Vinicius Gastin
Os gastos são exagerados, e a procedência dos recursos utilizados nas inúmeras obras, questionáveis. No entanto, não há como negar que a Copa do Mundo deixará também um legado positivo nos municípios diretamente envolvidos. O governo federal emprega nas 12 arenas que recebem jogos, nos CTs (Centros de Treinamento) das seleções, nos campos de treino oficiais da Fifa e em reforma de estádios no geral um total estimado em R$ 8 bilhões — destes, R$ 3,9 bilhões financiados pelo BNDES.
O setor de turismo deverá ter uma movimentação histórica — algo em torno de 3,6 milhões de pessoas entre junho e julho — e a expectativa é gerar cerca de 50 mil trabalhos temporários em todo o país, segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Deste total, pouco mais de 10 mil empregos (21,5%) serão oferecidos no Rio de Janeiro.
Nova Friburgo poderia estar diretamente inserida em todo este contexto. De candidata a receber uma seleção, entretanto, a cidade deverá ser mera coadjuvante durante o mundial. A Secretaria de Turismo traçou uma estratégia diferente, e investirá na tentativa de atrair a imprensa que estará concentrada em Teresópolis. "Já fizemos o contato com a Prefeitura de Teresópolis e tentaremos atrair a mídia para o município”, informa o secretário Nauro Grehs. Os restaurantes da cidade promoverão o Festival Gastronômico Sabores de Nova Friburgo, em parceira com o Sebrae, oferecendo pratos típicos dos países participantes.

O estádio Eduardo Guinle receberia uma série de reformas patrocinadas pela Fifa, caso Nova Friburgo fosse selecionada
De possível protagonista a coadjuvante
Durante o processo de escolha das cidades que abrigariam as 32 seleções (no país, 159 se candidataram), a Suderj visitou municípios no Rio de Janeiro, dentre eles Nova Friburgo. Na comitiva estava um amigo do gerente de futebol do Friburguense, José Eduardo Siqueira, e a estrutura oferecida dentro do mesmo espaço no estádio Eduardo Guinle — campo, pista de atletismo, piscina e ginásio — colocou o município no páreo.
"Ele deixou claro que a oportunidade de nos colocar como candidato era grande, e dois meses depois nós fomos procurados novamente. Já sabíamos que os nomes do Friburguense e de Nova Friburgo estavam na lista para receber a visita da Fifa. Ficamos felizes por já estarmos entre as 12 cidades pré-selecionadas. O primeiro aspecto era ter um estádio, para servir como centro de treinamento. Não adianta ser uma grande cidade e não ter essa estrutura de um CT. Não era a quantidade de campos que iria definir, até por ter uma só seleção. E também porque não são vários dias”, explica Siqueira.
Os agentes da Fifa estiveram na casa do Tricolor da Serra no dia 28 de janeiro de 2012, chefiados por Frederico Nantes, gerente de Competição Serviços às Equipes do Comitê Organizador da Copa do Mundo do Brasil. Outros 12 espaços pelo estado foram vistoriados, mas o clima da cidade e a estrutura do clube poderiam ser os diferenciais no processo de escolha. Nantes fez medições, tirou fotos e coletou fragmentos do solo para análise. Os primeiros resultados foram positivos e as adaptações necessárias seriam feitas pela própria Fifa.
"Eu transferi o e-mail para o secretário de esportes Renato Satyro, expliquei a situação e passei todos os detalhes. Recebi outras mensagens e fomos convocados para uma reunião em Vitória. O Renato e o então presidente do Friburguense, Raul Marcos, compareceram e conversaram com o Bebeto [ex-jogador], que era um dos Embaixadores da Copa do Mundo e amigo nosso. Achamos que Nova Friburgo era uma concorrente forte a partir daquele momento”, destaca o dirigente.
Entretanto, algumas questões estruturais exigidas não poderiam ser atendidas. Dentre elas, estavam as questões de deslocamento, acomodação e mobilidade. Nova Friburgo pecou por não possuir um aeroporto e estar distante do terminal mais próximo. O fato de não dispor de 55 suítes com ar condicionado em um mesmo hotel ou pousada e mais outras dezenas para receber os familiares, além de outros detalhes — como a própria questão política — também pesaram contra a cidade.
Ao final do processo, localidades menos conhecidas como Santa Cruz Cabrália (BA), Vespasiano (MG), Mata de São João (BA) e Viamão (RS) foram escolhidas. Além destas, Sorocaba (SP), Vitória (ES), Mogi das Cruzes (SP), Guarujá (SP), Teresópolis (RJ), Belo Horizonte (MG), Foz do Iguaçu (PR), Águas de Lindoia (SP), Cotia (SP), Santos (SP), Curitiba (PR), São Paulo (SP), Ribeirão Preto (SP), Maceió (AL), Rio de Janeiro (RJ), Porto Feliz (SP), Mangaratiba (RJ), Guarulhos (SP), Itu (SP), Campinas (SP), Porto Seguro (BA) e Sete Lagoas (MG) receberão os treinos das seleções.
A obra de reforma e ampliação do estádio Flamarion Vasconcelos, na cidade de Boa Vista, capital de Roraima, é exemplo de benfeitoria nos municípios selecionados. O governo federal investiu R$ 100 milhões para transformar o Canarinho, como é conhecido o estádio com oito mil lugares, em uma arena moderna para 10 mil pessoas nos padrões de qualidade da Fifa. Todo este investimento apenas para treinos e aclimatação. "Com certeza, o Friburguense deixou de ter uma série de melhorias no seu estádio. Uma alteração no solo exige uma reforma total do gramado, alambrado e pista. A cidade também deixa de ganhar bastante”, lamenta José Siqueira.

