EDITORIAL - O mal que nos aflige

quinta-feira, 10 de abril de 2014
por Jornal A Voz da Serra

A JUSTIÇA deu mostras de celeridade ao prender, julgar e condenar, num período relativamente rápido, o autor de um crime que matou duas pessoas e feriu dez durante um ensaio do bloco carnavalesco Rastafare, em janeiro de 2013. O autor, um jovem de 26 anos, pegou 104 anos de prisão em regime fechado.

A TRAGÉDIA friburguense vem se somar às estatísticas que revelam como o crime violento está afligindo os países em todo o mundo, afetando particularmente os homens jovens. Segundo estudo divulgado ontem em Londres pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), 437 mil pessoas — quase meio milhão — em todo o mundo perderam a vida em 2012 como resultado de homicídio doloso.

MAIS DA metade das vítimas de homicídios têm menos de 30 anos de idade, com crianças menores de 15 anos de idade representando pouco mais de 8% de todos os homicídios (36 mil), destacou o estudo. Mundialmente, cerca de 80% das vítimas de homicídio e 95% dos autores desse crime são homens. Quase 15% de todos os homicídios resultam de violência doméstica (63,6 mil).

QUASE 750 milhões de pessoas vivem em países com as maiores taxas de homicídio do mundo — a saber: a América e a África —, o que significa que quase metade de todos os homicídios ocorre em países que são lar de apenas 11% da população da Terra. No extremo oposto do espectro, três bilhões de pessoas — principalmente na Europa, Ásia e Oceania — vivem em países onde as taxas de homicídios são relativamente baixas.

OS HOMICÍDIOS ligados a gangues e grupos criminosos organizados, de acordo com o estudo da UNODC, representam 30% de todos os homicídios na América, em comparação com menos de 1% na Ásia, Europa e Oceania. Ainda que picos de homicídio estejam muitas vezes ligados a este tipo de violência, a América tem níveis de homicídio cinco a oito vezes maiores do que a Europa e a Ásia.

A TAXA DE condenação global para homicídio doloso é de 43 condenações por 100 homicídios. No entanto, há disparidades entre as regiões, com uma taxa de condenação de 24% na América, 48% na Ásia e 81% na Europa. No Brasil, muitos matam e poucos são condenados

TAIS números evidenciam uma inadequação das campanhas sobre a violência, cujos apelos se dirigem ao público adulto e falham por não atingir os jovens, faixa mais envolvida nos crimes. Enquanto os adultos opinam entre a garantia constitucional ou as sombrias estatísticas que apontam 1 brasileiro assassinado por arma de fogo a cada 15 minutos, as crianças assistem a tudo sem compreender e os jovens ficam fora do debate.

NASCIDA sob o domínio da mídia eletrônica e da globalização, a juventude cresce assistindo os mais diferentes tipos de violência, acostumando-se com a banalização da vida praticada hoje mundo afora. E, sem a devida formação, admite mesmo armar-se para se defender. É notório o envolvimento da juventude neste tema e, infelizmente, valoriza-se mais a morte que a vida, oferecendo ao jovem uma realidade bem diferente da qual deveria viver.

COMO detentor do uso legal da força, cabe ao governo propor políticas sérias e consistentes de combate à criminalidade, preenchendo, também, lacunas sociais históricas como a educação, a saúde, moradia e emprego. As crianças precisam enxergar um futuro melhor e os governantes não podem frustrar estas expectativas. É preciso investir muito mais do que hoje se gasta, para diminuir tantas diferenças e, se possível, a violência.

MAIS uma vez batemos na mesma tecla — a  educação parece ser a solução de alguns dos problemas mais graves da atualidade, entre eles a violência. Somente pela educação, em sentido amplo, pelo combate à ignorância, é que poderemos criar condições de implantar a ideia de paz e de respeito aos direitos humanos e à natureza.

NESTES tempos de intolerância e agressividade, a educação é a alternativa, não para fazer milagres, mas para formar cidadãos em condições de enfrentar a crise em um mundo de incertezas e perplexidades. E os problemas podem começar a ser solucionados pela sua compreensão. Assim, é pela formação voltada para a valorização dos direitos humanos que se criarão novas perspectivas de vida e de convivência.

TAGS: