Notícias da colônia alemã em Nova Friburgo - A Imigração Alemã - 26 de maio 2011

domingo, 31 de julho de 2011

Última parte

As fases dos ritos de passagem, a separação, a liminaridade e a reintegração estarão presentes na trajetória dos imigrantes. O imigrante, a persona liminar, é um ser sem direitos que deve se submeter aos processos que irão transformá-lo em um novo ser, preparando-o ou modelando-o para enfrentar as situações de seu novo status, agindo conforme as prescrições do papel social que desempenhará. Muitos imigrantes transpuseram esses ritos de passagem. Sobrenomes como Gripp, Klein, Louback, Breder, Berbert, Schuenck, Emmerich, Condack, Schuab e Storck são remanescentes da primeira geração de colonos alemães que não seguiram a diáspora e permaneceram em Nova Friburgo. Os descendentes de suíços têm deixado uma vasta produção historiográfica com narrativas sobre a trajetória de seus ancestrais. Algumas, ainda que com pendor literário no estilo romance histórico, tendo por pano de fundo a saga dos colonos, não deixam de ilustrar a contento a vida desses imigrantes. Porém, não se tem notícia de que os descendentes dos primeiros colonos alemães tenham feito o mesmo, vindo a lume o que lhes resta de memória de seus antepassados.

As terras abandonadas pelos colonos suíços, e certamente de má qualidade, foram distribuídas entre os colonos alemães. Foram expedidas ordens para proceder à medição e divisão de novas terras caso não fossem suficientes as que se achavam abandonadas pelos colonos suíços. O prolífero pastor luterano Sauerbronn (1784-1864) foi fundamental para auxiliar espiritualmente os alemães e minimizar-lhes as dificuldades e agruras dos primeiros anos na vila de Nova Friburgo. Possuía a qualidade de um líder, sabendo impor-se diante dos seus e das autoridades brasileiras. Metade dos colonos alemães que imigraram para Nova Friburgo, seguiu o mesmo caminho anteriormente trilhado pelos suíços. Dirigiram-se para Macaé de Cima, Cantagalo, Barra Alegre, Rio Bonito e outras localidades em busca de terras mais férteis. Alguns migraram para a colônia de São Leopoldo, no sul do país, de onde vinham notícias de que as terras eram melhores. Como somente poderiam fazê-lo com autorização do Imperador, há diversos pedidos de transferência no Centro de Documentação de Nova Friburgo. Dois alemães, Leithold e Rango, que estiveram no Brasil por ocasião da instalação da colônia dos suíços, em Nova Friburgo, escreveram: “Só poderá ser um desastre!” Por outro lado, o alemão Hanfft, assessor de Schäffer, visitou a vila Nova Friburgo, em 1826, e fez o seguinte relatório sobre os colonos alemães: “...Ali passei muitos dias. O terreno desta colônia é péssimo, e por esse lado ela é particularmente censurada. Contudo achei aquela boa e laboriosa gente mui satisfeita, morando em casas cômodas, possuindo bom gado, a alguns até senhores de escravos, em maneira que ninguém mostrava desejos de deixar a sua nova pátria, tanto mais que o governo tinha publicado a tempos que qualquer que achasse o seu terreno [terras] pouco ou mau, escolhesse outro melhor ou maior. Muitas famílias possuem tantas terras e tão férteis, que os seus filhos e netos jamais chegarão a cultivá-las....”

As datas de terras sáfaras e pouco produtivas, distribuídas aos colonos, provocou a diáspora de suíços e alemães para outras regiões, como vimos. Mas muitos colonos que permaneceram se transformaram em cidadãos prósperos, conforme relato de Hanfft. Uma pesquisa realizada sobre as licenças e passes expedidos aos alemães para se ausentarem temporariamente da colônia, denotam que muitos tinham negócios na Corte e cidades vizinhas. Alguns ex-mercenários migraram para Nova Friburgo. Friedrich Gustav Leuenroth(1800-1880), mercenário que serviu no Batalhão de Estrangeiros, depois da dar baixa no Exército, migrou para Nova Friburgo inaugurando a primeira casa de banhos na vila. Posteriormente construiu um hotel, o Hotel Leuenroth, onde se hospedava D. Pedro II quando vinha a Friburgo. Anos mais tarde, Carl Friederich Engert se casaria com a filha de Leuenroth e abriria mais um hotel, o Hotel Engert, um dos mais frequentados pela elite carioca ao final do século 19. Outros mercenários também vieram para Nova Friburgo: Paul Leuenroth(hoteleiro); Johannes Brust (tanoeiro e cervejeiro); Gottlob Friedrich Orberländer (marceneiro); Adalbert Pockorny; Johann Kehr (ferreiro e agricultor); Heinrich Albert Köhrenkamp (marceneiro e agricultor); Franz Anton Reiff, do Batalhão de Caçadores; Johann Daniel Schwab (sapateiro e agricultor) do Batalhão de Granadeiros; Jacob Winter, do Batalhão de Fuzileiros; Johann Jacob Wolf (alfaiate e agricultor), sargento do Batalhão de Granadeiros, entre outros. Nomes como Braune e Beauclair, alemães que imigraram depois da primeira leva de colonos, foram famílias importantes em Nova Friburgo. Albano Beauclair instalou, em 1893, uma importante cervejaria, fabricando a famosa cerveja Friburgo Brau, além de um biergarten, na entrada da cidade.

Voltando à primeira matéria dessa série em que descrevemos a prisão de cinco mercenários alemães desertores, e sua fuga em Nova Friburgo, acredito que demos conta nesses dez capítulos em explicar o que faziam esses soldados alemães na vila, nos idos de 1825. D. Pedro I, o Imperador-soldado, provavelmente amava o Regimento de Estrangeiros que criou. Sua simplicidade o tornara querido do povo e seu garbo militar, das tropas. No seu leito de morte, pediu que em seu enterro não houvesse exéquias reais. Queria ser enterrado em caixão de madeira simples, como um soldado. Os mercenários alemães que chegaram ao Brasil lutaram na Guerra Cisplatina, colaboraram com a consolidação de nossa independência e ajudaram a evitar a separação de nossas províncias. Logo, na história da imigração no Brasil, devemos descartar o velho provérbio romano que prevalecia na mentalidade dos brasileiros, no século 19: “hospes hostes”, ou seja, estrangeiros são inimigos.

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Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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