“Não sabemos mais quantos insatisfeitos são necessários para se diminuir o número de vereadores a
usurpar os parcos recursos das cidades, nem quantos milhões de assinaturas podem impedir que corruptos voltem a governar”
“Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. ...quem me dera ouvir de alguém a voz humana...”.
Conheci versos desse “Poema em linha reta” de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, na música de uma banda do movimento pós-punk paulista no fim da distante década de 1980, a Patife Band. Admiravelmente executado pelo olhar punk, transmitia todo o sentimento de violenta inconformidade de Pessoa. Mas aquela ainda era época de homens reais, que erravam e acertavam mirando em suas ideologias. De políticos com histórias recentes de luta, cerceamento da expressão de suas opiniões e exílios.
O poema de Pessoa é mais atual que nunca. Hoje todos são príncipes, irreais, focados apenas no dinheiro e no poder, intocáveis, e a realidade na mídia parece cada vez mais apartada da sociedade. Não sabemos mais quantos insatisfeitos são necessários para se diminuir o número de vereadores a usurpar os parcos recursos das cidades, nem quantos milhões de assinaturas podem impedir que corruptos voltem a governar. Universidades públicas estão em greve, pois, abandonadas às trevas, pegam fogo ou desmoronam por falta de infraestrutura, mas somente deputados têm aumento de salários. Se existe uma saída parece ser a de apelar ao bom senso de uma única (e isolada) figura pública: Veta, por favor!
Nesse momento de escolha de candidatos para o próximo pleito eleitoral, em Manaus há políticos que, misteriosamente, se dizem impedidos de se candidatarem por razões éticas, desejam se manter imiscíveis com a corrupção e os conluios obscuros que a cercam. Sim, essas pessoas ainda existem, apesar dos fatos não aparecerem, e é aí que reside o mistério: o que nos escondem e com o que não concordam. As cabeças pensantes do país parecem estar adormecidas, suas bocas, caladas. Meus heróis da juventude se foram. Nem sempre foram levados por uma overdose,a maioria apenas desapareceu da vida, do mundo, da mídia. Onde estão os novos irmãos Villas-Boas, e Henfil e Betinho, os novos Oswaldo Cruz, os Buarque e os Holanda, que não mostram os caminhos? Ainda que os novos não apareçam, os antigos nos deixaram suas palavras, suas obras, seus exemplos.
As cidades que receberão os jogos da Copa do Mundo e toda a região de seu entorno devem se preocupar muito com os governantes que elegerão este ano, pois bilhões de reais estarão sob seu controle. Terão o poder de trazer uma vida melhor e mais infraestrutura para a população ou mergulhar em dívidas de obras faraônicas os insipientes recursos disponíveis para pagar professores e médicos. Que sejam homens e mulheres que têm ideologias, vidas familiares, que erram e acertam, que sejam verdadeiros e reais, e não marionetes inexpugnáveis dos jogos de poder.
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