Quem resiste a uma massa quentinha, bem feita, com um maravilhoso molho por cima? Se no verão já é difícil não cair na tentação de degustar um belo macarrão, no inverno a tarefa se torna praticamente impossível. Acompanhada por um bom vinho então...
É certo que o macarrão não foi criação dos italianos, mas não há dúvidas que foram eles quem divulgaram esta deliciosa iguaria pelo mundo. Em Nova Friburgo, os italianos que aqui chegaram em busca de trabalho no meado do século XIX trouxeram consigo as tradições de seu país, incluindo, é claro, os costumes culinários. Foi um italiano, inclusive, quem abriu a primeira fábrica de massa aqui: Antonio Lo Bianco, que chegou ao Brasil com 14 anos e hoje, aos 98, conta – na página seguinte – um pouco de sua história e do empreendimento que marcou a cidade, a Fábrica de Massas São Francisco.
Fábrica de Massas São Francisco
Uma empresa pioneira, orgulho de Nova Friburgo
A história do macarrão tem várias versões. Baseados em achados arqueológicos, alguns cientistas afirmam que a sua invenção foi obra dos chineses há cerca de quatro mil anos. Há ainda quem acredite que o macarrão surgiu na Palestina ou na Grécia. Registros indicam que o poeta romano Horácio, que viveu entre 65 a 27 a.C., já conhecia a lasanha, uma vez que escreveu sobre um alimento chamado "laganum”, que, provavelmente, foi o antigo nome dessa iguaria. E os etruscos chegaram a levar para as suas tumbas ferramentas usadas para a manufatura de massas. O certo é que foram os italianos quem popularizaram a pasta. E foram eles também que, ao virem para Nova Friburgo no século XIX, trouxeram o hábito de comer um bom macarrão.
É claro que não poderia ser uma pessoa de outra nacionalidade a abrir a primeira fábrica de massas de Nova Friburgo. A história começa quando o italiano Antonio Lo Bianco – da cidade de Paula, no sul da Itália – chegou ao Brasil aos 14 anos. Depois de um período no Rio de Janeiro ele veio para a serra, morar com um irmão, mesmo ouvindo de muito o conselho para não se mudar para cá por ser um "lugar de tuberculosos”, fama adquirida pela cidade por ter um clima considerado ideal para a cura dessa doença.
Sem medo de trabalho, "Seu” Antonio trabalhou distribuindo jornais e depois abriu o Bar Universal, na Avenida Alberto Braune. "Nós mandávamos vir da Itália vários produtos, como queijos, bacalhau, salaminhos. Nessa época Friburgo era chamada de ‘A Cidade dos Cravos’. Como ficávamos perto da estação de trem – onde é atualmente a prefeitura – as pessoas que iam embora sempre compravam um cravo e também um produto nosso”, conta ele. "Meu irmão, no final da década de 40, foi o primeiro a trazer uma máquina de café expresso para a cidade.”
Foi na época do Bar União que a fábrica de massas começou a surgir. Inicialmente, não passava de uma confraternização com os amigos. "Nós, italianos, fazíamos o nosso próprio macarrão e convidávamos os brasileiros para comer conosco. Todos gostavam e queriam comprar. Só que, quanto mais fazíamos, mais vendíamos. E dava uma mão de obra terrível para fazer, não tínhamos estrutura para comercializar numa escala maior. Um dia aconteceu uma coisa engraçada: eu e meu irmão fizemos a massa e penduramos as tiras perto do calor, para secar. No dia seguinte, quando abrimos o local, o macarrão estava seco e, claro, havia caído todo no chão”, conta Seu Antonio.
A solução veio com o primo dele, que já tinha experiência no ramo. A estrutura maior fez com que eles procurassem um novo local. Surgiu, então, uma oportunidade de se instalarem na Rua Baronesa, atual José Tessarolo dos Santos. Foi criada então a Fábrica de Massas São Francisco, lembrada ainda hoje por muita gente. A empresa foi um sucesso e resultou em mais um empreendimento: a fábrica de biscoitos amanteigados Curumim.
Após 30 anos aproximadamente de existência, a fábrica São Francisco foi vendida para Paulo Azevedo (ex-prefeito da cidade) e, posteriormente, fechada definitivamente. Seu Antonio e a família seguiram por outro caminho: abriram uma loja de móveis, a Galeria Universal.
O aprendiz de alfaiate na Itália – "eu fazia até calças”, afirma ele – Seu Antonio, com lucidez e elegância habituais, ressalta a importância de todas as colônias para Nova Friburgo: "Todas elas são muito importantes para o progresso do município. Os colonos vierem aqui para trabalhar, e muito. Eu só conheci trabalho na minha vida”.
Um trabalho que, sem dúvida, resultou em muito orgulho para toda a cidade.

Seu Antonio revela que um dos grandes segredos de uma boa massa é o molho. "É preciso saber prepará-lo, o que nem sempre acontece. Não é muito fácil”, garante ele. "Na Itália, em cada região existe um molho diferente. Existem também muitos tipos de massa. O meu predileto é o talharim chamado de Italianinho. Mas sou um italiano que as vezes fico até quinze dias sem comer macarrão”, diz, bem humorado.
Curiosidades sobre as massas
O capeletti recebeu esse nome devido a seu formato, de um chapéu medieval. Na Idade Média, as famílias mais abastadas podiam escolher entre uma grande variedade de massas recheadas para suas refeições.
O "ancestral” do espaguete surgiu na Itália no século XIII, trazido pelos árabes – povo considerado por muitos historiadores como sendo os criadores do macarrão – e tinha a forma de compridos tubos ocos, formados por uma massa leve, que secavam enrolados em fios de palha.
Acredita-se que o nhoque tenha sido consumido desde a Antiguidade, sendo o primeiro tipo de massa da Itália. No início era feito apenas com farinha e água. Nas regiões pobres podia ser produzido também com sobras de alimentos ou de pão. No século XIX é que a batata apareceu como ingrediente do nhoque.
Estudos revelam que o macarrão já fazia parte do cardápio italiano bem antes de o navegador Marco Polo nascer. Filho e sobrinho de poderosos comerciantes de Veneza, o rapaz, então com 17 anos, teria acompanhado os familiares a uma viagem à China e depois escrito um livro onde, em um capítulo, descreve as "maravilhas” de uma planta, o sagu, com que se fazia "comidas de massas muito gostosas”. Surgiu, então, a lenda de que o mercador veneziano teria sido o introdutor do macarrão na Itália.
As famílias de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil no século XIX foram as responsáveis por introduzir o macarrão no país.
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