Nelson Bohrer, o Guguti: Movido a paixão e amor por Nova Friburgo

segunda-feira, 14 de maio de 2012
por Jornal A Voz da Serra
Nelson Bohrer, o Guguti:  Movido a paixão e amor por Nova Friburgo
Nelson Bohrer, o Guguti: Movido a paixão e amor por Nova Friburgo

Dalva Ventura

Nelson Bohrer, o Guguti ou, simplesmente, Guti, respira e transpira memória dia e noite. Sua paixão por Nova Friburgo, e, em especial, pela história do município, tem sido determinante para a preservação de documentos, fotos, filmes, enfim, da vida da cidade. Seu primeiro contato com o Pró-Memória, atual Fundação D. João VI, começou em 1995, quando trabalhava na implantação do projeto Cartão Saúde, durante o primeiro governo do prefeito Heródoto Bento de Mello.

Naquela época, o Pró-Memória funcionava no primeiro andar do Eldoradinho, sobrado localizado no pátio da prefeitura. Como Guguti trabalhava no segundo andar, passava por lá várias vezes por dia. Levado pela curiosidade foi envolvendo-se cada vez mais com o dia a dia daquela, digamos, repartição.

“Eu me envolvi com aquilo ali, imediatamente, ao perceber a grandiosidade do trabalho e também ao conhecer Tereza [Albuquerque Mello], Iracema [Moreira], Regina Laforet e outros que ali trabalhavam com uma dedicação sem igual. Também me tornei amigo pessoal do saudoso Raphael Jaccoud que, nas horas de folga, deixava o gabinete da Secretaria de Governo e ia até o Pró-Memória para um bate-papo descontraído, cujo tema não era outro senão qualquer coisa que se relacionasse com a História de Nova Friburgo.

Analista de sistemas com vasta experiência, Guguti um dia ousou pronunciar lá dentro do Pró-Memória a palavra “digitalizar”. Era preciso salvar, proteger, todas aquelas fotos fantásticas da Nova Friburgo antiga. Foi quando seu René Pegaitaz, empresário da Stam Metalúrgica, apoiou o lançamento do CD-Rom “Nova Friburgo—177 anos”, a primeira coletânea de fotos digitalizadas do município. A ideia vingou e temos hoje uma belíssima coleção iconográfica espalhada por bares, restaurantes e lojas comerciais.

“Voltei para o Rio e só fui reencontrar o Pró-Memória em 2006, já instalado na Usina Cultural. E lá estava novamente a Tereza, ativa e altiva como sempre, cuidando daquele enorme patrimônio. Como a tecnologia anda a mil e a cabeça teima em acompanhar, apesar dos 40 anos e tal de profissão, pronunciei a palavra digitalizar pela segunda vez ali dentro. Agora, não só o acervo fotográfico, mas o arquivo inteiro.”

Naquela época, Guguti começou a experimentar, junto com Jayme Jaccoud e na casa dele, a digitalização de jornais. Isto, na época, não era feito em lugar nenhum. E os dois começaram a trabalhar, a experimentar. Passavam horas seguidas assim: “Não está dando para ler”, “o jornal está encadernado, o que fazer com aquela curvatura?”.

O projeto era e é ambicioso. E bota ambicioso nisso, pois além de enorme, o arquivo do Pró-Memória se modifica constantemente. Um privilégio para Nova Friburgo possuir um arquivo documental tão representativo, um motivo de orgulho para todo friburguense. Guguti costuma dizer que o arquivo Pró-Memória situa-se entre os mais importantes do Brasil.

“Posso afirmar, sem qualquer dúvida, nossa liderança em volume de dados digitalizados, também. Mas, como preservar isso tudo e, ao mesmo tempo, botar todas essas preciosidades ao alcance de todos?”

Por isso mesmo, a proteção dos documentos originais foi a preocupação mais imediata, mas não se resumiu a isso. Ainda era preciso cuidar da modernização do arquivo, pois dela decorre a difusão do acervo através da internet e sua integração com muitos outros arquivos existentes nessa rede.

“O mundo mudou, ficou digital e é necessário estar em dia com as tecnologias que surgem a todo instante. Como já afirmei, sou do tempo jurássico e não me adapto fácil a certas tecnologias. Entretanto, me rendo à ideia de que fui vencido. O estudante de hoje é muito diferente daquele estudante que fomos um dia. Estou certo de que esse mundo digital que desponta é parte dos ideais que esse novo estudante almeja.”

O fato é que a digitalização do acervo do Pró-Memória virou uma obsessão para Guguti. Ponto para todos nós, friburguenses. O trabalho começou em 2009 e hoje, passados três anos, qualquer um pode afirmar que a ideia vingou, pois a metade do que ele se propôs digitalizar, a início, já está pronta. Trata-se da porção mais crítica do arquivo de periódicos—algo perto de 70 mil páginas de jornais—além de aproximadamente 40 livros manuscritos que estavam em estado precário e outros manuscritos que já totalizaram mais de 60 mil documentos. Um trabalho complexo, que exige especialização e uma grande dose de paciência.

