Uma nova Saúde é possível

terça-feira, 13 de maio de 2014
por Jornal A Voz da Serra

João Hélio Rocha*

A Saúde vai mal, mas pode melhorar. É preciso identificar as causas para corrigir seus defeitos. Entre as principais causas do caos na Saúde, as deficiências de gestão estão em primeiro lugar. O SUS é mal gerido. Costuma aparecer nos jornais e na televisão que o tomógrafo de um grande hospital está sucateado ou mostram um almoxarifado cheio de remédios vencidos. Por que não acontece isto nos hospitais particulares? Porque na iniciativa privada há controle e cobrança, há definição de quem é o responsável pela manutenção dos aparelhos médicos e os remédios são permanentemente checados.  A falta de motivação no serviço público é frequente. Sem motivação, nada vai para frente. O médico vai trabalhar no ambulatório, tem à sua frente uma mesa de  de ferro batido sem gavetas,  um lençol na mesa nem sempre limpo e que não é trocado com frequência; procura um termômetro, está quebrado; a lanterna está sem pilha; precisa de um otoscópio para examinar o ouvido, não tem. Isso acontece frequentemente. O médico tem apenas uma caneta Bic e um estetoscópio para trabalhar. A municipalização  é o segundo problema em ordem de gravidade. A Saúde foi colocada nas mãos dos prefeitos, que não são obrigados a entender de assistência médica e isto tumultua a administração municipal. Várias providências foram empreendidas para melhorar a Saúde, mas agora outras são necessárias.  A mais abrangente foi a criação do SUS, em 1988, para absorver todos os demais serviços públicos de saúde. Sua implementação deve ser compreendida como um avanço na assistência médica porque qualquer pessoa pode utilizá-lo. Mas o funcionamento do SUS está deixando muito a desejar. Por que o governo não faz um estudo comparativo dos seus métodos operacionais com os dos planos de saúde? Por que os usuários do SUS não têm um Cartão de acesso como os usuários dos planos de saúde? Não precisaria entrar em fila; bastaria apresentar o Cartão para marcar a consulta. Também é um entrave de grande expressão a  desmotivação dos prestadores de serviços em todos os níveis, provocada pela desorganização do sistema. A escassez de recursos financeiros tem sido colocada erroneamente como o mais importante fator do mau funcionamento do SUS. Falta dinheiro, é verdade, mas é preciso gerenciar melhor o que se tem. São causas que interagem entre si e provocam outras tantas, gerando um círculo vicioso de ineficiência que é exaustivamente conhecido. Uma nova Saúde poderá emergir da reestruturação do SUS baseada especialmente na criação gradativa e seletiva de distritos microrregionais de saúde (a serem compostos por um grupo de municípios vizinhos e um conjunto de bairros nos grandes centros) em substituição à municipalização, na adoção do Cartão do Usuário e também contar com  a participação dos usuários. Uma nova Saúde será possível se todos procurarem participar da solução dos problemas que se eternizam. Quando  apenas se fazem crítica e poucos se interessam em compreender o processo assistencial, fica difícil superar o caos. A Saúde depende de todos nós; não é obra só do governo.

*(condensado do capítulo XI do livro "Memórias de um médico visionário—uma

história de amor à assistência médica”,  de autoria do Dr. João Hélio Rocha,

disponível pela internet através do e-mail [email protected])


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