Frederico Nantes esteve em Nova Friburgo em janeiro de 2012:
primeiras impressões foram positivas, mas a situação não avançou

Durante a visita, o agente fotografou o estádio e recolheu algumas amostras do solo para a análise da entidade
Poucas expectativas para o comércio
Apenas restaurantes e lojas com produtos temáticos devem ter movimento maior
Sem a presença de uma seleção na cidade, a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) espera uma movimentação semelhante à dos mundiais realizados longe do território nacional. "Falta realmente uma infraestrutura pra isso. Nós temos até um bom campo, o do Friburguense, mas não temos uma estrutura hoteleira para atender às exigências da Fifa. O movimento de Copa do Mundo, por si só, já é grande, mas basicamente nas lojas que trabalham com artigos esportivos. Estamos em abril, e tudo ainda parece devagar, mas com a aproximação do evento vai melhorar e virar uma febre de materiais, camisas, bandeiras e outros artigos no país inteiro. À medida que a Seleção avançar de fase, tende a crescer”, aposta o presidente da CDL Braulio Rezende.
A expectativa torna-se maior para bares, restaurantes e lojas que trabalham com artigos esportivos ou alusivos à Copa do Mundo. No entanto, não há previsão de contratações temporárias para o período. "Acho que não teremos esse tipo de contratações. A Copa do Mundo é bem restrita à gastronomia e materiais esportivos. Mas a cada jogo que o Brasil vencer a cidade terá um movimento enorme. O povo vai entrar no clima e os bares e restaurantes terão um movimento consideravelmente maior.”
Apesar do cenário pouco promissor, o comércio mantém as esperanças e aposta no potencial turístico do município para aquecer as vendas. "Uma boa estrutura de turismo receptivo pode incrementar o movimento, e não é difícil trazer turistas nos dias em que não há jogos no Rio de Janeiro. Temos bons locais como Lumiar, a Queijaria Escola, o mel, a moda íntima e outros”, analisa Braulio.

Comércio deve ter movimento ligeiramente maior nos setores
de gastronomia e artigos esportivos durante a Copa do Mundo

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