A chegada ao colégio

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Colégio Freese

Parte II

Na matéria de hoje, daremos continuidade à biografia do general Arthur Oscar, que estudou em Nova Friburgo, em 1860. Arthur Oscar foi aluno de um dos maiores estabelecimentos de ensino do Brasil Império: o Instituto Colegial de Nova Friburgo. Fundado em 01 de julho de 1841, pelo inglês John Henry Freese, o Instituto Colegial Freese, como também era conhecido, estabeleceu-se em Nova Friburgo provavelmente em razão de suas qualidades climáticas. O coronel Galiano das Neves, um importante vulto da história de Nova Friburgo, adquiriu posteriormente esse colégio em sociedade com Cristovão Vieira de Freitas. Nessa matéria, trataremos da chegada de Arthur Oscar e seus dois irmãos ao Instituto Colegial Freese. O texto é extraído do livro do marechal Carlos Eugênio Guimarães, “Arthur Oscar—Um soldado do Império e da República”, que assim escreveu:

“...Poucos dias depois, foram visitar o Colégio Freese, que tinha o nome do seu fundador, o velho John Henry Freese, que ainda lecionava no colégio, não mais como diretor, pois já havia passado a administração aos senhores Cristóvão Vieira de Freitas e Galiano Emílio das Neves, este último ainda hoje em dia residente em Friburgo. O colégio já contava essa época com cerca de 30 anos de existência e era dos mais afamados, pelo esmero com que educava e tratava os seus alunos, muitos dos quais, depois de terminada a educação lá encetada, ocupavam eminente posição na política, nas letras, no exército e, enfim, na sociedade. A visita deixou boa impressão em D. Joana [mãe dos meninos], que via todo o estabelecimento, vasto, arejado, dispondo de grande pátio para recreio dos alunos, grandes alojamentos para dormitórios, aulas, salas de estudo e refeitórios. Os meninos, porém, não acharam muita graça naquele edifício, onde iam ser enclausurados durante cerca de 1 ano, longe da família e da casa em que nasceram.

“No dia 2 de janeiro de 1860, fizeram eles a sua matrícula no Colégio, onde se apresentaram um pouco murchos, pensando no regresso de sua mãe, que se anunciava por aqueles dias. Estava terminada a missão que levava D. Joana a Friburgo e era preciso regressar à Corte. A partida foi marcada no dia 10, e não foi sem grande dor recíproca que mãe e filhos se separaram. A despedida foi triste apesar da fortaleza de ânimo de que sabia revestir-se D. Joana, que se esforçava por conter as lágrimas à vista dos filhos. Ela partiu e os meninos foram para o colégio, onde paulatinamente se conformaram com a sua nova situação, identificando-se com o convívio de seus colegas, a maior parte dos quais tinha vindo de lugares longínquos e, como eles, estavam afastados da família. Isso foi-lhes um consolo. A educação dada no colégio era esmerada; os professores eram idôneos e o Sr. Freitas, um dos diretores que mais em contato convivia com os alunos, tinha raro tato para incutir no espírito dos meninos princípios de moral e de religião, tão necessários à educação leiga. Os três irmãos estudaram regularmente. Arthur, porém, revelou-se logo o mais tranquilo e mais vivo e até mesmo o mais refratário aos livros. Todos gozavam saúde, e José, o mais velho, por ser um pouco fraco e adoentado, foi o que mais lucrou com o magnífico clima do lugar. [Nova Friburgo era reconhecida pela salubridade de seu clima]

No mês de novembro, época das férias, regressaram à casa, tendo feito a viagem em companhia de outro diretor do Colégio, o Sr. Galiano, que em pessoa acompanhou os alunos que desciam para a Corte, a fim de prestar exames de preparatórios na Instrução Pública. Foi um dia de alegria esse em que passaram a casa paterna, depois de quase um ano de ausência. O avô, o Comendador Andrada, fora esperá-los na estação da Prainha, onde atracava a barca procedente de Vila Nova, e os trouxe para Botafogo. Os abraços e bênçãos choveram, querendo os meninos, simultaneamente, narrar as suas aventuras, que o Arthur exagerava, revelando já a tendência para a fantasia que ele mais tarde cultivou em larga escala. A vista do bom resultado colhido pelos meninos quanto à saúde, D. Joana resolveu que eles continuassem a se educar no mesmo colégio, e no princípio do ano seguinte, 1861, ela tornou a acompanhá-los pela segunda vez até Friburgo.

“Foi essa a última viagem que ela empreendeu com os meninos, que nos anos posteriores foram em companhia dos seus colegas, conduzidos pelo segundo diretor, o Sr. Galiano. Arthur frequentou o colégio até 1863, o que quer dizer que, tendo entrado para ele aos 9 anos, saiu depois de completar 13. Durante esses 4 anos, estudou algumas matérias do curso secundário, que no colégio eram lecionadas com todo o desenvolvimento necessário, para os alunos serem submetidos, no fim do ano, a exames finais na Instrução Pública da Corte. Tais eram português, francês, inglês, latim, geografia e aritmética. Não estudou, porém, álgebra, retórica, filosofia e história, por serem matérias do 4° e 5º anos, que ele não chegou a cursar. É forçoso, entretanto, confessar que ele não tinha grande inclinação para os livros. O seu espírito era mais afeito aos folguedos do que ao estudo; mas o rigor da disciplina colegial obrigava-o ao cumprimento do dever. Frequentemente ia, por castigo, copiar durante as horas do recreio as lições que não soubera lisamente. Apesar de ter bastante inclinação para o estudo das línguas embirrava com o latim, detestando solenemente a gramática do Padre Vieira. Também era muito antipática a aritmética.”

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

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Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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