Memória da imprensa: uma raridade na internet

terça-feira, 06 de setembro de 2011
por Jornal A Voz da Serra

No dia 17 de novembro de 1889 foi publicada a última edição do jornal Voto Livre. Estes exemplares foram apreendidos, muitos queimados e outros tantos jogados no lixo. Os assinantes e leitores assíduos desse conceituado semanário, que circulou na região de Cantagalo por quase nove anos, nunca tiveram acesso a uma só linha do editorial que incluía severas críticas aos militares e ao regime republicano implantado no dia 15 de novembro. Um único exemplar foi salvo e arquivado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A partir desta semana, pesquisadores, historiadores, estudantes e curiosos poderão acessar através da internet esta raridade. É só clicar no www.jornalcantagalo.com.br.

Retratar os costumes

O jornalista Álvaro Lutterback Dutra iniciou as suas pesquisas em dezembro de 2010 com a consulta em materiais impressos visando à elaboração de um projeto que atendesse às exigências do Edital 009, da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, cujo conteúdo abordava a “Memória da Imprensa Fluminense”, objetivando incentivar o levantamento, a investigação e a produção de trabalhos originais sobre os periódicos publicados no Estado do Rio de Janeiro.

Após ler muitos artigos e folhear centenas de páginas de jornais, Álvaro Lutterback resolveu focar o levantamento em semanários do município de Cantagalo, situado na região serrana do Estado do Rio de Janeiro, num recorte temporal compreendido entre os anos de 1850 a 1900, pois acreditava estar ali um manancial de informações e dados que poderiam muito bem retratar os costumes, os modos de viver e de fazer política, numa época em que a região desfrutava do apogeu das lavouras de café.

Riqueza e luxo

A região de Cantagalo, nessa época estudada, tinha uma grande importância no contexto econômico do Império. Em 1860, havia mais de duzentas propriedades fazendeiras no local, sendo quase a totalidade cafeeiras, fazendo com que o eixo gravitacional da produção fluminense de café se deslocasse do setor ocidental da bacia do Paraíba (onde se destacava Vila de Vassouras), para o setor oriental, no qual Cantagalo era responsável por mais de 60% da colheita de café, gerando riqueza, luxo, ademais de belas fazendas e intenso tráfico de escravos.

Neste sentido, os periódicos que por ali circularam, nestes cinquenta anos, testemunharam e registraram a dinâmica de uma região num momento marcado pelo fim da escravidão e pela proclamação da República. “Mais tarde pude confirmar que a história de Cantagalo e a história da imprensa local caminharam juntas, completaram-se e explicaram-se”, afirma o pesquisador.

Com o título: “O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo”, a pesquisa foi realizada no Rio de Janeiro e em Cantagalo. “Foram mais de quarenta idas à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, outras tantas à Biblioteca Municipal de Cantagalo, inúmeras visitas a diferentes fazendas da região, além de entrevistas com pesquisadores e historiadores, fora as várias horas ‘navegando’ na internet, lançando nomes e palavras-chaves na busca por mais e melhores informações”, relatou o jornalista.

Impressos centenários

“Pude desfrutar de momentos de enorme satisfação ao correr os olhos por impressos centenários, cujas páginas de muitos dos quais quase se desmanchavam pelas minhas mãos, e onde a cada folha observada surgia um dado, que cruzava com elementos da área econômica, da vida política, do cotidiano, inclusive de ocorrências policiais, do poder do coronel, das lamúrias nas senzalas, das pragas dos cafezais, das enchentes ameaçadoras, das noites no teatro e das grandes festas privadas nos salões das fazendas”, explica ele.

Tal esforço forma um amplo painel e comprova o papel que a imprensa constitui como fonte privilegiada para o estudo da História, pois, com base em seus registros, vestígios e fontes, expõe momentos do glamour e da crise, da abundância e da escassez de um período, nos quais assuntos relevantes, como o tráfico e a escravidão, foram discutidos na arena pública.

O resultado desses seis meses de pesquisa pode ser observado no site www.jornalcantagalo.com.br e nos próximos dias 1.000 DVDs serão distribuído para escolas públicas e bibliotecas em todo o Estado do Rio.

“Pretendo ser um observador que caminha tranquilamente nas folhas dilaceradas de um velho jornal, descobrindo detalhes e procurando fatos novos que possam enriquecer a história dessas terras que um dia foram chamadas de Sertões do Macacu”, completa Álvaro Lutterback.

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