Henrique Amorim
Quem disse que os antigos casarões dos séculos passados não podem conviver em perfeita harmonia com a modernidade, contrastando portas, janelas e paredes de estilo antigo, de forte apelo histórico e cultural, com as novidades do mercado: luzes, computação gráfica e designs arrojados? Pois é, esta possibilidade já começa a se tornar realidade em Nova Friburgo e, o melhor, amparada por lei municipal—a 3.794, de novembro de 2009, que garante o tombamento dos imóveis com valor histórico e que merecem ter suas características físicas, pelo menos das fachadas, preservadas, valorizando o patrimônio cultural do município. Para tanto, o Departamento do Patrimônio Artístico e Cultural da Secretaria Municipal de Cultura vem se debruçando sobre um inventário dos imóveis que têm valor histórico e cultural e que devem ser tombados não só no Centro e seus arredores, mas também nos distritos de Amparo, Riograndina, Lumiar e São Pedro da Serra. Atualmente só no Centro já são mais de 150 casarões catalogados no inventário, a maioria somente com as fachadas tombadas, e cinco deles todo o imóvel, como o solar do ex-deputado federal Galdino do Valle Filho, na avenida de mesmo nome.
A gerente do departamento, Lílian Barreto, comemora ainda a promulgação da lei, que permite uma parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente que, desde então, só libera as licenças das obras de reforma dos casarões após consulta ao inventário. “Quando há um projeto de reforma protocolado na Prefeitura nós iniciamos uma inspeção do imóvel para constatarmos se há interesse em mantê-lo preservado. Na maioria dos casos, tomba-se apenas a fachada e liberam-se os interiores para qualquer tipo de obra”, observa Lílian, lembrando o caso recente da sapataria A Bota Preta, que encerrou as atividades na esquina da Avenida Alberto com Rua Oliveira Botelho e chegou a ter a reforma embargada por algumas semanas, pois o projeto inicial previa a demolição de toda a fachada para dar lugar a um empreendimento do ramo gastronômico. “Neste caso houve uma resistência, mas os responsáveis entenderam a necessidade de preservação da memória histórica. O projeto foi liberado e a fachada será preservada, a exemplo do que aconteceu recentemente, com total sucesso, com as lojas Estilo Livre, na esquina da Alberto Braune com Monte Líbano, Mania de Casa, na Praça Getúlio Vargas e da Autoescola Dinâmica, que ocupará o casarão da Sociedade Humanitária dos Operários, na Rua Augusto Cardoso, mantendo a fachada original”, completa o coordenador do patrimônio material e imaterial do departamento, Luiz Fernando Folly.
Tanto Lílian como Luiz Fernando comemoram o bom entendimento dos proprietários dos imóveis com valor histórico quanto à necessidade de preservá-los, nem que seja só a fachada. “Nova Friburgo já perdeu muito de sua história com demolições que não poderiam ter sido feitas, mas não havia uma lei à época que impedisse isso. Hoje temos até um Conselho Municipal do Patrimônio Histórico”, festeja Lílian. Ao mesmo tempo, o departamento enfrenta dificuldades para conseguir saber se algum imóvel com valor histórico, já tombado ou não, está sendo reformado sem o aval e o acompanhamento do setor para garantir a preservação necessária. Para isso um importante aliado é o disque-denúncia do núcleo de patrimônio artístico e cultural—2527-6008.
“Dia desses nos telefonaram para avisar que uma construção estava sendo erguida próximo à Fazenda do Cônego. Imediatamente fomos lá e constatamos que não se tratava de uma obra proibida—mas, e se fosse? Não temos como percorrer todos os imóveis tombados diariamente”, observa Folly. Ele destaca também que os imóveis que têm as fachadas e os interiores tombados requerem maior dedicação da Prefeitura que, após desapropriá-los, precisa mantê-los com alguma atividade correlacionada ao patrimônio que ele representa. O casarão da Fazenda Rio Grande, por exemplo, datado do século XVIII, e de rico valor histórico com beirais do telhado com até um metro de louça violeta, um material raríssimo, até hoje não foi tombado porque o município não tem como mantê-lo. “Para tombá-lo seria preciso criar lá uma atração turística. E como manter um projeto desses num local distante do Centro?”, questiona Folly.

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