Enfrentando obstáculos com perseverança e dedicação

Mas Guguti faz questão de lembrar, mais uma vez, que o arquivo Pró-Memória não caiu pronto do céu. É, sim, fruto de muitos anos de trabalho e dedicação de um grupo abnegado de friburguenses. Desde quando teve início, despretensiosamente, em meados dos anos 1970 até hoje, foram muitas as doações que funcionaram como um fermento. O arquivo foi crescendo, crescendo, até se tornar o que é hoje. Com os trabalhos de digitalização e modernização, as doações se intensificaram, comprovando o entendimento e a aceitação do mesmo por parte da população.

No meio das doações que chegam diariamente à sede do Pró-Memória, Guguti se deparou com alguns exemplares do jornal Aurora Collegial, periódico dos alunos do Colégio Anchieta. Não foi um achado propriamente dito, pois já se sabia da existência de crônicas escritas pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, em 1918, quando foi interno em Nova Friburgo. Mas ele não esperava encontrar tantas crônicas—dez, ao todo—naqueles poucos exemplares.

“Ficamos devendo uma, ‘Extraordinária Visita’. Talvez existam outras. Seria muito bom se o colégio pusesse uma luz quanto à passagem de Drummond enquanto aluno, isto é, fotos do aluno, notas escolares ou alguma outra informação a ele relacionada. De qualquer forma, ali estão os seus primeiros escritos, crônicas inéditas, que podem ser lidas graças ao trabalho de digitalização do Arquivo Pró-Memória.”

Vale destacar que o Pró-Memória, antes um pequeno órgão da Secretaria de Cultura, hoje é um arquivo nacionalmente conhecido, referência no âmbito da História da região Centro-Norte fluminense, respeitado por outras instituições do país. Só que durante anos o Pró-Memória vagou sem destino, de um lado para o outro, ora sob uma responsabilidade, ora sob outra, o que representava, sem dúvida, um risco para a continuidade desse patrimônio.

“A Fundação D. João VI de Nova Friburgo é a instituição pública capaz de proporcionar tudo o que é necessário para a permanência do Arquivo Pró-Memória. E quando falamos em permanência, falamos em futuro, um futuro longínquo, muito além do que nos é permitido enxergar.”

Quem passa algumas horas na sede do órgão, situada no antigo Salão Azul do prédio da prefeitura, fica impressionado com a quantidade de pessoas fazendo pesquisas sobre a história do município. Se considerarmos as buscas no portal do Centro de Documentação Dom João VI (www.domjoaovi.com.br)—500 acessos por dia, em média—é possível ter uma dimensão do que representa o Pró-Memória hoje, para a cidade.

Entre as preciosidades do acervo, estão guardadas no Pró-Memória a planta de Nova Friburgo, de 1864—feita pelos formandos da Faculdade de Engenharia do Rio de Janeiro, sob a responsabilidade do engenheiro Paulo de Frontin, medindo aproximadamente 3m x 1m20—e os três álbuns do centenário de Nova Friburgo, sendo que um deles pode ser visto na exposição “O arquivo e a cidade—de 1976 a 2012”, no Centro de Arte.

A mostra representa uma viagem no tempo. São fotos, jornais e até filmes mostrando a vida e o cotidiano da cidade desde sua fundação. Nelson Bohrer resolveu montar a exposição para comemorar os 194 anos de Nova Friburgo, lembrando que faltam somente seis para chegarmos aos 200 anos.

“A partir de agora, essa contagem regressiva deve ser comemorada a cada ano. A Fundação D. João VI está pronta para isso. Esta mostra deve servir para registrar, de forma definitiva, o nosso projeto do Bicentenário como um marco para finalizar os trabalhos de digitalização. Queremos que essa data seja não apenas comemorada exaustivamente como também oportuna para a realização de grandes projetos de interesse social e cultural.”

Otimista por natureza e batalhador por vocação, Nelson Bohrer não é de se lamentar nem de chorar sobre leite derramado. Mas, certamente, ao longo destes anos, já enfrentou os mais diversos apertos e obstáculos, sempre pensando na preservação da nossa memória. Para começar, dificuldades técnicas decorrentes do pioneirismo da própria proposta, além de falta de recursos financeiros, de mão de obra especializada, de espaço adequado etc. Todas suplantadas com perseverança, criatividade, profissionalismo e muita dedicação pela pequena, mas abnegada equipe coordenada por ele.

E quanto ao futuro da Fundação e do acervo do órgão? A proposta, desde o início, foi de um trabalho de longo prazo, “imprescindível e inadiável por várias circunstâncias e, principalmente, sem conotação política de qualquer natureza”. Nem precisa dizer que além da importância sociocultural destes projetos, estes envolvem uma metodologia complexa, apoiada por recursos tecnológicos bastante sofisticados.

“Já investimos muito. Interromper o fluxo desse trabalho significaria um prejuízo enorme para todos.”

Aliás, a Fundação D. João VI possui outros projetos inovadores de interesse social, como por exemplo, “O Guia do Patrimônio Histórico dos Sertões do Macacu”, feito em conjunto com a secretaria estadual de Cultura, através do Inepac, com apoio do Arquivo Público do Estado.

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