“Este é o momento de enxergar mais longe, construir reservas municipais, organizar a coleta seletiva de lixo, aumentar o tamanho das calçadas e construir ciclovias, em especial nas cidades do entorno de grandes centros, como Nova Friburgo”
Anomalia refrativa caracterizada pela dificuldade visual para longe. Esta é uma das definições para miopia. De problema físico que altera a visão, miopia tornou-se um termo para descrever pessoas, comportamentos e opiniões em que só o curto prazo, imediatista, é observado. A incapacidade de olhar mais ao longe, não só no espaço, mas também no tempo. É possível ver ao longe sobre os benefícios da Copa do Mundo, mas poucos estão conseguindo enxergar.
Com times de futebol muito fracos, pergunta-se no Amazonas se serão necessários 200 ou 300 anos para que as bilheterias dos campeonatos regionais paguem os custos da belíssima Arena da Amazônia, que sediará os jogos da Copa em Manaus. Tem-se levantado também a questão do que fazer com tantos quartos vagos depois do evento, talvez fechar os hotéis recém-inaugurados. No Rio de Janeiro, a reconstrução do Maracanã também levanta dúvidas quanto ao investimento realizado.
Mas o que há de comum nestes dois casos, destes estados tão distantes um do outro? Ambos têm uma óbvia vocação pela exploração sustentável deste meio ambiente. Estão também igualmente distantes de europeus e asiáticos, turistas que preferem destinos em que a infraestrutura seja melhor, ainda que as belezas naturais não se aproximem (nem de longe) às montanhas, baías e praias do Rio de Janeiro; às florestas virgens e sua biodiversidade, aos rios e suas praias paradisíacas da Amazônia. Preferem cidades limpas, com o meio ambiente preservado, em que existam menos carros e ônibus poluentes. Mais bicicletas e, com elas, uma população mais saudável. Árvores e ciclovias trazem ar puro, beleza e saúde; e também empregos e turistas!
Com toda esta natureza exuberante, as principais indústrias desses dois locais deveriam ser o turismo e os serviços ambientais. Hoje, entretanto, as indústrias petrolífera e metal-mecânica pesada do Rio e o polo industrial eletroeletrônico e de duas rodas de Manaus são os principais fomentadores do PIB local. Indústrias que em muitas cidades desses estados trouxeram populações flutuantes, que agremiam mais pobreza e violência e não são sustentáveis no médio prazo, ainda que tragam empregos rapidamente.
A miopia política não percebe que um evento mundial, que será acompanhado por bilhões de pessoas, é uma oportunidade única para divulgar e difundir as belezas naturais locais. As mesmas obras de infraestrutura que prepararão as cidades para receber os turistas da Copa as tornarão aptas a receber outros turistas posteriormente, uma fonte de recursos que permanece depois do evento e se torna importante para o desenvolvimento sustentável das cidades. Estarão mais adequadas ao convívio humano, ambientalmente mais saudáveis e bonitas.
Este é o momento de enxergar mais longe, construir reservas municipais, organizar a coleta seletiva de lixo, implementar os ônibus elétricos e os táxis a gás natural, limitar o tamanho das ruas, aumentar o tamanho das calçadas e construir ciclovias, em especial nas cidades do entorno de grandes centros, como Nova Friburgo.
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