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Nova Friburgo, Petrópolis ou Teresópolis? Para onde os cariocas irão no verão? - 10 de fevereiro 2011
Diante da catástrofe natural ocorrida entre os dias 11 e 12 de janeiro de 2011, Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis se irmanaram na dor das perdas humanas e materiais. As três cidades serranas habituadas a ter seus nomes estampados na imprensa como aprazíveis locais de veraneio, se viram numa macabra estatística no qual Nova Friburgo encabeçou a lista fúnebre com o maior número de mortos e de perdas materiais. Autoridades governamentais desses municípios se solidarizaram e igualmente a população dessas regiões. Mas houve momentos de nossa história em que, pelo menos por parte dos friburguenses, a rivalidade de Nova Friburgo em relação às co-irmãs da região serrana era levada a extremos. A imprensa local, a exemplo do jornal O Friburguense, que era distribuído no Rio de Janeiro e em Niterói, ao mesmo tempo que tecias loas ao clima de Friburgo, menosprezava Petrópolis e Teresópolis.
A partir de 1847, a Corte passou a mudar com regularidade para então vila Petrópolis. A morte na tenra idade dos dois herdeiros do Imperador Pedro II, Afonso(1845-47) e Pedro(1848-50) consagrava o Rio de Janeiro como uma cidade com uma atmosfera pestilenta, onde grassavam epidemias de febre amarela, provocando a fuga dos cariocas abastados no verão. O ambiente das montanhas passou a ser uma solução imediata para a elite livrar-se da mortandade que se abatia sobre o Rio de Janeiro com a chegada do verão. Quando o mais racional seria resolver o problema do saneamento da cidade, preferiam mudar-se para as montanhas, o que acabou incrementando a economia das cidades serranas, fomentado o turismo. Logo, na estação calmosa, o verão, a elite carioca trocava os “salões” pelas pitorescas e bucólicas cidades próximas a Corte. Nova Friburgo era uma delas. No entanto, Petrópolis sempre fora a favorita da família real e isso incomodava profundamente os friburguenses. Com a proclamação da República a disputa ficou acirrada. Nova Friburgo concorreu e perdeu para Petrópolis a regalia de ser capital do Estado por um determinado período, mas transformou a ameaça em oportunidade: “...A cidade do Rio de Janeiro está quentíssima, mais quente que o fogo em brasas, faz ali um calor insuportável, quanto mais nos próximos meses de novembro a março. E isto o que todos sabem, não carece demonstrar. Sendo assim, é provável que grande número de pessoas ali residentes se retire para fora, procurando passar alguns meses no gozo do ar livre, fugindo das epidemias que a infestam todos os anos, principalmente nos referidos meses. Está reconhecido pelas observações feitas que a cidade de Teresópolis, embora seja um lugar fresco, não pode ser procurada, por que é diariamente açoitada pelos ventos; é lugar pequeno e insípido – não passa de um estreito beco; as viagens da capital federal para essa cidade são assaz incômodas e dispendiosas e em chovendo tornam-se dificultosas. Para Petrópolis há facilidade e barateza de transporte, mas é lugar de clima muito úmido, o que é nocivo a saúde, mormente para as pessoas já afetadas de alguma moléstia ou que precisam convalescer-se; devendo notar-se mais que Petrópolis, é uma cidade de luxo, aristocrata, própria para diplomatas. Com a mudança da capital do Estado do Rio para ali, encheu-se a cidade de Petrópolis de grande massa de elementos perniciosos, perigosos a moralidade e a tranquilidade públicas, privando as famílias de certos gozos que outr’ora tinham. (…) Todos quantos pretenderem afastar-se por algum tempo do calor que tanto incomoda e que é origem de tantos males, que precisarem de descanso e quiserem gozar do puríssimo ar das montanhas, não encontrarão outro lugar mais apropriado que Friburgo...”(O Friburguense, de 1-10-1894.)
E, referindo-se à Nova Friburgo, se escreveu: “O clima é excelente, superior ao de todos os outros povoados do Estado do Rio de Janeiro, inclusive o da cidade de Petrópolis, que já foi imperial e atualmente goza dos foros de capital. A água é pura, fresca, cristalina, abundante não só em quantidade, como no número de milagres que tem operado; a água que desce das montanhas e das cascatas de Friburgo, não tem igual, é incomparável. O clima e a água desta abençoada terra, dão alento aos vivos e ressuscitam os mortos; pode-se afoitamente dizer (…). Friburgo podia ser hoje a primeira cidade do Estado do Rio de Janeiro em tudo, como é e sempre foi a primeira no clima saudável e na água de milagres prodigiosos...”(O Friburguense, de 29-12-1895.)/ E continuam as invectivas contra as concorrentes: “O que ninguém poderá negar é que Friburgo é uma cidade cheia, riquíssima de elementos naturais, encantadora, amena, aprazível, que tem merecido olhares benéficos do céu, que tem causado inveja a úmida Petrópolis, que tem como rival apaixonada Teresópolis, e como tenho dito muitas vezes, como sempre hei de dizer, como jamais cansarei de repetir: a bonina do Estado do Rio de Janeiro...”(O Friburguense, de 4-6-1893.)
Por fim, escreveu um jornalista: “O tempo vai correndo favorável aos passeiantes. Dias esplêndidos! O sol doira nas altas montanhas que nos cercam. As manhãs agradam com sua frescura. As noites encantam com o seu céu bordado de fulgurantes estrelas. Que natureza invejável. Que encantadora terra, a formosa Friburgo, a Suíça brasileira, mimosa bonina das cidades do Estado do Rio de Janeiro. Cala-te úmida Petrópolis, humilha-te estreita e ventosa Teresópolis! A verdade é uma só. Friburgo, não tem rival!” (O Friburguense, de 3-4-1892.) Poderíamos descrever uma miríade de textos como esses publicados na imprensa da época. Nossos ancestrais pegavam pesado na disputa pelos touristes, não?

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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