Que John Malkovich nada: queremos ser João Clemente!
Ser o favorito da editora dá nisso: além de poder se autopromover numa semana, na outra a pessoa tira férias! Essa moleza o resto não tem. Toma-lhe chibatada! Ok, a gente gosta quando alguém decide colaborar e mandar um texto pra cá. Aliás, quem quiser participar pode mandar a colaboração pro nosso e-mail (que fica ali no canto superior direito da página—se a Lara não o trocou de lugar...).
Aparências
Priscilla Franco
Já disseram que nem tudo o que reluz é ouro. Que o digam as bijuterias que brilham por aí. Piratearam os piratas, que em vez de atravessarem os mares em busca de tesouros, hoje são sinônimo daquilo que tenho, mas não poderia comprar. Em uma época em que se confunde original e cópia, o que mais se vê são fotos montadas, vídeos editados, e uma enxurrada de sorrisos falsos. E daí? O que importa é parecer.
Seguro os pezinhos quando escuto um pagode. Moça fina não pode ser chegada ao batuque. Precisa ser descolada, viajada, culta e bem-informada. Ou, pelo menos, fazer de conta que é. Para isso não precisa ler. Não o livro propriamente dito, já que tem resenha na internet. Decoro os nomes de alguns autores e vou para o espelho, ensaiar a cara de conteúdo.
Por falar em cara, quem sabe fazê-la está ganhando uma fortuna. Qualquer nariz de batata, orelha de abano e cicatriz de tombo denuncia uma carteira vazia. E, como você bem sabe, falta de dinheiro, tristeza e velhice estão fora de moda. Uma população de ricos felizes e jovens que levaram a falência as financeiras, psiquiatras e asilos.
Para completar, somos todos saudáveis. Tudo o que comemos é light, abolimos o refrigerante, e as academias vivem lotadas. Também contribuímos para o bem do planeta, reciclamos, reaproveitamos, e amamos os animais. Suspiro e penso: quem dera o mundo fosse assim, tão perfeito! Mas é. Pelo menos na imagem, caprichada no Photoshop, que compartilhei no Facebook.
MINUTO ESPORTIVO
Leonardo Lima
“Olho no lance...ééééééé mais um gol brasileiro meu povo! Foi foi foi foi foi foi foi foi ele... Romário, o craque da camisa número 11! Confira comigo no replay.” Quem não se lembra do estilo único de narração de Sílvio Luiz, um dos locutores de mais famosos do país. Atualmente na RedeTV!, Ele também trabalhou como árbitro de futebol, repórter e, até mesmo, ator. Seu auge aconteceu na década de 90, quando integrava a equipe da Band. Após ter sido repórter de campo, passou a ser locutor esportivo, ganhando, aos poucos, o posto de titular dos jogos e transmitindo várias Copas do Mundo.
Sua irreverência e o timbre bastante grave são marcas registradas. Durante as narrações, criou bordões e frases de efeito como “pelas barbas do profeta”, quando um jogador fazia um lance bizarro, “acerte o seu aí, que eu arredondo o meu aqui.”, quando o jogo estava prester a iniciar ou “vai mandar o sapato daí” quando um jogador se preparava para chutar de uma longa distância. Sua irreverência é tanta que durante uma transmissão ele chegou a atender um telefonema de sua mulher.
Em 2008, Sílvio Luiz foi demitido da Band, porém permaneceu no Grupo Bandeirantes, sendo utilizado no canal fechado BandSports, onde narrava jogos do Campeonato Potuguês. Entretanto, dez dias antes da Copa do Mundo da África do Sul, ao saber que não seria aproveitado pediu demissão e se desligou definitivamente da emissora pela qual trabalhou durante 20 anos.
