Multitude - 25 de julho

Por João Clemente Moura
sexta-feira, 24 de julho de 2009
por Jornal A Voz da Serra

A estétyka de uma vida

(Glauber, aquele que não é o filho da Saudade)

O cineasta Glauber Rocha era descabelado, falastrão, polêmico, romântico, intenso, grandiloquente. Poucos brasileiros se encaixam tão bem na definição popular de gênio louco quanto ele. Sua notoriedade, entretanto, é restrita a um punhado de críticos e cinéfilos. E não é pequena, visto que Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe ou O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro são, no exterior, frequentemente citados nas listas de melhores filmes do mundo.

Glauber nasceu no interior da Bahia, em 1939. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1981. Quando criança, dividia seu tempo entre as brincadeiras com os amigos e a leitura de livros. Na mocidade adulta, escreveu peças de teatro e artigos para revistas. Escolheu mais tarde o cinema porque acreditava ser esta uma forma de comunicação forte e direta com o público: Glauber Rocha queria acender as pessoas.

Em seus filmes, o impacto da experiência visual e sonora - e o seu sentido implícito - é mais importante do que a sequência ordenada, do que a narrativa em si. Disse Marcel Proust certa vez que os grandes artistas criam algo como um novo idioma. A obra de Glauber é um belo exemplo disso e, emblematicamente, nem mesmo a escrita escapava à sua peculiaridade: nas cartas, projetos e artigos que assinava, alterava a grafia das palavras as quais era assim possível preservar sua sonoridade. Chamavam-no por isso de Guimarães Rosa da datilografia.

O cineasta passou uma parte considerável da sua vida fora do Brazyl, exilado voluntariamente, pois acreditava que a ditadura militar o pegaria cedo ou tarde. Esta fase foi marcada por visitas a diversos países da América e da Europa, encontros com celebridades e filmes um tanto estranhos. Em 1974, um episódio em particular feriu drasticamente a sua imagem. A revista Visão havia pedido a ele, que estava em Roma, uma entrevista por carta e obteve como resposta um dos famosos manifestos-desabafos de Glauber. Nele, o artista demonstrava abertamente o seu apoio ao governo Geisel, sem poupar elogios. A redação da revista, incrédula, chegou até mesmo a pedir uma confirmação de autenticidade da carta. Quando a publicação enfim chegou às bancas, não demorou muito para que o meio intelectual do país o considerasse maluco ou vendido. Mas o que Glauber não havia explicado na carta fora que, desde 1972, ele, Darcy Ribeiro e João Goulart vinham discutindo o assunto e chegaram à conclusão comum de que o apoio a Geisel era, no momento, um estratégia necessária à redemocratização do país, pois se temia que militares mais linha-duras, favoráveis à perpetuação da ditadura, assumissem a presidência. Mas Glauber, quando questionado sobre essa posição política que adotara, respondia rispidamente aos amigos com injúrias pessoais descabidas, reforçando ainda mais a idéia de que havia enlouquecido.

Somando-se isso às críticas negativas sobre os seus trabalhos mais recentes, ao falecimento do pai e ao trágico falecimento da irmã (acidentalmente, num poço de elevador), Glauber se tornou amargurado, negativista, isolado, mórbido. Afirmava que sentia a morte se aproximando. Nas últimas semanas de vida, internado em hospitais, Glauber acabou falecendo sem que os médicos conseguissem chegar a um diagnóstico. Só podemos afirmar que a sua morte foi polêmica como sua vida e sua arte.

As pessoas conhecem mais o nome Glauber Rocha do que seus filmes.

- Glauber, você poderia falar um pouco sobre os seus filmes?

- Filme é pra ver, não é pra falar não.

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