Na matéria publicada na edição desta sexta-feira, 11, demos início a um assunto polêmico: estupro. Um tema delicado, sério e que merece total atenção. Em março, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão que pertence ao governo federal, divulgou números de uma pesquisa realizada no ano passado, "Tolerância social à violência contra as mulheres”. De acordo com a primeira publicação, quase três quintos dos entrevistados, 58%, alegaram que os estupros estão diretamente relacionados ao comportamento da mulher e 65% afirmaram que as roupas também incentivam a violência sexual. E foi a partir desses resultados que começou um movimento em todo país em protesto contra a violência sexual contra mulheres. Mas no fim da semana passada, o mesmo Instituto divulgou errata admitindo falhas graves nos resultados da pesquisa. Na verdade, não foram 65% dos brasileiros que concordaram completamente ou parcialmente com a frase: "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, mas sim 26%. Independente deste resultado, o fato é que a realidade ainda é alarmante. Confira a segunda parte da reportagem sobre o tema.
Centro de Referência da Mulher e a violência sexual
Karine Knust
O Centro de Referência da Mulher (Crem) é um espaço reservado para atender mulheres vítimas de violência, com atendimento de caráter preventivo e acompanhamento assistencial, jurídico e psicológico.
"Primeiro, realizamos avaliação emocional com a assistente social e psicóloga. Também é preciso avaliar se a vítima teve algum acompanhamento clínico e se está passando por uma gravidez indesejada (nesse caso, fazemos então um contato com a maternidade para que haja um acompanhamento também nesta área), e a partir daí um acompanhamento psicológico ou até, dependendo do caso, um acompanhamento psiquiátrico devido à intensa depressão que acontece em alguns casos. Normalmente, recebemos mulheres adultas, mas se por algum motivo tivermos que receber adolescentes ou crianças, elas têm que vir sempre acompanhadas dos pais. Os casos de estupros que são encaminhados aqui para o Crem geralmente são estupros familiares. Meninas adolescentes que sofrem estupros por parte de seus pais, padrastos, tios e avós. O último caso que tivemos foi de uma menina de 12 anos estuprada pelo avô”, explica Rosângela Cassano, coordenadora do Centro de Referência. Também de acordo com Cassano, o Crem nunca recebeu casos de violência sexual acometidas por pessoas desconhecidas, apesar de a UPA já ter encaminhado ao Centro de Referência vítimas de estupro nessa situação. Todas se recusaram a ir, e a coordenadora acredita que talvez isso tenha ocorrido por vergonha ou até mesmo medo.
De acordo com Rosângela, só no ano passado o Crem recebeu cerca de 12 casos de estupro familiar. E diferentemente do que as próprias vítimas imaginam, muitos estupros acontecem entre casais. "Muitas mulheres ainda não têm coragem de se expor a ponto de vir pedir ajuda e a mulher que é violentada por seu marido não entende que sofreu estupro, ela acha que é dever dela enquanto mulher sucumbir à vida sexual. Quando ela vem para o atendimento pelo fator determinante da violência que, normalmente, é uma briga, passamos a conhecer a história dessa mulher e, através disso, muitas vezes detectamos nela toda a estrutura de um estupro e a questionamos: você sabe que você é vítima de estupro? E normalmente ela diz: ‘Não. Mas ele é meu marido, eu não tenho que fazer isso?’ E naturalmente elas se assustam quando ouvem a nossa resposta: não, não tem”, conta Cassano.
Por mais que tentemos descrever, só quem passou por uma situação como essa sabe o que ela é. Logo depois de ter sofrido violência sexual, é provável que o primeiro pensamento da vítima seja, de alguma forma, se livrar de tudo o que passou, mas é preciso tomar alguns cuidados. "A primeira coisa que a vítima quer fazer é tomar banho e não se deve fazer isso, já que é através do material genético colhido que é possível detectar o nível da violência e as características de quem violentou. O certo é que a vítima não faça nada a não ser ir para delegacia fazer o corpo de delito ou ir ao hospital e dizer que foi estuprada para que assim a instituição possa dar todo o suporte para os exames necessários e medicação”, orienta Rosângela.
