Adriano relembra carreira vitoriosa no Frizão e no Flamengo e revela mágoa por aposentadoria precoce

quarta-feira, 31 de dezembro de 1969
por Jornal A Voz da Serra
Adriano relembra carreira vitoriosa no Frizão e no Flamengo e revela mágoa por aposentadoria precoce
Adriano relembra carreira vitoriosa no Frizão e no Flamengo e revela mágoa por aposentadoria precoce

Muito além do esporte...

Na segunda reportagem desta série, A VOZ DA SERRA entrevista o ex-goleiro Adriano, herói do último título oficial do Friburguense, em 2009. Atualmente preparador do clube, teve passagem marcante pelo Flamengo na década de 90 e marcou o nome na história do futebol carioca.


Vinicius Gastin

No próximo domingo, o Friburguense poderá encerrar um jejum de cinco anos sem títulos oficiais. Em 2009, o Tricolor da Serra levou o Torneio João Ellis Filho ao vencer o Tigres do Brasil na disputa por pênaltis, no Maracanã. Herói daquela conquista, Adriano defendeu a penalidade que garantiu a taça e consolidou uma trajetória de sucesso no clube. O goleiro chegou ao Eduardo Guinle consagrado pela passagem marcante no Flamengo e, ao lado de Eduardo, liderou a equipe responsável por levar o Friburguense a um novo patamar no futebol estadual.

"Ninguém conhecia o clube e poucas pessoas acreditavam no nosso sucesso. Tínhamos uma equipe de jogadores qualificados que se preocupavam em jogar bola. Nós pensamos em honrar essa camisa. É um orgulho ser reconhecido como ex-goleiro do Flamengo, mas principalmente, como o Adriano do Friburguense.”


Da infância difícil ao Flamengo

Adriano Francisco da Silva nasceu em Petrópolis, em 7 de fevereiro de 1969, e desde a infância aprendeu a valorizar as conquistas pessoais. Sua mãe utilizava parte do dinheiro destinado às compras do mês para custear o transporte até os locais de treino. "Às vezes eu tinha só arroz e feijão para comer. Mas não posso reclamar, porque meus pais fizeram o impossível para mim e para os meus dois irmãos. Por isso eu fiz uma homenagem para a minha mãe em 2009. Ela foi fundamental para realizar o meu sonho.”

Apaixonado por futebol, optou pelo gol por influência do tio. O início da carreira no Serrano — principal equipe da cidade natal —  aos 15 anos de idade foi apenas um trampolim para a Gávea. Em 1989, ainda na categoria júnior, Adriano rumou para o Flamengo. "A qualidade, naquela época, era muito grande, e era difícil um jovem goleiro do interior chegar a um clube de expressão. Só quem vestiu aquela camisa sabe o quanto é gratificante. Eu chegava a Petrópolis e parava o meu bairro. Era diferente, ainda mais para um garoto da Serra. Uma vez eu falei para o meu falecido pai que eu jogaria no Flamengo e alguns amigos duvidaram. Pude realizar esse sonho.”

O pai de Adriano assistiu a grandes momentos do filho com a camisa rubro-negra. O atleta participou da conquista da Taça São Paulo, em 1990, do título Brasileiro de 1992 e da estreia de Romário, em um Fla-Flu com Maracanã lotado. O camisa 1 teve grande atuação naquele clássico e garantiu o 0x0. "Ficou marcado. Quem está do lado de fora fica nervoso, mas lá dentro não. Depois que acabou o jogo eu pude ver o que tinha feito. Tirei fotos e distribuí vários autógrafos. O Romário me deu os parabéns e agradeceu por ter garantido o empate na estreia dele. De vez em quando a gente se encontra e comenta sobre a partida. Também participei da despedida do Zico no Maracanã, foi um momento inesquecível.”

 

Adriano, Cantarelli e Neneca: passagem marcante pelo Flamengo na década de 90


A chegada ao Friburguense

O ciclo no time carioca teve fim em 1996. No ano seguinte, Adriano defendeu o Vitória da Bahia e a sequência da carreira reservou uma trajetória marcante em Nova Friburgo. O técnico Almir Fonseca intermediou a contratação do goleiro, e à época, o objetivo do Friburguense era evitar o rebaixamento. "Eu falei que era muito pouco. Eu queria ser vencedor no clube. Nós conseguimos a classificação na seletiva e ali começou a história do Friburguense de fato. Desde então, sempre estive aqui. Saí uma vez ou outra, como em 2004 para a Cabofriense, mas sempre com o consentimento do Siqueira (gerente de futebol).”