O reconhecimento pela originalidade de seu trabalho não ocorreu apenas em território nacional. A Konami, produtora japonesa de jogos de videogame, o convidou para ser o narrador oficial das versões 2011 e 2012 do game Pro Evolution Soccer, onde o Sílvio pôde inserir diversas de suas expressões. Em uma época onde vemos narradores padronizados, com pouca irreverência nas transmissões e quase nenhuma criatividade, Sílvio Luiz é o exemplo de alguém que fez sucesso trilhando sua própria trajetória sem copiar ninguém. Como ele próprio garante, nunca gritou “gol” em suas narrações.
LEMBRA DISSO?
Amine Silvares
Silvio Santos é o rei da paciência. O dono do SBT já apresentou inúmeros programas em seu canal, mas o que mais marcou a minha infância foi o Topa Tudo por Dinheiro. Com bordões inesquecíveis e quadros absolutamente geniais, o ex-dono do Baú e da Tele Sena conseguiu derrubar a Globo nos níveis de audiência durante as noites de domingo da década de 90.
Com o ótimo bordão “quem quer dinheiro?”, Silvio animava o público, composto majoritariamente por mulheres, vindas de caravanas de diversos lugares. Jogando dinheiro em forma de aviãozinho e fazendo perguntas ridículas para os participantes conseguirem uns trocados fáceis. Quem nunca quis ter o prazer de responder a pergunta “você veio da caravana de onde?”?
As pegadinhas com Yvo Holanda, a locução do Lombardi, o Silvio gritando “Roque!”, a música “Ritmo de festa”, tudo fazia do Topa Tudo Por Dinheiro a melhor opção das noites de domingo. Após ter estreado em 1991, o programa ficou no ar até 2001, quando foi substituído pela Casa dos Artistas. Silvio Santos mostrou sua genialidade mais uma vez furando a concorrente Globo, que estava prestes a lançar o Big Brother.
O programa saiu do ar, mas voltou em 2008. Não é a mesma coisa, apesar de misturar o formato com os dois excelentes “Qual é a música?” e “Hot hot hot”. Silvio, no entanto, continua soltinho e serelepe na hora de apresentar, sempre se divertindo com seus convidados. Para relembrar ótimos momentos, é só procurar vídeos do programa no YouTube. “Silvio Santos cai no tanque” fica favoritado no meu computador.
LER, VER, OUVIR
Rodrigo Pinto de Brito
Imagine-se vivendo em um momento impreciso de um futuro em que as casas são anti-inflamáveis, talvez protegidas com poliuretano microporoso, impermeável e transpirável. Nesse porvir “paradisíaco”, bem como livre de inquietações flamígeras, os bombeiros perderam completamente a função de ser, foram remanejados pelo Estado e, de heróis salva-vidas em constante prontidão para evitar os males materiais causados pelos incêndios, passaram a exercer a mais augusta função naquela sociedade: evitar as chamas criadas na razão e no espírito pela literatura. Seu método, o mesmo de tantas outras épocas: a queima de quaisquer livros e a caçada aos leitores. Mais um paradoxo entre muitos...
Nessa sociedade futurista, o mais delicioso aroma é o do querosene que impregna os uniformes dos bombeiros — porque traz consigo a marca indelével de um extrato social privilegiado, assim como fazem nossos perfumes hoje que, mais do que aromáticos, revelam-nos o nicho e a capacidade de consumo dos usuários; e a única forma de diversão concebível é a TV, com suas imagens hipnóticas, seus programas pró-Estado em que propaganda e entretenimento vazio se confundem.
Eis aí a fórmula infalível e distópica da obra “Fahrenreit 451” (de 1953), do prolífico e falecido romancista de sci-fi, Ray Bradbury (1920-2012), que tanto inspirou e apaixonou (e, porque não, “incendiou”?) o cineasta francês François Truffaut (1932-1985), que filmou uma película homônima (1966).
Se o livro de Bradbury é para, de fato, se Ler, o filme de Truffaut é, de fato, para se Ver. Ambos realizam magistralmente algo que só a linguagem do sci-fi pode pretender: elucidar os problemas e ameaças do presente através de fábulas futuristas, dando-nos preciosos conselhos para se Ouvir e jamais esquecer.
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