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No tempo das hortas nos quintais - 9 de fevereiro 2012
Um inquérito sobre Nova Friburgo —última parte
Arthur Guimarães visitou Nova Friburgo no início do século XX e escreveu um interessante livro, intitulado “Um Inquérito Social em Nova Friburgo”. Descreveu o comércio, a lavoura, as indústrias e o cotidiano da cidade. Quando esteve em Nova Friburgo, cinco anos antes haviam se instalado as primeiras indústrias de capital alemão, que se colocariam, no futuro, entre as maiores empresas do país. Conforme vimos nas matérias anteriores, Guimarães relata a existência de cortiços, destacando que seus moradores eram, na maior parte, uma população desocupada. Em suas observações, percebe-se um abandono crescente do campo e disso talvez decorra a enorme quantidade de mendigos perambulando pela cidade, conforme ele descreve. Na Vilage de Cantagalo, famílias se amontoavam nas toscas residências, morando até vinte pessoas sob o mesmo teto. Diante desse quadro, denotando uma crise social, com muitos mendigos pelas ruas, a proliferação de cortiços e superlotação em toscas residências, fica a indagação: Teriam esses indivíduos se deslocado para Nova Friburgo no intuito de se empregarem nas nascentes indústrias? Possivelmente sim, mas parece que a maior parte não conseguiu colocação, pois os industriais alemães, segundo Guimarães, davam preferência aos “teutos” preterindo os nacionais. Talvez, por isso, ele tenha se referido a essa camada da população de “elementos improdutivos”, vivendo na ociosidade, vencidos pelo parasitismo, entregues à promiscuidade. Em cada vinte, um só trabalhava, e o restante vivia nas noitadas, de violão em punho, ou nos cateretês e sambas ou nas conversas das vendinhas. Residiam nos bas-fonds, zona de licenciosidade de uma cidade, vivendo em cortiços, sem cubagem, ar e luz. Predominavam brasileiros em tais formigueiros humanos, destacou.
Guimarães percorreu Nova Friburgo em 1916. Observou, arguiu, anotou, fez um inquérito sobre o município. Registrou em suas garatujas particularidades sobre a residência do Barão de Nova Friburgo, imóvel esse que existe até hoje, localizado na Praça Getúlio Vargas. A propriedade se estendia, pelos fundos, até a avenida, sendo que na metade do terreno se estendia um vistoso milharal. Na residência do afamado barão, Guimarães viu a ciperácea, árvore do papiro utilizada pelos egípcios na Antiguidade, para a elaboração de manuscritos. De tronco reforçado, sua casca é fina e seca, em camadas, cetinosa e cor de palha. Do tronco se arrancam os folículos para os manuscritos. Ficou encantado com tal preciosidade. No perímetro urbano, observou que havia plantações isoladas, como na avenida, outrora denominada de “avenida Friburgo”, com roças de milho, feijão, etc.
Muitas residências possuíam hortas em seus quintais onde plantavam couve, vagem, alface, mostarda, acelga, salsa, cebola verde, ervilha, berinjela, jiló, maxixe, quiabo, tomate, cenoura, nabo e repolho. Em razão dessa autossuficiência de boa parte dos lares friburguenses, Guimarães escreveu como desolador não haver nos quitandeiros sortimento de verduras e legumes. Já vimos em matéria anterior, que as classes populares em Nova Friburgo se alimentavam de feijão, canjiquinha, angu, couve, batata, aipim, inhame, carne seca e café com pão. Os cultivos de batata inglesa e repolho, além de feijão e milho, também poderiam ser avistados na área urbana. Observou que, na lavoura, houvera experiências no cultivo do trigo, onde o clima era favorável, devido ao inverno seco e sem chuvas de Nova Friburgo, estação própria para a semeadura e maturidade da gramínea. Na zona rural, predominavam os cafeeiros, a exemplo de Amparo. Já em Lumiar, prevalecia a cultura da batata inglesa. Não obstante a existência da estrada de ferro, o sistema de tropas ainda aparecia em determinadas rotas. Mas o problema dos agricultores, que remonta a tempos antigos, era a questão da infraestrutura das estradas.
Um lavrador, “alma ingênua e sã de matuto”, instalado nas cabeceiras de Lumiar, vendeu sua tropa, trocou o café pela plantação de batata e pela lavoura branca e passou a vender os seus produtos em sua propriedade. O matuto assim declarou: “Saiba Vancê que do meu sítio à estação [de trem] há um espaço grande, que a tropa só vencia em três dias, fazendo gastos pelo caminho, caindo em atoleiros, por essas estadas maltratadas, tresmalhando bestas, arreliando o pessoal, além das pousadas e alimentos caros”. Guimarães consignou a desorganização do trabalho e a indiferença da municipalidade ante a essas questões de infraestrutura.
Foi através do inquérito de um cronista sobre Nova Friburgo, no início do século XX, considerando a idiossincrasia desse observador, que conseguimos apreender a vida material de sua população, quiçá sua economia, os principais atores na construção da urbs que se formava, seus problemas sociais e o seu cotidiano. Com isso, sinalizamos alguns elementos da estrutura social e econômica de Nova Friburgo. Muitos historiadores questionam se o cotidiano é História. José de Souza Martins coloca que, de modo algum, o cotidiano pode ser confundido com as rotinas e banalidades de todos os dias, como fazem muitos pesquisadores, que se demoram nos detalhes e formalidades insignificantes da vida, imaginando com isso resgatar o sentido profundo da subjetividade do homem comum. No entanto, Martins reconhece que o cotidiano deixou de ser algo meramente residual, para se tornar a mediação que edifica grandes construções históricas. Mas não confundir o cotidiano com as rotinas e banalidades diárias, como quer Souza Martins, é tarefa difícil, uma linha tênue, pois muitas vezes o cotidiano e as banalidades do dia a dia são situações extremamente cambiantes. Afinal, alguém já disse, tudo é História.

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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