12 de janeiro do ano que se encerra trouxe as mais duras lições. A liminar que a natureza nos deu foi forte em demasia para ser ignorada. Pessoas diversas reagiram das mais diferentes maneiras e todas elas merecem nosso respeito: algumas saíram daqui, mudaram, outras passaram o ano correndo, se mobilizando pelos seus direitos, na maioria das vezes negados e outras tantas vezes protelados, outra grande maioria se capacitou pelo choque e pela necessidade e se organizou para que juntos ficassem mais fortes e tivessem maior voz, outras se debruçaram sobre as causas do evento climático e da catástrofe humana e fizeram o que puderam para que a população aumentasse o seu conhecimento sobre o território que habitam, seu potencial e suas fragilidades—afinal somos povos de montanha e isso gera uma especificidade de habitar, transformar e viver em condições diferentes dos povos que vivem na planície litorânea ou não—, outras foram buscar o significado espiritual do acontecido e, tudo isso é válido porque, afinal, é a soma das escolhas que faz com que o resultado seja um aperfeiçoamento no contrato gentes + natureza.
Vivemos um ano duro no qual se trabalhou o dobro sem se conseguir sequer a metade do que gostaríamos de ter em resultados, em soluções e até mesmo de propostas plausíveis e aceitáveis pela população para nossa construção de um lugar diferente, mais justo, mais igualitário, com mais oportunidades de trabalho remunerado, de moradia minimamente digna para as centenas de famílias desalojadas, desabrigadas e ainda sob abrigo governamental num espaço frio, impessoal dilacerando laços de família. Vamos ter de engolir a dramática estatística de que casa alguma foi construída no ano.
As autoridades gestoras do município durante a tragédia deram margem e produziram fatos para que duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) uma municipal e outra estadual se instalassem para apurá-los. Os relatórios finais de ambas logo estarão à disposição da população. Serão completados pela decisão do Ministério Público (MP) que avalia 41 processos da Prefeitura Municipal. E, por decisão do MP, temos o terceiro Prefeito no período de três anos e, evidentemente o terceiro secretariado para a gestão do município. Tudo dentro da lei, não há o que reclamar.
A parte tudo isso, nos tornamos um dos territórios mais estudados no país com alguns pesquisadores tendo o cuidado de sequer comunicar à Prefeitura que aqui estão fazendo o quê e que uma parceria com governo municipal seria bem-vinda. A gente acaba sabendo pela mídia. É a prepotência da academia mostrando a sua face de atraso dentro do processo de construção democrática da cidadania.
As organizações não governamentais (ONGs) que aqui chegaram para estudar, fazer levantamentos tiveram comportamento contrário e altamente elogiável. Só para citar algumas, a Viva Rio e a Care do Brasil promoveram debates, discutiram na mídia as suas atividades, ajudaram na capacitação da população sempre aliadas à participação popular e disponibilizaram seus dados para o governo municipal. Com um aspecto meritório de contratar para suas atividades nas comunidades, pessoas do município.
Destaque importante para a academia responsável e democrática foi a realização aqui no município durante quatro dias do 16º Simpósio de Geologia da Região Sudeste e 12º Simpósio de Geologia de Minas Gerais com participação de estudantes de geologia dos vários estados da Região Sudeste com apresentação de inumeráveis trabalhos realizados ou em andamento no município que muito vão contribuir para a elaboração de políticas públicas e gestão do nosso território. As autoridades do município e as estaduais aqui sediadas fizeram um imenso esforço de colocar inclusive voos de helicópteros disponíveis para que os participantes dos Simpósios pudessem ter uma visão completa da extensão da catástrofe. E na tarde do último dia sentaram junto com pesquisadores para numa mesma mesa, debaterem com a plenária os avanços e as fragilidades que ainda temos para construir a verdadeira cultura do cuidado, da percepção de risco, da estratégia de alerta/alarme. Foi uma parceria exemplar.
Foi um ano de altos e baixos como nunca antes vivemos nestas montanhas.
Mas três coisas me ficaram muito claras: 1º) a mídia escrita, principalmente os editoriais e as inumeráveis reportagens de A Voz da Serra que vieram registrando, semana a semana, os danos da megacatástrofe em cada bairro atingido bem como os incontáveis programas tanto da Hora Técnica da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Nova Friburgo como do Cidade Real principalmente, ambos na TV ZOOM, canal 10 RCA da televisão aberta bem como os textos mensais do Jornal Alternativa mostraram um esforço inigualável de comunicação para instrumentar a população para o debate; 2º) o papel importante da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Nova Friburgo em proveitosa parceria com a Universidade Cândido Mendes, que ousou implantar um curso pioneiro de pós-graduação em engenharia ambiental qualificando 35 técnicos que trarão uma concreta contribuição com seus trabalhos de final de curso que, sob sugestão da orientadora e professora Betânia Bussinger somado ao esforço do Professor Luiz Fernando Mello, coordenador do curso, versam, todos eles, sobre estratégias de construção de uma Nova Friburgo mais preparada, mais resiliente aos eventos climáticos e serão reunidos em um livro para ser entregue à sociedade no próximo ano e 3º) a megacatástrofe empoderou as lideranças comunitárias das áreas atingidas por força da necessidade de agir organizadas com as suas comunidades de uma forma sem volta, verdadeiramente sustentável de maneira que os futuros candidatos ao executivo e ao legislativo terão de ouvi-las e responder aos seus anseios com compromissos exequíveis em quatro anos e com a coragem de dizer, de peito aberto, aquilo que pode ser feito em quatro anos, aquilo que só em 10 anos e aquilo que só será construído e restaurado em 30 anos ou mais e, se assim fizerem, se eleitos, terão de ouvir o tempo todo a população, dar-lhes crédito, dar conta dos seus mandatos estabelecendo suas metas e governar com a população e, além do mais, deixar claro o que é da esfera municipal, o que é da esfera estadual e o que é da esfera federal. Comunicação e transparência é o que mais precisamos.
A população de Nova Friburgo, ao mesmo tempo tão sofrida e tão leal ao município ou em que nasceu ou que escolheu para viver, tem o direito de acreditar que poderemos construir um município melhor mesmo e nossos governantes tem o dever de ajudar a viabilizar a construção de uma cidade, de um município de excelência.
A natureza que nos cerca, nossas montanhas, nosso verde, nossas águas, nossa fauna, nosso solo generoso e as pessoas das muitas etnias em suas ricas manifestações culturais no sentido mais amplo dessa palavra, que aqui habitam, juntas vão trabalhar pela utopia de sermos uma referência em persistir, se levantar e trilhar a jornada maior em direção à qualidade de vida. De forma igualitária e justa. Aquela que ainda não tivemos desde que as poucas famílias portuguesas com seus africanos escravizados aqui chegaram secundadas pelas 261 famílias suíças destroçadas na viagem pela doença e pela fome que já traziam consigo a utopia do paraíso nas montanhas.
Podemos construir o município que seja referência em meio ambiente e cuidado com a população. Essa pode ser a nossa utopia, mais uma vez. E quanto mais perto chegarmos da utopia e mais para isso trabalharmos mais estaremos merecendo viver nestas montanhas. A elas teremos de nos adequar. Elas aqui estão há milhões de anos, nós só chegamos há menos de 200 anos. A paz entre gentes e natureza pode ser selada por todos nós. Basta respeito mútuo. E muito, muito trabalho.
Engenheira Agrônoma, da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Nova Friburgo e Coordenadora Geral do Conselho Municipal do Meio Ambiente (COMMAM). [email protected]

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