O Sanatório Naval em Nova Friburgo - Parte II - Rui Barbosa evita a extinção de Friburgo

sábado, 31 de julho de 2010

Como disse na semana passada, a Marinha desejava estabelecer em Friburgo uma enfermaria para cura de seus oficiais e praças acometidos por beribéri. Para tanto, iniciou negociações para aquisição do Instituto Hidroterápico que havia em Friburgo. No entanto, Rui Barbosa, veranista habitué em Friburgo, fez uma brilhante defesa contra a instalação de um hospital do coração da cidade salubre. No jornal Diário de Notícias, de setembro de 1889, escrevia Rui Barbosa dirigindo-se diretamente ao Ministro Ouro Preto, homem forte do governo imperial, protestando contra a aquisição do Instituto Hidroterápico pela Marinha, pois contrariava a população permanente e flutuante de Friburgo, “ameaçando-a na sua salubridade”. Em 1891, a viúva de Carlos Éboli, médico fundador do Instituto Hidroterápico, terminou por vender as ações da sociedade para os médicos Ernesto Brazílio, Galdino do Valle, entre outros acionistas. Em dezembro de 1891, foi reinaugurado o Instituto Hidroterápico em grande estilo na cidade. Porém, em 1895, dez anos depois do falecimento de Éboli, o instituto entrou em processo de falência e todo o complexo incluindo o hotel e a Casa de Duchas foi arrematado pelo Banco Comercial.

Como dito acima, foi devido a brilhante argumentação retórica de Rui Barbosa que foi extinta em Friburgo a enfermaria de beribéricos em 1890, tendo os doentes sido transferidos de volta para a de Copacabana, no Rio de Janeiro. No entanto, quase dez anos depois, o pesadelo volta a assombrar Friburgo. A Marinha inicia negociações com Carlos Engert, proprietário do Hotel Leuenroth, para ali instalar seu hospital. Entra em cena novamente a pena de Rui Barbosa em outra eloquentíssima e erudita defesa da salubridade do clima de Friburgo, que poderia ser afetado com a vinda de um “centro de peste” no coração da galante vila. O beribéri era considerado à época uma doença infecto-contagiosa e, portanto, transmissível. Hoje sabemos que não é contagiosa. Este projeto é a “extinção de Friburgo”, argumentava Rui Barbosa, e mais uma vez o brilhante advogado impede a vinda do Sanatório Naval para Friburgo.

Já havia na cidade um lazareto, um prédio construído para abrigar doentes na hipótese de uma epidemia. Este prédio existe até hoje em Friburgo, em Duas Pedras, esquecido em meio a um conjunto habitacional de classe popular denominado Lazareto. O lazareto encontra-se localizado no alto de um morro, bem distante do núcleo urbano. A Marinha provavelmente percebendo que o que incomodava a população era a localização da enfermaria de beribéricos e não, o estabelecimento em si, optou por um local distante do centro da cidade, a exemplo do lazareto. Fiquemos atentos que o Sanatório Naval hoje nos parece perto, mas naquela época o sentido de distância era outro. Para tanto, a Marinha vislumbrou o barracão do Conde de Nova Friburgo que consistia em um pitoresco chalé, que servia de pavilhão de caça da família do conde. A Marinha ampliara seus projetos. De acordo com o regulamento do Serviço Hospitalar, não se instalaria apenas uma enfermaria, mas sim um sanatório que serviria para o tratamento não somente do beribéri, mas igualmente de tuberculosos e de portadores de moléstias infecciosas. Continua na próxima semana.

Janaína Botelho é autora do livro

O Cotidiano de Nova Friburgo no Final do Século XIX.

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Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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