Espaço de Leitura - Queridos parentes, as árvores voam

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
por Jornal A Voz da Serra

Francisco Gregório Filho

Agradeço a oportunidade, amigos leitores, de conversar com vocês sobre alguns queridos parentes.
Minhas parentes queridas, impregnadas em meus olhos, em meu olhar, em meu jeito de amar: são elas as árvores da Praça Getúlio Vargas, no Centro de Nova Friburgo. Testemunharam meu crescimento, minhas conquistas e meus retumbantes fracassos. Sim, esses eucaliptos que foram, por longo tempo, abandonados por seus cuidadores e pelas autoridades, nunca se sentiram solitários, porque algo ali, naquela praça, transmite esse sentimento de companhia.
Quantos de nós moradores da redondeza não fomos buscar conforto naquela atmosfera acolhedora, proporcionada pelos eucaliptos perfilados a nos soprar sempre uma energia vigorosa de beleza e esperança. Claro, algumas dessas árvores foram por uns tantos maltratadas, mas em momento algum deixaram de nos aconselhar e até mesmo compartilhar de nossas dores e dissabores, respondendo com um ventinho ou nos presenteando com uma folha solta a bailar como uma poesia num lance puramente estético.
Agora parece que o poder público lembrou-se de realizar uma bateria de exames e tratá-las conforme os diagnósticos, com podas ou ainda com um gesto de finitude. Então, amigos leitores desta coluna, peço consentimento para expressar meu profundo agradecimento e mais contundentemente, minha gratidão a essas parentes que estão de passagem—em travessia—para outras etapas de suas trajetórias.
 Muitas vezes desci a rua para ali na praça buscar nova maneira de respirar, no conforto da companhia dessas belas senhoras folhadas que entoavam graciosas melodias. Sou grato pela imensa paciência com que me escutaram e por emitirem sempre mensagens de força e coragem que me chegavam em momentos tão oportunos e certamente me ajudaram a superar quimeras e angustias.
Às que se vão um até breve e as que continuam toda a minha consideração, respeito e amizade. 
Quantas caminhadas fiz ali com Dona Élia e o Seu Antônio, com Lucia e Joana a me renovar e a recarregar meu coração de boas energias; a olhar o mundo com outros olhos, a me chamar para não desistir e enfrentar todos os desafios contagiado pela crença de que valem a pena as lutas diária por uma vida melhor.
Quantas conversas, com inspiração dessas árvores, desenvolvi ali com meu filho, Kiko, sobre as caminhadas necessárias para a ampliação de conquistas e amizades, sempre em parceria com as árvores e os passarinhos que as frequentam.  E gorjeiam aqui e acolá também. 
Às vezes, sentado por ali, perto do coreto, olhava para cima com o propósito de escolher a árvore mais simpática. Gostava da folhagem de uma e dos galhos de outra, das que peneiravam os raios solares com mais graça e outras que desenhavam as sombras mais inspiradoras para a imaginação. Acabava por concluir com a frase dita por Joana, minha sobrinha, quando tinha pouco mais de cinco anos de idade: “Gregório, cada uma é cada uma e todas são bonitas”. E assim, me emprenhava com a boniteza daqueles eucaliptos.
 O tempo passa, umas se vão, outras ficarão, outras chegarão assim como todos nós na vida. Precisamos cuidar para que muitos desfrutem desse privilégio de usufruir de um espaço público que nos ajudem a respirar melhor e entender o mundo como possível para a poética e o afeto. 
Ainda bem que agora se vislumbra essa demonstração de cuidados com a nossa praça e com as nossas parentes árvores de grandeza imemorial. 
Agradeço aos leitores por consentirem essas linhas aqui escritas de maneira tão pessoal e afetiva. 
Uns parentes meus, professores do Povo Ticuna que habita a Amazônia, escreveram e ilustraram um livro precioso chamado Livro das Árvores*, de onde extraio o poema, O voo das folhas:
 “Com o vento
 as folhas se movimentam. 
E quando caem no chão
 ficam paradas em silêncio”.         
*Livro das Árvores – Jussara Gomes Gruber (organizadora). Benjamim Constant: Organização Geral dos Professores Ticuna Bilíngues, Amazonas - Brasil - Caixa Postal 0023. CEP 69630-000.

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