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A lenda do Mão de Luva
Cantagalo: berço do Centro-Norte Fluminense—parte II
De acordo com Sandra Pesavento, todo ato fundador tende à sacralização, nascendo assim os “mitos de origem”, articulando uma representação glamourizada dos acontecimentos que dão início a um processo. Na representação imaginária, nasce o “mito”, que, com a sua força criadora, dá sentido, organiza, hierarquiza, seleciona e atribui valores de positividade para construir uma resposta à questão universal que todos indagam: de onde viemos. Foi o que ocorreu com Cantagalo em relação ao mito ou lenda do Mão de Luva. A saga do Mão de Luva está diretamente relacionada com a formação do município de Cantagalo. Tudo se inicia no último quartel do século XVIII, no governo do vice-rei Luiz de Vasconcelos e Souza, quando um bando de garimpeiros aventureiros se desloca da província de Minas Gerais para os Sertões do Macacu, região que compreende todo o Centro-Norte Fluminense. Os garimpeiros eram chefiados pelo português Manuel Henriques, conhecido pela alcunha de Mão de Luva, que lavravam ouro clandestinamente, sem pagar o quinto (imposto), nos córregos afluentes dos rios Macuco, Negro e Grande.
Uma versão atribuiu a Mão de Luva uma descendência aristocrática lusa. Nos fins do reinado de D. José I, Rei de Portugal, Manuel Henriques, duque de Santo Tirso, possuidor de vastos domínios e grande riqueza, cavalheiro erudito e de denodada simpatia, apaixonara-se pela filha do monarca, Maria de Bragança, que mais tarde seria elevada ao trono com o título de D. Maria I. Conheceram-se numa recepção realizada na corte e ambos apaixonaram-se trocando juras eternas de amor. Certa feita, o duque recebeu em seu castelo, no Porto, uma carta convidando-o a participar de uma conspiração contra o poderoso Marquês de Pombal e forçar a abdicação de D. José I, em favor de sua filha. A ardilosa princesa prometia sua mão ao enamorado duque caso a conspiração triunfasse. O duque imediatamente aderiu à causa e partiu para Lisboa levando homens e recursos financeiros. No entanto, o Marquês de Pombal abortou a conspiração e promoveu uma devassa contra todos os conspiradores. O duque de Santo Tirso foi condenado ao degredo perpétuo no Brasil, sendo-lhe confiscados todos os bens, cassados os títulos de nobreza e considerado infame até a terceira geração.
Na véspera do seu embarque para o degredo ao Brasil, a princesa Maria de Bragança, cobrindo o rosto em negro véu, visitou-o no calabouço exclamando: “...ides para o país da minas de ouro, das pedras preciosas. É possível que dentro em breve, possais reunir fortuna capaz de comprar a vossa liberdade e então, regressareis à Pátria para tentarmos nova revolução. (...) Antes desse dia, entretanto, vossa mão direita, que ora tenho apertada entre as minhas, não deverá tocar em as de outra pessoa. Usareis na destra, uma luva preta, esta aqui que vos entrego. Só deixareis de calçar [a luva], no dia em que a despires para colocá-la na mão da Rainha de Portugal, vossa esposa”. O duque de Santo Tirso partiu então para o desterro. Quando por morte de D. José I subiu ao trono de Portugal em 1777, sua filha Maria de Bragança com o título de Maria I, a soberana remeteu ordens ao vice-rei do Brasil para que localizasse o seu amado duque.
Mas os fidalgos da Corte instruíram ao vice-rei que ignorasse tais ordens de trazer o proscrito novamente para Portugal. O duque se tornou no Brasil um garimpeiro contrabandista e perseguido pela Coroa por fraudar o fisco. Partindo de Minas Gerais, onde a exploração de ouro e diamantes campeava, embrenhou-se nos Sertões do Macacu, explorando de forma pioneira o ouro nos rios da região sem pagar o quinto, o imposto devido à Coroa Portuguesa. O vice-rei Luiz de Vasconcelos e Souza mandou uma expedição aos Sertões do Macacu, até então somente habitada por índios, para prender o bando de Mão de Luva.
As tropas tinham dificuldade em localizar o sítio onde os bandoleiros exploravam o ouro. A patrulha estava prestes a ir embora quando o canto de um galo denunciou a presença de pessoas nas imediações, e pelo seu canto se orientaram chegando ao arraial. Os soldados prenderam Mão de Luva e todo o seu bando como águias em um ninho de pombas. Daí o arraial ter levado a denominação de Cantagalo, devido ao canto de um galo que entregou um dos homens mais procurados pela Coroa Portuguesa na região. Julgados no Rio de Janeiro no juízo da Intendência Geral do Ouro foram deportados para a África em 1787. Mão de Luva estava nessa ocasião com 53 anos de idade. D. Maria I é a mãe de D. João VI, e faleceu completamente insana no Rio de Janeiro em 1816, com a idade de 82 anos.
Segundo o historiador Clélio Erthal, parte dessa versão é pura lenda. Admite que existiu o contrabandista Manoel Henriques, mas não era nobre, pois não consta da nobiliarquia lusa qualquer duque com esse nome. Não há igualmente registro de que estivesse envolvido na “devassa” (processo) no atentado contra a vida de D. José I. Outra prova de que não existiu um romance de Mão de Luva com D. Maria I foi de que quando a rainha indultou alguns contrabandistas presos juntamente com ele, Mão de Luva não recebeu tal benefício. Ainda segundo ele, Mão de Luva era mulato. É significativo que se tenha atribuído ao herói Mão de Luva uma nobreza, ocultando, por conseguinte, a sua mulatice.
Provavelmente essa deturpação partiu de uma elite branca que não quis atribuir ao desbravador de Cantagalo a etnia negra, já que se tornara uma figura heroica na região. Ludwig Wilhelm Von Eschwege, mineralogista alemão, descreveu Mão de Luva como um mulato ativo e atrevido, que já entrou em muitas desordens e numa delas perdeu uma das mãos que substituiu por uma de couro. Mão de Luva era um líder que comandou a invasão dos Sertões do Macacu, um condottieri, que sabia aliar à força bruta, finos golpes de inteligência. Insinuante, não lhe faltava habilidade para envolver e subornar autoridades e nem energia para se impor aos comandados, para quem sua palavra era lei. Na próxima semana: “Uma Vila Rica nos Sertões do Macacu”.

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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