A paixão de conhecer o mundo

Por Valfredo Melo e Souza (*)
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
por Jornal A Voz da Serra

“Vovô olha uma piscina em pé!” Fala uma criança passando de carro em frente a um edifício de trinta andares, todo espelhado e reluzente. Com um leve sorriso, ensimesmado, o homem mergulha no poema de Manuel Bandeira:

“O arranha-céu sobe no ar puro/lavado pela chuva! e desce refletido/ na poça de lama do pátio. Entre a realidade e a imagem! no chão seco que as separa! quatro pombas passeiam”.

E, como nos inspira o poeta, entre a realidade e a imagem sonhada, quatro pombas passeiam dentro da criança: o que fazer

como fazer

com quem fazer

com o que fazer.

E tantas outras são as perguntas que revoam em suas cabecinhas, dando impulso e atitudes, iniciativas e experiências no seu maravilhoso mundo de buscar, inventar, criar, assumir o risco da descoberta e da caminhada... e as reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua, por conta própria, o seu caminho ... muito mais importante que as bússolas que, pré-traçando caminhos, acabam por impedir as descobertas, inibindo o seu caminhar e aquilo que lhe é mais puro: a paixão de conhecer o mundo.

Pois é. Quando se tira da criança a possibilidade de conhecer esta ou aquela ilusão da realidade, na verdade, se está alienando-a de sua capacidade de construir seu conhecimento, de construir o seu universo encantado.

Instigante é o apólogo da dúvida: “Um rei ao desfilar à frente de seu exército, ouviu, do meio da multidão, o brado de um grupo de cegos a lamentar que não sabia como seria um elefante. O rei ordenou que os cegos fossem colocados de modo a poderem tocar o elefante. Cada um deles passou a afirmar, conforme a posição em que estava, ser o elefante parecido com uma coluna rugosa, com uma lança grossa e muito lisa, como uma cobra grande e forte, com um muro rugoso”. Cada afirmação era contestada pelos demais. Por fim, crescem as discussões e nasce o entendimento: as dúvidas são parte da certeza.

Neste mundo cada vez mais “pirandeliano” em que milhares de verdades habitam uma mesma realidade, grassam as incertezas. Os hábitos, as ideias, a crença, a cultura, se hão estagnado no marasmo da normopatia educacional como se impresso num aspecto de imutabilidade das leis naturais.

Brincar é viver, e viver é brincar seriamente. A criança brinca na vida real... e é brincando que ela compreende por si mesma, aquilo que imagina; e com a imaginação, a sensibilização, a descoberta do movimento, cor, forma, ritmo e som ela tem oportunidade de descobrir-se, relacionar-se e integrar-se com o “universo vivo” que constitui a existência humana, proporcionando-lhe uma postura crítica-reflexiva no decorrer de toda a sua existência.

Vamos ajudar as crianças a encontrar o tesouro natural que por direito lhes pertence.

(*) jornalista e escritor em Brasília

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
TAGS:
Publicidade