As diabruras de Arthur

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Colégio Freese – Parte III

Na matéria de hoje, daremos continuidade à biografia do general Arthur Oscar, que estudou em Nova Friburgo, em 1860, em um dos maiores estabelecimentos de ensino do Brasil Império: o Instituto Colegial de Nova Friburgo. Fundado pelo inglês John Henry Freese, em 1º de julho de 1841, Freese escolheu Nova Friburgo, provavelmente em razão de suas qualidades climáticas. Naquela época educação e clima faziam uma verdadeira simbiose. O coronel Galiano das Neves, um importante ator político na história de Nova Friburgo, adquiriu posteriormente este colégio e é sobre o cotidiano deste estabelecimento de ensino que viemos narrando ao longo de duas matérias. Hoje apresento as diabruras do menino Arthur Oscar, protagonista da história, que em sua juventude participará da ação militar da Guerra dos Canudos (1896-1897). O texto é extraído do livro do marechal Carlos Eugênio Guimarães, “Arthur Oscar—Um soldado do Império e da República”, que assim escreveu:

“...Dotado de espírito alegre e folgazão, fazia tudo quanto era possível para se consolar do rigor com que os professores tratavam os alunos vadios, e continuamente levava a planejar brinquedos e troças para serem executados nas horas do recreio, terminadas as aulas. Ninguém era mais destro do que ele no jogo do pião, cuja cabeça substituía por um prego, terminando em ponta afiadíssima; no jogo da bola, em que acertava frequentemente; no jogo da amarela, no jogo da barra, no do cão e veado e no saude-mouton. Não raro, durante os folguedos, surgiam rixas entre os alunos, que os professores acalmavam, prendendo alguns no esteio. Esse castigo consistia em ficarem os alunos encostados na parede do edifício, privado do recreio, e olhando para os companheiros que folgavam livremente. Era castigo de pequena monta para faltas leves. Raro era o dia em que Arthur não ia para o esteio, e sem injustiça. Frequentemente, ele se esgueirava pelo portão do edifício principal, que tinha uns 80 cm de altura e para onde penetrava por uns agulheiros estreitíssimos, a fim de procurar ovos de patas, que ele incumbia o cozinheiro de preparar. Tanto a entrada como a saída do portão, eram efetuadas com muita cautela para se subtrair às vistas do professor que rondava pelo pátio do colégio. Na saída, vinha ele sempre todo empoeirado, e enquanto se sacudia e distribuía os ovos pelos companheiros, incumbidos cá fora de lhe darem aviso sobre a vigilância do professor, era ele pilhado e ia para o esteio.

No pátio do recreio do colégio haviam plantados muitos pés de laranjeiras, e para que os alunos não ‘esperdiçassem’ as laranjas, havia expressa proibição de colher as frutas das árvores. Arthur, porém, não se conformava com a proibição, e em estando as laranjeiras carregadas, ele não resistia à provocação que lhe ofereciam as laranjas maduras, e com um pau arremessado debaixo do pé fazia cair algumas. Se era pilhado pelo professor de dia [do turno de dia] ao recreio, ia para o esteio. Algumas travessuras fez ele, que lhe custaram castigos mais severos. Numa aula de latim do 3° ano do professor Getúlio, ele, pretextando uma necessidade, obteve licença para retirar-se. Estava entendido que era por poucos momentos, e que ficava na obrigação de voltar. A porta da sala dava diretamente para o pátio, cujo nível ficava rente com a soleira da casa. Logo ao sair, Arthur viu a pastar no recreio um burro manso, que casualmente penetrou no colégio. Vendo-se só no recreio e fora das vistas de qualquer autoridade, tangeu brandamente o burro em direção à porta da sala escancarada, onde fê-lo penetrar. Avalie-se o efeito que causou no professor e nos alunos a visita inesperada de um burro na aula de latim! Depois da primeira surpresa, os alunos caíram nas mais estrepitosas gargalhadas, soltando fingidos gritos de terror. O Getúlio, encolerizado, ao mesmo passo que tentava conter os alunos na explosão de alegria, mandava que eles enxotassem o burro, ao que eles, por patuscada, não se prestavam, alegando medo. Finalmente o próprio professor enxotou o animal, e a aula prosseguiu. Decorridos uns 10 minutos regressa Arthur à sala, estampado no ambiente a mais grave seriedade. ‘Foste tu’ exclama o Sr. Getúlio ao vê-lo, ‘foste tu’ ao passo que os colegas o recebiam com as mais francas e animadoras risadas. ‘Já de joelhos’, impunha-lhe o professor. Arthur alegava a mais absoluta inocência do assunto, e protestava. Os colegas riam gostosamente, e foi preciso novo esforço do professor para restabelecer a ordem, tendo Arthur assistido ao resto da aula de joelhos, por castigo, e uns três ou quatro companheiros de pé no banco, por terem-no aplaudido com calor. Essa patuscada custou ainda a Arthur meia dúzia de bolos, afora uns sermões muito fastidiosos do Sr. Freitas, que eles e os colegas comentaram jocosamente.”

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

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Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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