helvética. De um modo geral, os mais jovens e solteiros tinham sido combatentes dos exércitos de Napoleão, especialmente os que vieram do Cantão de Valais, que fez parte do império francês. Mas em razão das dificuldades estruturais da colônia de Nova Friburgo, muitos suíços migraram em direção a Cantagalo e Vale do Rio Macaé, tendo outros assentado praça na tropa de linha no Rio de Janeiro.

Com a morte de Napoleão, o ex-combatente das guerras napoleônicas, Guillaume Salusse, ingressa na Marinha mercante como capitão de longo curso e em 1823, parte para o Atlântico Sul. Porém, ao aportar no Rio de Janeiro, adoece gravemente e é obrigado a desembarcar na Corte. Durante sua convalescença, Guillaume Salusse foi aconselhado a residir na Região Serrana. A colônia de suíços franceses em Nova Friburgo, oficialmente criada em 1820, atendia perfeitamente aos anseios do ex-combatente: o clima frio da serra e a identidade com o idioma local. Em 1824, o bonapartista Guillaume Salusse imigra para a vila de Nova Friburgo. Levava consigo suas economias e suas histórias do período que servira como marinheiro da Esquadra Imperial Francesa, relatos esses que não se cansaria de contar na pacata vila até o fim de sua vida. Seu orgulho maior era a medalha de ouro que Napoleão distribuíra aos seus comandantes com os seguintes dizeres: “A ses compagnos de gloires a derniére pensér. Ste Hèlene, mai 1821.”

Ao chegar a vila de Nova Friburgo, Salusse com 36 anos de idade, casa-se com a imigrante suíça Marianne Joseph, de 18 anos, do cantão de Berne. Provavelmente por ter tido dificuldade em encontrar hospedagem quando se mudara para a vila de Nova Friburgo para se convalescer, Guillaume Salusse vislumbra uma atividade econômica que seria um dos principais ramos de negócio em Nova Friburgo nas décadas seguintes: a hotelaria. Em 1839, Guillaume Salusse pediu licença à Câmara Municipal “para poder receber em sua casa particular, doentes que se venham curar”. A hospedaria de Guillaume Salusse tornar-se-ia um dos mais importantes hotéis de Nova Friburgo: o Hotel Salusse. Nele se hospedariam Machado de Assis e Rui Barbosa, esse último um habitué. O Hotel Salusse se localizava exatamente onde hoje é o edifício Spinelli, na Praça Getúlio Vargas. A prosperidade do Hotel Salusse, assim como de outros hotéis na então vila, deve-se ao fato de Nova Friburgo ter sido reconhecida no século XIX como uma localidade de clima salubre, que auxiliava na cura de doenças como a tuberculose e o beribéri, além de servir igualmente como refúgio dos cariocas durante o verão, que fugiam da canícula e das epidemias de febre amarela na Corte. O Hotel Salusse, de arquitetura de um casarão colonial, possuía uma estrutura simples se comparado com o Hotel Engert e o Hotel Central, esse último o mais sofisticado, de estilo neoclássico. No entanto, era o mais badalado no final do século XIX. As soirées do Hotel Salusse eram as mais concorridas, e isso se deve à importância de seus hóspedes, pois recebia importantes políticos, articulistas, enfim a elite carioca. Guillaume Marius Salusse, seu fundador, faleceu em 9 de junho de 1875, com 87 anos de idade. Depois de enfrentar tantas batalhas nas guerras napoleônicas Guillaume Salusse terminou seus dias na pacata vila de Nova Friburgo, e assim como outros estrangeiros, que igualmente imigraram em busca da salubridade de seu clima, ajudou a escrever uma página de sua história.

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”.

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História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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