Os versos de "Boêmio Demodê”, composição eternizada por Nelson Gonçalves, pertencem a um friburguense que fez história no mundo da música. Neles, Paulo Rodriguez da Silva, o Paulo Vinícius, parecia prever a decadência da seresta, gênero musical que nasceu a partir da serenata. "Eram verdadeiras declarações de amor. Hoje em dia, infelizmente, não existem mais composições como esta”, lamenta.
Aos 75 anos, o músico ainda guarda na memória as lembranças da época, as letras das canções e o glamour da carreira. O amor pela música surge ainda na infância, quando utilizava o bambu para produzir sons sobre a pele, e brincava de banda com os amigos. A música deixou de ser um hobby e se tornou profissão após a gravação do primeiro disco, ainda de 78 rotações. "Eu tinha um violão branco, e certa vez eu estava sentado na sala de espera para fazer um teste na gravadora Odeon. Tive sorte que, nesta tarde, a porta dos artistas se abriu, e um homem saiu lá de dentro para pedir um violão emprestado. Eu o acompanhei junto a um cantor que iria gravar o primeiro long play. Quando ele terminou de passar as músicas, disse que eu tinha pinta de seresteiro. Respondi que era e gostava bastante.”
Ao cantar um trecho de uma das músicas gravadas por Nelson Gonçalves, Paulo despertou a atenção do diretor artístico Valdeno Nunes, e foi convidado para gravar no dia seguinte. "Quando cheguei lá, o contrato estava pronto para assinar. Eu nem acreditei que era verdade”, conta emocionado.
"Nasce” o Paulo Vinícius
O nome Paulo Vinicius surgiu em 1964 com Romeu Nunes, diretor artístico da gravadora Odeon, durante a gravação do primeiro disco. "Paulo Silva não serviria, pois já tinha o Orlando Silva. O Romeu, então, comentou que teria de arrumar um nome artístico pra mim, e sugeriu o Paulo Vinícius.”
A trajetória do músico acompanhou a evolução do disco para o formato de vinil, e neste momento o cantor gravou o primeiro compacto duplo com os sucessos "Perfídia”, "Ela passou” e "Bibelô de Cristal”. "A que mais tocou foi Perfídia. Todas as rádios do país passaram a reproduzir essa música”, comenta.
A relação com Nelson Gonçalves
A gravação de "O Boêmio Demodê” representou um marco na carreira de Paulo Vinícius. O cantor passou a fazer apresentações regulares na churrascaria de Adelino Moreira, a partir de 1970, e a canção era interpretada a plenos pulmões pelos clientes do estabelecimento. A aproximação entre Paulo e o cantor Nelson Gonçalves foi questão de tempo, e a partir do encontro, surgiu a longa e duradoura parceria de sucesso.
"Ele gostou bastante do modo como eu acompanhava as canções com o violão, e pediu para acompanhá-lo em suas apresentações. Então, passei a fazer shows com o Nelson em todos os lugares. Certa vez, tive que provar no programa do Flavio Cavalcanti, na TV Tupi, que o cantor da música não era o Nelson, e sim o Paulo Vinícius. Nós estivemos no quadro Fora de Série para mostrar a verdade. Todos conheciam a minha voz, mas quase ninguém sabia quem era.”
A parceria durou até a morte de Nelson Gonçalves. No último show realizado em Nova Friburgo, no Clube de Xadrez, Nelson não conseguiu suportar o espetáculo inteiro e Paulo Vinicius cantou durante a maior parte do tempo. Esta seria uma das últimas apresentações da dupla, e também do cantor friburguense. "Dei um tempo na carreira e só voltei em 1975 para fazer um long play, pela Copacabana Discos. Abandonei a carreira e nunca mais cantei profissionalmente.”
A bebida e as dificuldades
Paulo sempre viveu da música, percorrendo os mais diversos lugares pelo país. O músico passou por dificuldades e sofreu com o alcoolismo. "Eu cantava a troco de bebida e comida. Muitos outros cantores encerraram a carreira por conta do alcoolismo. Graças a Deus eu nunca experimentei as drogas”, comenta.
Em 1980, Paulo Vinícius recebeu o convite de um deputado — para quem havia trabalhado durante uma campanha política — para trabalhar em um órgão vinculado à Secretaria Estadual de Agricultura. Depois da aposentadoria, o cantor voltou para Nova Friburgo, onde vive com a esposa Maria Célia Daflon. "Não vendi milhões de discos com o Altemar Dutra, por exemplo, mas consegui uma boa aposentadoria. Não terminei sem nada, como algumas feras como o próprio Nelson Gonçalves. Não me arrependo de nada do que fiz e nem do que não conquistei. Hoje vivo na minha casa própria, e apenas espero passar o restante dos anos cantando.”
Entretanto, como artista consagrado e apaixonado pela arte, Paulo Vinícius ainda canta em bares, churrascarias, sítios e até mesmo em outras cidades. Recentemente, esteve em Leopoldina, Minas Gerais, onde foi reconhecido e fez apresentações em algumas praças da cidade. "Sem o mesmo timbre de voz, é claro”, brinca.
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