Ao ser questionada sobre sua opinião em relação à pesquisa do Ipea, a coordenadora do Centro de Referência da Mulher desabafa: "Essa pesquisa nada mais relata do que a cultura brasileira, infelizmente. Não falo isso feliz não, falo isso muito descontente. Essa realidade é muito velada e as mulheres também colaboram para esse pensamento. As mulheres querem ser capa de revista, mas perguntem se elas querem estudar, fazer uma faculdade... A cultura do corpo da mulher como objeto é cultuado pela própria mulher. A diferenciação que é feita desde a infância entre meninos e meninas, entre a forma de se vestir, colabora, sim, para este tipo de pensamento que foi evidenciado na pesquisa. Escutamos coisas no dia a dia que fazem com que essa pesquisa não nos surpreenda, apenas mostre a aparência machista a qual a mulher é colocada. Um abuso sexual nunca será justificado por nada, achar que justifica é uma ignorância. Mas o que é o machismo e o preconceito? Nada mais do que ignorância. A realidade dessa pesquisa só retrata o pensamento humano que é o culto da aparência e o machismo”.
Eles também não merecem ser estuprados
Quando nos referimos a abuso sexual, normalmente nos remetemos à violência contra as meninas, mas é preciso estar atento ao fato de que muitos meninos também são violentados durante sua infância e adolescência. Diferente das mulheres, além da vergonha e do medo, os homens também têm que lidar com outro problema: os estereótipos sobre sua masculinidade. Culturalmente, o homem é o símbolo de comando sexual numa relação. Quando o abuso acontece, esse valor cultural se inverte e a vítima passa a lidar não só com o trauma gerado pela violência em si, mas também com a contradição do que seria o seu senso de masculinidade. E é exatamente por esse misto de sentimentos que muitas vezes o menino vítima de violência sexual guarda para si a experiência, o que diminui o número de registros e dificulta e estimativa de casos. Mas para que essa realidade possa mudar, a população precisa mudar seu ponto de vista, acabar com o preconceito às vítimas e ser mais sensível à gravidade do crime.
Casos de estupro precisam de mais atenção e capacitação médica
As denúncias e campanhas referentes aos casos de estupro contra mulheres e homens têm aumentado cada vez mais em todo o país. E, de fato, é necessário que a população e as autoridades deem atenção redobrada a esses casos tão absurdos e traumáticos. A maior incidência de violência sexual é contra meninos e meninas ainda crianças ou na fase da adolescência e para atender às necessidades físicas e psicológicas das vítimas é preciso realizar um trabalho específico. "Deveria haver uma orientação bem direcionada aos profissionais da saúde porque nem sempre um bom médico ou enfermeira sabe detectar uma situação de violência e às vezes não estão preparados para receber essa demanda. É preciso haver uma capacitação porque eles precisam ter essa ótica, já que vão colher essas provas de maneira muito mais fácil do que nós. Instituições como a nossa servem para dar suporte a esse atendimento, mas a capacitação é necessária”, reivindica Cassano.
Muito além dos filmes e novelas Relatos sobre a realidade da violência sexual em Nova Friburgo
Para preservar a imagem dos envolvidos nas histórias a seguir, utilizaremos nomes fictícios.
Uma mulher, um homem e uma criança de cinco anos. Tudo estaria bem, se não fosse por alguns detalhes que fizeram dessas pessoas personagens de mais uma entre tantas histórias de violência familiar. Luís Gabriel era um pai de família e viciado em drogas. Um dia resolveu convidar outra mulher para participar de seu momento íntimo com sua esposa, Maria Vitória. O problema era que ela não concordava com a situação. Porém, Luís Gabriel a obrigou a usar drogas durante toda a noite e a fazer sexo com a outra mulher — enquanto apanhava do marido e ficava sob a mira de sua arma. O filho de Luís Gabriel e Maria Vitória, que tinha por volta de cinco anos na época, presenciou a cena assustadora e ligou para a Polícia Militar. A sorte da vítima, e também da criança, foi que os policiais que atenderam ao telefonema levaram o garoto a sério e foram até a residência — já que, surpreendentemente, o menino soube orientar as autoridades quanto ao endereço de onde morava —, prenderam Luís Gabriel em flagrante e Maria Vitória foi levada para um abrigo.
Como já falamos nessa matéria, os maiores casos de violência sexual acontecem entre parentes. Fátima das Dores era uma mulher cadeirante e que vivia sob os cuidados de seu filho, Júlio Antônio, que era usuário de drogas. Para manter o vício, Júlio Antônio usava o dinheiro da aposentadoria de sua mãe e a mantinha em cárcere privado. Como se não bastasse ser roubada pelo próprio filho, Fátima das Dores foi estuprada por ele diversas vezes enquanto esteve em cárcere, até que resolveu dar um basta nesse sofrimento e denunciá-lo. Hoje Fátima das Dores vive em outro estado e seu filho foi preso.

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