Espaço de Leitura - O homem da máquina de escrever — um “causo” bem carioca

sexta-feira, 01 de julho de 2011
por Jornal A Voz da Serra

Quem viveu no Rio de Janeiro nos anos 50 certamente se lembra bem de Paulinho Soledade que, junto com companheiros de boemia como Carlinhos Niemeyer e Sergio Porto, fundou o Clube dos Cafajestes. Lá ele conheceu Fernando Lobo, com quem compôs “Zum-zum”, gravado por Dalva de Oliveira em 1951. Grande contador de histórias, ele entretinha a todos com causos da boemia carioca, como o relatado abaixo por João Marcos Cavalcanti de Albuquerque.

Paulinho Soledade perdeu a mãe muito cedo, e seu pai, comandante da marinha, se mudou para ilha de Paquetá de onde nunca mais saiu.

Dizia ele, que o pai cortou todas as suas calças transformando-as em bermudas, vivia com os pescadores e até para receber seu soldo na marinha deu procuração para um amigo fazê-lo. Boêmio inveterado.

Paulinho tinha a quem puxar, pois, como diz o ditado, quem sai aos seus não degenera.

Soledade, então, órfão de pai vivo, foi criado pela avó, que morava na Urca.

Nessa época áurea do Rio, a Urca abrigava o Cassino do mesmo nome onde jogava-se, dançava-se e onde aconteciam shows caríssimos, apresentando astros internacionais e a nata dos artistas brasileiros.

Na época, Paulinho tinha uns 17 anos, o que não o impedia de frequentar o cassino e a vida noturna do bairro, pois seu físico atlético enganava o juizado de menores. Passava a noite dando em cima das coristas do show ou jogando sinuca com os cropiers até o sol nascer.

Contava ele, que quando voltava da farra lá pelas 6 da manhã, via sempre um sujeito sentado na varanda de sua casa catando milho em uma máquina de escrever, e falava com seus botões: Esse cara é maluco escrevendo já a essa hora.

O tempo passava e a cena se repetia.

Até que um dia ele não se conteve entrou varanda adentro e se apresentou ao sujeito:

— Eu sou o Paulo Soledade e quem é você?

Modestamente o madrugador respondeu:

— Me chamo JORGE AMADO, muito prazer.

Daí nasceu uma grande amizade que durou por toda a vida

João Marcos Cavalcanti de Albuquerque, carioca, cronista,

escritor bissexto, ex-boêmio, e estudioso da MBP. Tem uma coluna: “MPB e Outras histórias” no Jornal A Gazeta de Notícias.

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