De fato, o time de 1998 representou um marco na história do Friburguense. A partir do acesso, o Tricolor da Serra permaneceu por 14 anos consecutivos na elite carioca. "Soubemos honrar o clube e o Siqueira. Não é demagogia, mas ele foi o cara que confiou no sonho e realizou. Por isso que eu parei de jogar e continuo aqui.”

A história de Adriano no clube teve o título da João Ellis Filho em 2009 como auge, e o rebaixamento no ano seguinte como o momento mais difícil. O Friburguense levou a pior no triangular da morte contra Duque de Caxias e Resende, consolidando o fracasso de um grupo que não manteve a identificação de anos anteriores. "Quem sentiu de verdade fui eu, o Sergio Gomes, Cadão, Ziquinha, Bidu, Paulinho (preparador físico) e Eduardo. Foi muito doloroso, pois sabíamos a dificuldade de uma segunda divisão. Aconteceram muitos erros, mas não era para termos caído. Voltamos no ano seguinte e foi a primeira vez que um time subiu sem bicho ou gratificação.”

 

Adriano estica o braço direito e defende uma cobrança de pênalti na

decisão da João Ellis contra o Tigres, em 2009: momento marcante pelo clube 

 

Como preparador de goleiro do Friburguense, Adriano utiliza a própria experiência na nova missão


Perda de visão e aposentadoria "forçada”

A queda de divisão não foi o único drama vivido pelo ex-goleiro: Adriano perdeu 90% da visão no olho esquerdo por conta de uma bolada sofrida contra o Nova Iguaçu. Mesmo com a deficiência, o atleta prosseguiu no gol do Friburguense e, inclusive, foi destaque em algumas partidas disputadas à noite. "Defendi pênalti e tudo contra o Volta Redonda. Quando eu estava no Duque de Caxias, o técnico do Floresta disse que era só chutar pro gol que eu era cego. Tive uma grande atuação, e ao final da partida o técnico deles comentou dentro do vestiário: imagina se ele enxergasse. Achei engraçado depois que passou.”

Entretanto, uma dividida com Maicosuel no jogo contra o Botafogo, em 2010, agravou o problema. Ainda assim, a aposentadoria aconteceu antes do desejado pelo goleiro. O Friburguense treinava para a disputa da série B em 2011, quando o então preparador Alexandre Martins anunciou que não contava mais com Adriano. Uma ferida que não cicatrizou e ainda machuca o ex-atleta.

"Não foi o Cleimar, e sim, o Alexandre, preparador de goleiros. Ele foi o responsável por eu ter parado. O que ele fez comigo foi um desrespeito. Nós havíamos conquistado a João Ellis Filho e quando o Marcos voltou de férias ele jogou a série D. Tenho mágoas com o Alexandre até hoje, mas ninguém vai apagar a minha história no Friburguense.”

 

A própria história como exemplo

Adriano aplica experiência na missão de preparar os goleiros do clube

A posição de goleiro é a mais ingrata do futebol. Qualquer erro pode mudar a história de uma partida e as boas defesas são facilmente apagadas por uma falha. Adriano viveu a situação algumas vezes durante a carreira, mas uma delas ficou marcada. "Todo mundo erra. Certa vez, eu falhei contra o Flamengo e um torcedor disse que foi proposital. Aquilo me machucou bastante. Não escondo que sou flamenguista, mas em 2009 eu provei pra ele que acima de tudo eu sou Friburguense. O repórter me entrevistou ao final da decisão contra o Tigres e eu disse que tinha um carinho enorme pelo Flamengo, mas era Friburguense. O que nós fizemos vai ficar para sempre, estamos marcados por nossas vitórias. Eu, Cadão, Eduardo, Sergio Gomes, Ziquinha e Bidu somos as referências do clube.”

Aos 45 anos de idade, o goleiro de Frizão e Flamengo está casado há 15. O filho e os cinco netos não são as únicas responsabilidades: há quatro anos tem a missão de preparar os goleiros do Friburguense. Adriano trata os comandados como filhos e toma as dores quando algum deles é criticado. "Sofro mais aqui fora do que lá dentro. Aqui não tem como ajudar. Fico triste com as críticas, como essas sobre o Afonso. A cobrança vai existir, mas tem certas coisas que são demais. Já passei por isso e sempre falo com ele. Temos que saber administrar.”

Sempre bem-humorado, o agora membro da comissão técnica tricolor garante que sabe conciliar a rotina profissional e a vida pessoal. "Quando eu jogava, tinha mais facilidade para aproveitar a vida, pois eu era comandado. Agora eu sou responsável por ditar as funções e tenho que estar sempre consciente e apto a comandar o trabalho. Gosto disso e sempre vou procurar ajudar o Friburguense.”

 





 

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